
O vestido lilás.
Era impossível. Não devia ser pensado. Não devia ser ousado. Era um pensamento a ser apagado como uma fase de sua vida. Era agora ela uma profissional. Tinha responsabilidades, horas pra comprir. Tinha nome em placa de acetato. Não podia pensar naquilo que enrroscara em seu neurônio. Defenitivamente não seria correto, pertinente, mesmo exeqüível. Já fora descolada, solta, descompromissada, Loiraça Belzebu. Mas isso fora em 94. Antes da conformação. Antes do PHD, do filho no Positivo Jr, da sub-diretoria regional e do sem tempo pra malhar, correr, nadar. Isso: fora sereia um dia. Nado livre e sincronizado com olhares submergidos em pensamentos. Mas isso tudo fora afogado pela vida. As amigas mais velhas, a responsabilidades, os deixas disso se avolumavam como areia no costado de saveiro no seco da praia. Porém, no fundo não sentia a idade que tinha. Os trintas e tantos lhe mastigavam um tanto mas não a engolira. Será? O desafio na vitrine se insinuava. Pequeno, diminuto, apertado e devassado. Era um vestido lilás de uma moça. E os amigos da filho adolescente insistiam de lhe chamar de tia. O namorado, ou "comis" como o chamava, no escuro da noite a chamava de vadia, graças a Deus. Mas isso era dentro do mundo deles. Um mundo que ela não vivia no avesso. Mas agora ela estava ali, parada na frente daquela botique de roupas que não lhe convia. "Botique de puta" sua amiga rotuladora por falta de fantasia diria. Mas ela tinha alguma fantasia e descarate. Era rebelde. Sempre fora. Achava.Era doida? Dias antes, vira o vestido lilás na vitrine de longe . Não atravessou a rua, era hora do almoço e voltaria para sua cara de cracha. Gostava de desafio mas aquele se apresentava por demais descompassado com sua rotina. O que pensarariam? Que era cega? Louca? Vaca? Puta do vestido lilas do departamente de Marketing? Até já fora tudo isso mas estava curada. Ou não. Passaram-se alguns dias e ela andou duas vezes por aquela rua, cada vez mais perto, mais instigada, excitada até que agora estava diante dele. Olhava o vestido lilás e olhava para si. Será? Como quem direciona um espelho para o sol, se aprumou diante do manequim e sentiu que seu brilho de gostosona ainda reluzia. Era uma mulher agora, dona de seu destino e de se seu Ford Fiesta. Era tesuda ainda. Entrou na loja que não devia. Sem olhar mais nada, para um vendedora loira e siliconada com cara de puta semi aposentada, pediu o vestido lilás da vitrine e foi para prova. Se desnudara da armadura de trabalho e coberta por langeri cor da pele se fitou com a dureza de um juiz olimpico. Fora melhor. Tivera menos dobras. Seios e bunda mais altivos. Seu homem discordava, mas ela sabia. Fora melhor. Fora sim. Até que vestido lilás lhe subiu por suas coxas qual cobra por tronco, o elastano envolveu suas ancas de potranca e abarcou os seios fartos como cachos de uva itália. Após ajustar o conjunto, centrar o mamilos na mira, jogou os cabelos negros pra tráz e se mirrou mordendo o canto do lábio. Uepa! Era como se ela fosse de argila e o vestido mãos de artesão tarado.
Estava mais magra, mais dura, mas empinada, uvas mais suculentas, e até mesmo mais determinada. Aquele era o vestido que iria mudar seu rumo. Iria tocar com ele o lado A de seu repertório. Teria os homens que sempre quis, as invejas das mulheres, os olhares do alto. Subiria. Poderia ser uma daquelas mulheres de diretores, vices. Ocupada apenas de ser gostosa e dizer sim. Trocaria de carro, de endereço, de escola para o filho, de nivel superior pra rica. Seria outra mulher.Uma que guia SUV. Viajava enquanto se mediua girando a bunda de um lado para outro. Era aquilo tudo que seria? Tirou o vestido como mulher maravilha tira o short. Se recompoz, suspirrou. Saiu e deu de cara com a vendedora vaca anciosa.
- Serviu, linda?
-Em mim? Sim. Mas em minha vida não.
Deixou o vestido lilás no balcão e voltou para o trabalho da tarde.

"Mar alto e pesca farta."
Talvez pelo nome da estalagem: Verdes Mares. Talvez pelo frio cortante. Talvez o ambiente de com pratos fumegantes, garrafas a emborcar e conversa sobre sereias nuas. Talvez pelas roupas pesadas, o olhar meio baso e os fios brancos nas barbas dos comensais. Talvez, mais certo pensar, para fugir da minha realidade de segunda feira gelada no fim de mês magro. O fato é que ontem fui almoçar com Grande Jairo, Rick Ricardo Carvalho, Rodrigo Jardim, Fabrizio Italiano, Aroldo Poliglota na Padaria Verdes Mares e, na saída, fiquei a pensar na pesca de caranguejo gigante no Alaska.
Dizem ser esse, de pescar caranguejo, um dos empregos mais duros e mortais do mundo. Não sei ao certo o que dizer ou pensar( só enfrento o mar na barca da Ilha do Mel). Só sei que para meu lombo, Curitiba é tão fria e cinza como o Alaska. E viver de criação aqui, tão instável como fisgar siri no estreito de Bering. O clima é pesado e sempre mudando. Muitas pontas de gelo nos rondam abaixo da linha da civilidade. Boatos, queimas, feitiços, custos, idade, tatuagens não porém, mas calejados como velhos marinheiros eu e meu confrades rimos um riso de pirata e gritamos como um Ahab diante da montanha branca. "Que venha!! Que venha!!!Que venha besta burra, tola e corrupta do trabalho na ponta de uma mar de contas a pagar". Assim seguimos de isca em isca, gole em gole, pescadores de um amanhã melhor.
Sim, somos velhos. Sim, não nadamos em jovens cardumes alegres e coloridos que acreditam em isca artificiais de prêmios, de famas e de limosines. Sim, já tivemos o casco rasgado por cantos fugidios de sereias e promessas cantaroladas ao vento. E sim , graças ao Kraken ou sanha torpe do RH de corta custos, agora somos postos como velhos. Como tal, velhos, sabemos navegar por mares de sargaço, buscar peixe graúdo em toca profunda, fisgar Marlin com linha fina. Em alguma parede de patrão tem um enorme peixe espada envernizado com olho morto vidrado,a nós como prêmio resta a cicatrizes da linha corrida na mão e olhar sábio apontado para além da arrebentação. Sabemos por temos passado por tsunamis, vencidos bonanzas, rezando nas tempestades,engolido algas nas fomes. Sabemos por mirar o farol nos olhos de filhos e mulher em algum porto distante. E principalmente, sabemos porque o velho marinheiro Paulinho da Viola nos contou," não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar".
Termino nosso almoço e, na chuva fina da rua lisa, olho meus amigos indo cada um para sua escuna. Cada um tem suas dores, redes mau costuradas e as suas rotas vigiadas, mas todos tem um velamê aberto para vida. Eternos Tin-tins e Hadocks a degladiar dentro deles. Em cada capitão vejo um tipo de espelho que revela quem sou. Então, não deixo de acenar e pensar comigo "mar alto e pesca farta, capitães."
Dia das mães longe da mãe.
Por um minuto perdi um ônibus. Por esse desgraçado punhado de segundos, perdi o Dia das Mães ao lado de minha mãe. Nunca fui um filho muito próximo, muito presente. Mas nunca fui um ausente como me sinto neste domingo vazio. Falta do que fazer e culpa me levam a olhar fotos dos dias da mães de antigamente. A gente só percebe que aqueles eram os bons tempos, quando os maus vem. Por décadas, o dia das mães era mais um domingo de almoço em família. A gente ia, almoçava macarrão com brachola empalada com palito de pau, tirava fotos e dava presentes e beijos para abrir o sorriso lindo de minha mãe.
Às vezes, faziámos uma prece meio solta diante da refeição fumegante. Se soubessemos o que viria, a gente devia dar mil graças. Havia a fartura, os filhos, o netinho, o marido, a calma e principalmente minha mãe sorria na ponta da mesa. Agora, mesmo se eu não tivesse perdido o ônibus, eu não estaria próximo de minha mãe. O Alzheimar apartou minha mãe de nós. Minha mãe não sabe mais que hoje é dia das mães, nem que tem dois filhos criados, um neto cheio de vida e alegria. Esposa, minha mãe não sabe que o amor que escolheu para casar há 48 anos e que algumas vezes duvidou ser o certo, agora é o melhor e mais dedicados do maridos. Minha mãe não sabe que foi professora por quase quatro décadas, e muitos do adultos com quem cruza na rua a chamam de Professora Célia. As perdas de minha mãe são tantas nos últimos dois anos que ás vezes tenho dificuldade de olhar para seu rosto. No entanto, mesmo assim, ela ainda olha por mim. Às vezes, num flash de lucidez,vejo, em meio ao seu rosto debilitado e atormentado, um olhar de mãe. Passa como uma estrela cadente em noite nublado. mas marca.
Não sei porque justo ela meu Deus tem de sofrer tamanha dor. Quero crer que ó prego que lhe fincam é oque lhe uni a cruz. Em um natal passado, quando a doença já estava bem adiantada, lhe presentiei um cd com músicas golpel.Minha mãe sempre gostou mais de MPB e boleros, mas pela ocasião achei melhor milagres. Pedi para sua enfermeira sempre tocar aquele cd toda manhã. Em um sábado quente e calmo, encontrei minha mãe serena. As janelas do apartemento, que tanto nos davam medos nos dia agitados, estavam abertas, assim como o lindo sorisso da professora aposentada. Me sentei ao seu lado no sofá e ficamos a ouvir a música que falavam de provações, milagres e Jesus. Minha mãe segurava nas mãos a capa do CD e em um dado momento me mostou a lista de quatorze músicas. Meio que aleatóriamente me apontou a oitava faixa e disse suavemente "eu estou aqui" . O nome da música era " Jesus está comigo". As lágrimas rolaram de meu rosto enquanto eu beijei a tempora de minha mãe. Esse foi nosso último diálogo.
Agora à pouco, quando a boca da noite ia terminando de engolir o dia, o telefone tocou. Era meu pai. Eu já havia falado da perda do ônibus com ele mais cedo mas agora ele tinha uma novidadade. O jornal O Guarani no domingo das mães publicou uma crônica que fiz para minha mãe há tempos. Não lembro bem do conteúdo desse texto em especial, mas sei que escrevi quando minha mãe estava plena de saúde, aos 70 anos. Assim, ela soube que não era tão ausente.
Eu ai terminar esse crônica escrevendo "Dia das mães longe da mãe, dia vazio". Mas a ausência de minha mãe de certa forma me trouxe ela mais próxima. Então penso melhor e digo quem teve uma mãe nesse mundo por maior que seja a dificuldade, distância ou doença jamais estara de todo longe dela.
Beijo, Célia.


Um pequeno olhar pelo biquíni grande.
Não sei se é idade. Ou o tédio. De ver as meninas quase sem nada em cima. Mas eu ando curtindo esses biquínis grandes, ianques.Sabem, a nudez mais recoberta, dá mais pano para a imaginação. O descobrir total gera fastio de não querer saber mais. Se você adora a meninas do Pânico, isso pode lhe parece papo de retrogrado, coisa de pastor. Mas é na verdade mais entendimento do tempo e do sentimento.
Por parte do tempo, que ele passa rápido como verão bom e demorar mais para comer um doce faz ele mais marcante. Do sentimento, que a mulher bonita é deusa e merece ser tratada com a mesma reverência. O biquíni maior, ao meu olhar menor, é charme maior. A nudez total sim, se serve para a alcova. Já para a praia é preciso decorar o anzol com pedaços coloridos de iscas cortadas com generosidade.
A cintura baixa em voga, tem um caimento difícil como pouso de módulo lunar. A mulher tem que dedicar ao menos seis meses para aterrisar a tanga no mês de janeiro. Isso é preparação de atleta olímpico e não de gente correria, com vida fora de academia e fomes fora da hora.
Além do caimento, tem ainda a questão do conforto. O biquíni tem que ser generoso primeiro com que veste e depois com quem investe. E tem o tônus muscular que para algumas virou mais importante que a derrocada das bolsas asiáticas. Na véspera do verão, as academias se enchem de mega-mulheres anabolizadas, extra siliconadas, super bronzeadas, Mike Tyson de porrar olhares. Elas me enchem os olhos sim. Mas me parecem como restaurantes que investem demais na fachada e nada na cozinha. Entendo que aquela mulher com rebolado precioso, queira mostrar a riqueza. Até porque como diz o mano Nivaldo " tem bunda tão preciosa por aqui que dona devia vestir calcinha feita de plástico bolha". Mas sigo ponto de vista mais generoso.
Sei que tudo isso é meio como pregação no deserto, só que a areia vem do mar. Vivi muitos verões e não estou mais na crista dos tempos. Mas bem sabe pescadores e poetas, praia é um sentir. E o biquíni maior nos impele a sentimentos maiores, ao menos , na ante sala, dos piores.

Um abridor de lata para o Homem de Ferro.
Sabem, do alto da montanha percebo a via que trassei e notei que desde menino pequeno em Itararé não tenho feito outra coisa além de construir uma armadura. Uma casca leve para me manter protegido do pai no hospital, salvo do divórcio eminente, me criando sozinho “in vitro”. Armaduras leves são fáceis de carregar, e assim fui crescendo. Mas a vida é esmeril e tem gente com muito maçarico na boca. Eu tinha pernas tortas, aparelho nos dentes e lia poesia. Então, fui me armando e blindando cada vez mais.
Depois vieram: uma cabeça voadora, língua de fogo, olhar de raio x, ouvido de morcego, um eventual cotovelo de aço inox para beijar boca de vadio. Funcionou. Por algum tempo o esmeril ficou menos abrasivo e eu, sentado no canto da classe. Mas eu cresci e a armadura foi ficando cada vez pesada, fria, isolante.
Um belo dia acordei, me olhei no espelho e vi que uma armadura nada mais é que uma prisão vagabunda. Estou aqui trancado dentro dela e passo esses bilhetes por baixo da porta para prisioneiros próximos, como você. Sabe, em maior ou menor grau de blindagem, todos estamos presos no lado de dentro de nós mesmos. E até acho que tem que ser assim mesmo, apesar de não ser.
Não ter armaduras nesse mundo duro, é como fazer de caixa de papelão, aquário de peixe dourado. O sentido se perde, o sentido se esvai... o dourado apodrece. No filme do Homem de Ferro, o herói muda seu propósito no mundo após sofrer na prisão e passa a defender invés de só se proteger. O tempo na prisão também me mudou. Troquei a língua de fogo por sentimento, o ácido por suco de laranja, tiro por riso, dor por esperança e a armadura agora é feita de fé.
Hoje é dia de São Jorge, eu estou em sua companhia. Jorge tem uma armadura de herói. Pensam que ela sempre foi assim leve e brilhante. Mas na verdade, eu acho, que o brilho só veio mesmo depois de uma vida de abrasão contra o esmeril.
Salve, Jorge de Ferro.
Ao menos, o Resfenol tenho.
O peso do tempo.
Chego na academia de musculação e pimba!Trocaram as anilhas. Como donuts de chumbo, as anilhas antigas eram pretas com furo no meio e pesavam o número forjado no metal. Já a nova anilha é preta com furo no meio e pesam o número pintado em amarelo. Ambas, velha e nova anilha, tem a mesma forma, trabalham igual, pesam igual. Mas a do número em amarelo na lateral parece mais hype, atual, fácil de notar que pesam 10 quilos ( apesar de eu diferenciar as anilhas pelo tamanho e não pelo número).
As anilhas descartadas mantinham o mesmo peso de quando foram fabricadas, funcionavam como cargas inertes que causam esforço a musculatura e devem ter dado muito tônus ao torso e levantado muita bunda. Entretanto, atritadas umas as outras, estavam meio raladas, eram deselegantes, como tenis com risco, celular com número gasto, raiz branca em cabelo preto. Em tempos modernos e sábios como os nossos, era de se esperar a troca.
As anilhas obsoletas, tinham um aspecto não fresh, lembravam a sua experiência passada, um tempo anterior, ante-vivido, lá dos anos 2007, 1997 ou 1927. Enfim, eram ultrapassadas. Não condiziam com o momento, de pujança de um Brasil que aponta para Copa, para os jogos Olímpicos do Rio, do asfalto e das calçadas novas em ruas legais de transitar em direção aos points hype de Curitiba. Agora, as pessoas se sentem melhor em treinar numa academia com anilhas alinhadas com toda essa mudança do entorno. Dá mais pique! Todo mundo na academia curtiu. Todos, menos o gorila que desenha e escreve: eu.
Gostava da anilha jurássica. Elas me lembravam a primeira anilha que levantei, numa academia de bairro que não existe mais. Num dia de treino nessa academia, na tv de tela gorda, um boletim urgente nos informou o super moderno e avançado ônibus espacial Columbia havia explodido. Ele era o ônibus que iria levar a gente para nossa casa nas estrelas. Agora, o último desses coletivos espaciais deu ontem seu ultimo vôo e aterrou na aposentadoria em algum lugar de coisa passada.
Desse tempo venho eu. Sei que colocam um número em mim, uma data, um prazo de validade. O das anilhas com número forjado acabou. O número amarelo agora é número do momento. Porém, na ultima vez que fui treinar, notei um raladinho no amarelo brilhante e pensei nas palavras de um velho sábio diante do jovens que não davam lugar para sentar na ônibus para casa "Minha vingança será a tua velhice".

O marido auto-limpante
Larissa era meio termo. Nem boa nem má. Nem feia nem linda. Feliz ou triste.
Na escola, Larissa foi mediana. No trabalho, como balconista do Boticário, passável. No casamento, meia bomba.
Larissa conheceu Laércio numa idade que já estava passando da média de mulheres solteiras. Achou que seus nomes combinavam e davam boas iniciais para o lençol de casal e assim casou depois de um tempo médio de namoro cálido.
Casada, a balança de satisfação de Larissa pendeu para o lado da felicidade. Laércio era tudo de bom. Era bem quisto por todos. Seguia bem numa firma de produtos ortodônticos. Não gostava de futebol, de bebidas, de sol, de lua, de confusão e de bagunça. Laércio era arrumado e gostava de arrumação. Como ficou claro logo na primeira noite de lua-de-mel, quando Laércio dobrou cada peça de roupa que tirava dele e da jovem esposa. Larissa gostou da atitude. Era arrumadinha como a vitrine do Boticário, só que mais cheirosa, e não queria homem desleixado em casa.
Foram morar em um conjunto de sobradinhos triplex em Santa Felicidade. Felicidade e arrumação eram seus dias. Cada coisa no seu lugar, cada coisa no seu momento, organizers espalhados pelos quatro cantos e os dois de olho nas dicas da Ana Maria Braga. Faziam jantar à luz de velas antimoscas compradas no Sam’s Club, bebiam Sukita e faziam amor depois da Hebe. Eram os bons tempos! Larissa fazendo compras, Laércio com a camisa dentro da calça, o sol brilhando na mesa de vidro com pé de mármore.
Porém, mesmo com muito Brasso, algum brilho se perde. E, com o tempo, a balança começou a pender para o centro. Larissa foi cansando dos móveis de laca sempre brilhando, flores de plástico e bom ar de spray. Mas o pior era o marido subindo e descendo a escada do triplex de mãos dadas com o aspirador sem fio, dando em cima da lava-louça e de caso com a vassoura mágica. Uma vez flagrou Laércio passando aspirador grande no aspirador sem fio e achou aquilo bizarro, algo sujo, fora da média. Passou a comer Club Social pela casa, para desespero de Laércio.
- Amor, olha a migalhinha aqui, amor. Usa o pratinho.
Larissa não ouvia. Estava lendo a revista Nova. Começou a querer ser outra. Secretamente, começou a sonhar com uma vida nova.
Numa tarde, voltava do trabalho quando o pneu do Ká furou. Larissa não sabia trocar pneu, mas sabia onde encontrar um borracheiro. Rodou até ele comendo o pneu.
Juary é borracheiro meio período e pagodeiro tempo integral. Por isso, era conhecido também por Cuíca. Mas Larissa o chamou de “moço”.
- Moço, tem jeito?
- Tem. Você é aeromoça? Rodomoça?
- Não. Por quê?
- Uniforme bonito.
Larissa achava também e enquanto Juary levantava o carro, soltava porcas e mostrava músculos, Larissa bateu papo e olhou as paredes com folhinhas de mulher nua e lubrificantes de caminhão que lhe lembraram uma matéria da Nova.
Chegando em casa, Larissa encontrou Laércio com Pato Purific na mão. Entrou sem falar muito e foi ao closet. No espelho grande do quarto, se olhou de lado.
Mais alguns meses passaram em arrumação e superficialidades. Um dia de março, Larissa viu na Nova de abril que metade dos casamentos fracassa até o quarto ano. Em outubro fariam quatro anos, mas Larissa não esperou. Metade é 50%. Larissa pediu o divórcio e ficou na média. Pegou alguns móveis, a coleção de Kinder Ovo, o Ká e deixou Laércio com o triplex que a mãe dele ajudava a pagar. Também deixou tudo de limpeza, afinal, era um divórcio amigável.
Finda a relação, Larissa foi morar no centro de Curitiba e Laércio seguiu em Santa Felicidade. Mantendo a casa sempre como gostava, Laércio, sem ter onde passar Perfex, começou a sentir uma certa solidão. Para aplacar, deu para falar sozinho. Num desses papos, Laércio esfregava violentamente um pano de chão branco no tanque.
- Ela pensou que eu iria sentir falta. Que nada! Foi um alívio! Um alívio! Eu não agüentava mais aquele Club Social nos tapetes! Porca! E tirar aquela sujeira difícil das calcinhas dela, então? Coisa craquenta! Vou te falar, tanquinho... parecia até borracha de pneu.
Jogos vorazes da vida real .
Viram a ascenção da Patricia Poeta?
Viram a casa do Bispo Macedo em Campos do Jordão?
Viram a humildade do twitters do Eike Batista?
E leram o livro do Boni?
Viram o tamanho deles?
Gigantes em seus campos e extra campos!!! Sabe como chegaram lá? Talento, trabalho, sorte? Tsk...tsk...tsk…
O que catapulta esse pessoal para muito além das capas de revistas, das diárias de $8000,00 e dos cartões de crédito de 20 estrelas não é talento natural ou trabalho anormal ou sorte maga cabalistica duidra. É VORAGEM!!!
Não é o desejo humano de ser rico, reconhecido, aplaudido, é sim a voracidade anormal para engolir, mastigar, sorver, corroer e matar todos os recursos, talentos, holofotes, concorrentes e valores que os cercam é faz o tamanho dessa gente. Sem isso não seriam gigantes. Seriam grandes e bem de vida. Andariam pela terra deixando pegadas fundas ao invés de devastação, gente puta, filhos velores e furiosos ou monopólios sem fim. Voragem faz gigantes. Sabedoria faz grandes homens.
Voragem engorda, alucina, entedia, um dia imortaliza e depois o Pedro Bial escreve um livro contanto tudo. Mas até lá, por maior ou mais sábio que você seja, nunca entre no caminho dum desses cardumes de piranha de duas pernas. Você vai virar uma carcaça.
O ninja verdadeiro põe o pé atrás, espera o sol cegar o gigante e deixa o curso do rio conduzir o cardume até cachoeira . Enquanto isso, vive a louca vida e , às vezes, se pergunta: quanto vazio existe dentro dessas escavadeiras de ouro dos tolos? Serão tão pobres que tem apenas dinheiro.
Assim, nunca inveje, nunca se espelhe, nunca leia um livro do Pedro Bial e muito menos fale para seu filho, ser como essa turma quando crescer. Afinal, ele já é grande. É seu filho né?
O que faz um pessoa grande são seus valores, o que faz ela gigantesca é sua voracidade.
Para o sempre grande, tio Francisco.
O ovo quebrado
Passada a Páscoa o ovo quebrado é a oferta. Amontoados num canto do supermercado, ficam meio de lado, sem jeito, fora de forma, deslocados dos produtos bacanas e com um aviso amarelo “3 ovos por 10 reais!!!”.
Na verdade, nem ovos são mais. Apenas um saco de cacos sofridos do que devia ser uma boa lembrança. Ovo quebrado é uma lembrança do que não deu certo.O ovo integro é o sucesso. A boa nova que aparece para dar um “oba!!” na vida. Mas o ovo quebrado é o presente que não aconteceu. Quebrado, como um Cristo na Cruz, o saco de pancada foi preterido, descartado, menosprezado. Podia ter sido alegria no domingo de manhã, revelar supressas, paixão , o bom-bom da vida. Acabou na pilha que coisa perdida.
Penso nesses ovos como os sonhos quebrados. Um dia sonhos também foram redondinhos, cheio de coisas boas , embrulhados no papel mais dourado do mundo com laço de fé. O amor maior, a medalha de melhor, negócio bom, o destino de herói. Doce e frágil é o sonhar. Viver é fazer malabaris com as mãos molhadas e sonhos muitas vezes espatifam.
O que fazer então? Seguir sem doçura? Páscoa sem esperança? Calvário sem volta? Não!!! Sigamos o exemplo do gerente do supermercado. Viver é dar desconto. Se Ronaldo não fez mil gols porque tenho eu que fazer? Se nem Cristo não foi unanimidade porque eu tenho que ser? A Páscoa, acima dos ovos, dos presentes e pessares como a cruz é um rito de ressureição. E não existe símbolo maior disso que um caco doce de ovo quebrado ao paladar.
O fio da esperança
Parte 1
Madrugada no Vaticano. O Papa João Paulo II, após se despedir de seus cardeais, pede a presença do Padre Josafá. Todos pressentem que aqueles são os últimos momentos de lucidez do Papa e, para surpresa geral, ele pede pelo Padre Josafá.
Uma figura muito querida, o Padre Josafá veio do Brasil. Mais especificamente da Paraíba. Homem de fé e compromisso com a Santa Cruz, Josafá também é conhecido pela alegria e por fazer mágica. Nascido numa família de circo, Josafá percorreu todo o agreste nordestino. Viu a fome, o abandono, as promessas vazias e, principalmente, a fé do povo. Aos 16 anos atendeu o chamado e foi trilhar o caminho da cruz. Mas levou junto o circo.
Sempre brincalhão, fazedor de malabarismo com velas e mais alguns truques, Josafá encantou até o Santo Padre com a sua levitação do guardanapo. Sem toque, sem espelhos, sem luzes, Josafá fazia um guardanapo dançar no ar. Uma garantia de aplausos e estupefação, o guardanapo dançarino de Josafá levou até João Paulo a perguntar como era feito o truque. O que Josafá respondeu com seu jeito brincalhão:
- Ora, sua graça, o Senhor não conta como faz seus milagres, conta?
Agora esse homem do povo, vindo do coração do Brasil, está reunido com o Papa. Passam-se dez minutos e o Padre Josafá sai pensativo dos aposentos. Os médicos entram e o sol começa a raiar para o último dia do pontificado de João Paulo II.
Parte 2
Eles vieram de todas as partes do mundo. Alguns por obrigação, outros por agradecimento genuíno e amizade verdadeira. Os líderes do mundo estão reunidos lado a lado para dar adeus ao Papa João Paulo II. Reis, presidentes, ministros, homens de fé e sem. Todos estão em torno de um único homem. João Paulo parece sereno. Descansa com as mãos cruzadas sobre o peito. Dorme o sono dos justos.
O primeiro ministro da Itália se aproxima do corpo. Cabisbaixo, faz uma oração e relembra dos contatos com João Paulo. Lembra de seus conselhos, desaprovações em particular e cobranças em público. Agora aquilo acabara.
De repente, o dedo indicador do santo padre se move. Apenas um instante. O suficiente para que Silvio Berlusconi entenda o gesto como um "olha lá o que vai fazer, hein". O primeiro ministro se espanta. Olha para os lados. Ninguém mais viu. Só ele. Será uma alucinação? O primeiro ministro volta para a multidão de autoridades com a dúvida na cabeça.
Outras pessoas têm sua última audiência diante do Papa. Além das lágrimas, nada acontece. O presidente dos Estados Unidos chega para dar seu adeus. Pensa na dureza do Papa e na sua luta contra a guerra. "O próximo pontífice há de entender que estamos numa cruzada", pensa ele. Nisso o dedo se move. Gesticula com a dureza de um professor. "Nada disso, cowboy, não!". George Bush quase chama o segurança, mas ninguém parece ver nada. A fila segue com o dedo se movendo para líderes da Inglaterra, da China, de Israel, da Palestina, da Rússia, do Japão, da Coréia, do Irã, da Arábia Saudita, da Índia, do Paquistão.
Chega a vez do presidente do Brasil. Lula aparece com olhos marejados. Enquanto reza, pensa na força e na coragem do Papa, pensa nos desafios e elites que tem que enfrentar e o dedo se move num tom cordial de "vai com fé, vai com fé". Lula perde o rumo da saída, mas reencontra o caminho.
Depois dos líderes, vem a gente poderosa. Banqueiros, industriais, CEOs da web, juristas, religiosos, artistas. O dedo segue firme dando seus avisos, conselhos e nãos. Bill Gates recebe um não, o Dalai Lama recebe um positivo. Bono Vox um ok. Ao final da cerimônia, o dedo do Papa estava grudado na mente de muita gente. Todos pensativos e sem coragem de comentar a graça de ser apontado pelo Santo Padre.
Parte 3
Os funerais haviam se encerrado. E com ele o tempo do Padre Josafá no Vaticano. Um novo papa seria eleito. Um novo tempo para a humanidade.
Padre Josafá estava fazendo suas malas para voltar para a Paraíba. Iria voltar a viajar pelo sertão, desta vez não como artista, mas como mensageiro de seu amigo falecido. Enquanto preparava a mudança, muita coisa estava mudando no mundo. Após dedicar sua vida à paz, a morte de João Paulo parecia ter tido um efeito pacificador. Conversações de paz que se iniciaram informalmente ainda no funeral estavam se estendendo. O G8 marcou uma reunião extraordinária para tratar da paz no Oriente Médio e da fome da África. O perdão da dívida do terceiro mundo seria discutido na Suíça e a preservação do meio ambiente em Roma. A China reconheceu o Tibet e só o Dalai Lama não se surpreendeu. E até mesmo no Brasil, onde parecia que as revoluções são 360 graus, havia um clima de mudança real na desigualdade. Enfim, quem quer que fosse eleito o novo papa, viria coroar um tempo de esperança para a humanidade.
Padre Josafá olhou seu quarto vazio. Suas roupas e livros estavam em duas grandes malas. Ele abriu sua pasta de mão e foi até a cabeceira da cama. Pegou um crucifixo de madeira que sua mãe lhe deu, sua bíblia do tempo do seminário e uma foto dele e do Papa rindo felizes e colocou tudo na pasta. Estava se virando quando lembrou de abrir a pequena gaveta do criado-mudo. Lá no fundo encontrou um pequeno carretel de metal. Parecia não haver nada enrolado nele. Padre Josafá olhou o carretel na contra-luz e viu o fio da aranha azul da Paraíba. Um filamento incolor e ínfimo. Mais fino que um fio de um cabelo de criança ou de anjo, mas mesmo assim forte o suficiente para mudar o mundo.
Padre Josafá olhou de novo a foto de João Paulo e os dois riram juntos do milagre.
Feliz Páscoa.
Agradeço de todo coração aos leitores deste blog e , em especial, aqueles amigos que incentivam a escrever um livro. Acho que chegou a hora, pessoal . Hoje acaba a quaresma. Esse tempo remete aos 40 dias de Cristo no deserto. Onde ele passou por fome, solidão e foi tentado pelo pé de bode.
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