Renan justifica tudo.

 

Certa vez fui flagrado guiando meu carro com os faróis desligados. No mesmo registro da multa me vinha a sentença de liberdade. A multa me fora imputada as 19 38 minutos de um dia de janeiro. Se você vive no sul do Brasil e olhar pela janela de casa ira ver o sol ainda em plena atividade. Mas algum guarde trânsito destes que a mãe mais lembrada que de juiz de futebol me caneteou. Assim certo de minha inocência fui recorrer da multa por não acender farol no clara. Para tanto redigi minha defesa da maneira mais clara e incisiva que meu conhecimento de escrivão me deram e fui a tal Denatran nos fundos da rodoviária de Curitiba com xerox e docs. Lá encontrei um fila larga de motoristas engajadas em suas defesas e , como sempre, um guichê com um funcionária em atividade. Assim para passar o tempo na fila estudei as pessoas e depois o lugar. Foi aí que me deparei com despacho do Ministro da Justiça do Brasil colado a durex na parede a altura do fuças dos motorista. Não me recordo do texto do despacho, era feito mesmo para leigo não entenderem do que se tratava, mas a assinatura era nítida e bem intelegível para mim: Renan Calheiros. Ministro da Justiça do Brasil. Sou uma destas pessoa providas de um excelente memória, mas não sei se neste país é benção ou não. Pois me recordo que Renan fora empossado por Fernando Collor. E todos nós, mesmo o desmemoriados, sabem dos antecedentes deste homem. O caso que ele foi defesnestrado mas os seu aseclas não. Assim Renan seguia como mandatário maior no ministério da justiça. Isso foi a muito tempo atrás no tempo que eu tinha mais esperança na defesa de multas e nos andamentos do bem. O tempo me mostrou como era tolo. Meses depois a minha defesa da luz do sol foi indeferida por alguma regra que dizia que código de transito esta acima do rei sol e agora quase duas décadas depois Renan foi eleito presidente do senado federal. Bravo nobre senano, nos dão um lição federal de nosso lugar nesta fila. Após ser pego com filho fora do casamento, amante com contas pagas por empreteira e bunda a mostra na Playboy, notas frias, desculpas furadas, Renan é aplaudido por seus pares na mais alta camara como o cara exemplar. Isso nos desofila do figado. Juro! Me alivia de cargas e culpas. Sim por que eu devo ser honesto se um corrupto pode ser presidente do senado? Por que eu devo ter apenas uma mulher, se um presidente do senado ficha suja pode ter duas? Por que eu devo pagar pela contas de meu filho legitimo, se um presidente do senado corrupto e infiel pede para um construtora pagar? Me apontem um crime ou infração do código civil, de transito, de construção e civilização que eu digo “ ok! Tou errado e o Renan?” Não preciso pagar minhas multas e nem mesmo me defender delas. Renan justifica tudo. Façam que quiser pois é tudo da não lei. Renan presidente do senado é um daquela raras radiografia das entranhas do sistema digestivo deste pais. De como ele funciona, age e é. Renan siga bem assinando seu decretos, lei enrabando futuras capas da Playboy. Eles tem bundas boas e grandes mas não maiores e mais macias que o eleitora deste país. 

O missionário João.

 
João não foi um homem muito de religião. Tinha sua fé, suas orações mudas, sua ética. Mas não tinha isso de ir muito a igreja e falar muito disso. Meio fechado era João. Mas tinha uma coisa que João falava de boca cheia e altiva era de sua missão. O velho João acreditava que todo ser humano tem uma missão dada por Deus na terra. E para João missão dada é missão cumprida.

Entretanto a sua missão demorou a aparecer. Até receber a incumbência, João levou sua vida sem grandes destaques. Seguindo os trilhos do pai, foi ferroviário em Itararé. Num descarrilhamento do destino, pegou tuberculose na época que tinha o destino de estudar medicina em Curitiba. Um sonho que e um dor que ficaram para sempre na beira do caminho de João. Mas ele seguiu. Casou, teve dois filhos, criou outra como sua filha e mudou para São Paulo. Mas essa, que é a grande missão da maioria de nós, não era a missão maior de João.

Assim João não foi um grande pai. Deu uma bicicleta ao filho mas não me ensinou a andar. Não levava a escola ou buscava no dia de chuva. Não que não liga se para os filhos. Olhava por nós a sua maneira meio fechada italiana. Dizia  que assim fora ensinado por seu pai morto quando João ainda era jovem, sem tempo de ser tratado como digno de papo de pai para filho. Mas mesmo sem falar muito João muito me ensinou. Jogador de baralho, me  ensinou a não jogar. Fumante inveterado, me  mostrou a ter nojo de cigarro. Tanto que, como publicitário, participei da campanha que deu fim na propaganda de cigarro na televisão e colocou imagens ruins nos maços. Se os adolescentes de agora veem pessoas com saúde abalada nos maços, isso se deve um pouco ao fato de João tossir tanto. Com a idade João parou de fumar e jogar, virou cozinheiro e pai superior. Mas mesmo isso tudo, apesar de nobre, não era sua missão.

Esta foi dada a João justamente  quando todos nós pensamos que o clarim da vida havia parado de nos despertar. Aos 74 anos de idade, a esposa de João teve o diagnostico de portadora do mal de Alzheimer. Num grupo de apoio dos cuidadores dos pacientes João assustado soube que haveria momentos que seu amor iria  esquecer de tudo e mesmo achar ele um intruso dentro do lar. João, que sempre fora quieto e não muito de religião, como Jesus entre as oliveiras deve ter clamado aos céus pedindo para se apartar daquele cálice. Porém nada foi apartado dele. Nem mesmo Deus.

Numa fila de supermercado, puxando papo com uma mulher estranha João falou de seus medos e dramas. E a estranha enviada como essas coisas estranhas que nos vem em momentos duros disse “Seu João, cuidar de sua esposa até morte, essa é a sua missão na vida”. E assim foi. Como um raio caído dos céus, as palavras da estranha, vestiram João das armaduras para a peleja que viria. E como dura foi a luta. Entretanto, como em cada luta dura, quanto maior o desafio, mais João se enobrecia. Foram sete anos, até que em 31 de maio a missão foi entregue aos céus.

A missão cumpriu a função extra de perdoar pecados, purificar e honrar o missionário. Passado essa jornada extraordinária João seguiu ajudando filhos, parentes e amigos. Tinha uma paixão irrestrita pelo neto, que havia relegado um tanto, pela missão junto a esposa. Queria também no neto corrigir a distancia que dera ao filho, (ensinar a andar de bicicleta estava na lista). Liberto dos medos abriu a casa para as crianças em férias. Vibrou ao ver seu Corinthians, Campeão da Américas, ser também do neto. Pelas ruas e bares, sorria e ajudava ao próximo, seja ele quem fosse.

No último  14 de setembro de 2012 fez uma grande festa comemorando os 10 anos do neto, com muito churrasco, bolo, rojões e amigos em torno dele. Toda grande guerra acaba com uma grande festa e não existem santos guerreiros sem passar pelo inferno. No primeiro dia de outubro, uma segunda feira de sol forte, trios elétricos e fogos estourando pela política ,  João Visinoni com a sensação de dever comprido, chegou aos céus. Deixa algumas lágrimas e um vaziozão estranho por aqui.  Saudade  de alguém bom e humilde como João são como pedras preciosas no fundo de um leito de rio que não passa mais. E destes brilhos, nada brilha mais que seu exemplo missionário.

Descanse em paz,  meu pai.

Andando sobre as folhas do tempo.Em memória de João Visinoni. RIP

 
Retornar as ruas de Itararé- SP onde cresci abre dentro de mim uma avenida. Ainda mais passeando com meu pai. Ontem saímos para comprar espetinhos de churrasco e na volta bater um papinho no boteco. (Dou graças a Deus por ter idade e pai para tomar uma no bar). Fazia um calor dos infernos o que era bom para ir descongelando o espeto e dar mais gosto ao gelado da cerveja. No caminho do bar, meu pai se abaixa na rua e apanha um folha de papel branco. Em meio ao movimento lento e dolorido de  ele diz "Deixa ver quem morreu".

O papel é um tipo folheto de liquidação espalhado pelas ruas de maior movimento, tipo santinho de candidato, só que eleito aos céus. No meio lê-se com letra grande meio funesta o nome de um morto recente e o horário do seu sepultamento. ‘As vezes, como adendo ao finado, vem sua função tipo professor, vereador ou doutor. Também é comum, para ser melhor reconhecido, ler seu apelido "Biribinha".  Essa é a maneira que familiares em Itararé usam para anunciar a partida de um ente querido. 

Lembro-me dessas folhas rolando pelas ruas desde sempre  mas nunca lhes dei conta. Agora, na idade da vida que se sabe da ida, é diferente. As folhas brancas  rolando com vento me lembram o samba "Folhas Secas" de Nelson Cavaquinho. "Quando o tempo  me avisar que não posso mais cantar, sei que vou sentir saudade ao lado do meu violão de minha mocidade".  Folhas com nomes de meus avós, tios e uns primos já rolaram pelas ruas de Itararé. Outros viram. Mas hoje não.

Faz um sol ardido e andando lentamente chegamos ao bar com sede. A última vez que eu e pai tomamos uma em clima tão bom era para celebrar o nascimento de meu filho. Meu pai me apresenta ao pessoal  e pensam que sou neto dele. Todos riem quando a verdade vem. Tomamos duas cervejas juntos e meu pai toma uma pinga sozinho "pra amaciar". Homens com barba  mal feita e botas sujas de poeira entram e saem. Meu pai é conhecido na cidade e reconhecido gente de bem. O morto do dia por sua vez divide opiniões. De certo mesmo, todos concordam, é que desta vida só leva o que se dá. A noitinha chega com seu refresco e  amanhã outro nome estará escrito na folha do tempo e falado em mesas de bar. Voltamos para casa abraçados eu e meu pai.

Itararé-Sp, janeiro de 2012

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toda semana pelo menos um texto novinho deste seu criado.

eduardo visinoni. abrax

 

 

Estampidos diferentes.

A maior cidade do país está em alerta com os arrastões em restaurantes. Considerando o tamanho de São Paulo e o número de ocorrências nos estabelecimentos comerciais, foram ínfimos os assaltos com arrastão em restaurantes baluartes de ricos. Mas como foi crime em cima do rico, vira pauta nacional, tragédia, descalabro. Os ricos, que se escondem do outro lado de suas muralhas, com arma na cara e voz de assalto querem que toda a população compartilhe de seu drama e lhe venha abanar o leque da solidariedade. Sempre foi assim, sempre será. O estupro da adolescente em Alphaville “chocou a cidade” e o da menina na vila sem nome passa em branco e mina teve servir Mac Lanche Feliz no dia seguinte. O tiro do estudante na USP tem lágrimas em Miami, já na porta da “facu” popular, não pára nem o jogo de truco dos alunos. Roubaram um Rolex do Luciano Huck na rua e ele ganhou página no jornal pedindo pelo Capitão Nascimento. Já quando o moço loiro das tardes de sábado transforma uma praia pública em Angra do Reis em particular, quem chama? Quem liga? Tiros fazem buracos iguais mas tem estampidos diferentes. A Folha “paga pau” de São Paulo chamou até um psicólogo com cara de Ludovico Von Pato para falar do trauma que fica de ser roubado num ambiente elegante e de bom gosto com o Carlota em Higienópolis. Fico pensando se os moradores da “cidade higiênica” e suas genéricas por aí tem conta do seu papel. O que será que sentem quanto assistem Robin Hood? Será que torcem para o ladrão de capuz mocado no matagal longe de cidade murada? Ou ficam do lado do vilão corrupto que dá banquetes e cobra impostos injustos? Minha mãe faleceu recentemente. Nos seus últimos anos de vida, debilitada pelo Alzheimer, minha mãe necessitou da ajuda de cuidadoras. Algumas foram anjos vindos do céu outras entraram na casa pelo outro lado. Roubaram jóias, lençóis bordados, CD de gospel (???) e outras coisas de uma senhora doente e indefesa. Além de rezar por essas almas, não fizemos grande alarde do arrastão perpetrado. Mas justo quando a morte era um fato consumado e a família enlutada, eis que surge o maior ladrão do Brasil que atende pelo alcunha de Fisco e cata no banco uma larga porcentagem das economias de uma poupadora aposentada. Minha mãe foi professora, acreditava que um país rico de verdade é um país com educação real. Nunca jantou num desses  restaurantes de rico. Mas deveria. Deveria gastar em bons momentos toda essa grana que o governo lhe levou na hora negra. E se por um acaso num deste manjares alguém lhe desse voz de assalto, acho que minha mãe não iria pedir por polícia, cadeia ou forca para esses mascarados. Mas sim mais educação para nossas crianças.

Eduardo Visinoni . junho 2012

 

Nós, Os Derrotados.


Eu me entrego. Bandeira branca. Eu me entrego. Sou um derrotado, perdi.
Perdi para a pressa do dia. Perdi para a falta do contato certo, da verba prometida, do esquema bom e da luvada de fada em ouvido de grilo.

Perdi para urgência do dia, perdi para a rotina da fazeção de algo infinitamente menor porém mais tangível que um sonho. Sonho é um job de um cliente sempre sem tempo para estartar a coisa toda. Sangria de mim mesmo que arrasto pelas luas grandes. Assim, sou sempre um minguante, perdido no nublado de meus desmandos, remanso de um rio que podia ir ao mar. Mas isso agora finda. Chega: me entrego, pronto, sou um Derrotado.

Perdi para escalar a pilhas de contas, perdi para a falta de ânimo em fazer, perdi pra brutal vantagem numérica da burrice, perdi para a preguiça de apontar lápis, perdi para a falta dá fé e perdi para o medo do sim. E se der? E se der? O que eu vou fazer do meu derrotismo? Para onde vão minhas desculpas? Como vou beber mágoas com meus amigos cheios de mágoas e projetos engavetados? Não, eu não vou escrever o livro que nenhum dinheiro ou notoriedade ira dar. Não, eu não vou fazer a viagem para Shangrilá. Nem vou buscar o tesouro que eu sei onde está. Fico aqui: cambado.

Minha força de vontade é um bambu na brissa da meia idade quando podia ser flecha em calcanhar de Aquiles. Aqui me vergo, aqui me calo, aqui me adio para outro dia. Quem sabe com as exploções solares eu mude. Ou não, o mundo acabe em chamas e eu termine calcinado sem nada de valor dizer.

Quando muito vou eu aqui resmungando essa sorte maldita que sempre senta no colo de outro, que se dispôe a escrever. É deles o gol, o louro, a botija pesada. A mim me resta o copo cheio que tremulo ao ar como bandeira branca do time dos Derrotados. Ao menos nós Os Derrotados sabemos de nosso lugar no fundo da arquibancada, no fim da tabela, com um cartel sólido e antigo de derrotas por W.O.

 

Farofa de merda, burrice e sangue.

 

Confesso, eu tenho um prazer perverso com estas tragédias de ricos. Crimes loucos, como desse herdeiro da Ioki, me refrescam como abanar folheto de juros baixos em fila de banco. Saber que alguém que tinha infinitamente mais que eu, mais motivos para ser mais feliz que eu e vivia infinitamente pior que eu, me dá um certo conforto.

Depois de saltitar os olhos em cima de todo esse lodo com farofa que a mídia nos serve, chego a minha conclusão particular que me reconforta como banco se fila.

 

Ela, a esposa, não vale nada. Ele, o picado, era tão pobre que só tinha os milhões da empresa que avó lhe deu. Se não gostou, eu explico minha tese. Ela matou. Matar é crime capital. Ainda mais com agravantes de crueldade e, pior, com agravante descomunal da burrice.  A assassina cruel e burra,  matou justo na hora que podia se libertar do jugo do japa infiel. Podia ser livre como um passarinho rico e escolheu a cadeia dura. Ela tinha a fita do detetive com marido bolinando amante na rua, tinha a filha no colo, o DNA, a metade da fortuna. Porque matar, serrar, ensacar e sair pelo estado de São Paulo em busca de um sitio como do goleiro Bruno? A burrice mata mais que fumo e moto juntos. O japonês, por sua vez, parece saído de um filme do Homens de Preto. Que espécime para estudo.

Herdeiro da Yoki, posava de classe média alta, trabalhadora e respeitosa. Pedia pizza e ia ele mesmo buscar. Só não sei se era para economizar  motoboy ou, talvez, para não abrir a porta para casa para ninguém. Pois, em rua modesta de bairro sem ostentação, dentro de seu lar, que na verdade eram dois triplex médios, que, juntados viravam um mega hiper japa crazy world. Com direito há 360 mil reais em charutos, 2.6 milhões em vinho e mais 30 singelas metralhadoras, símbolo fálico cospe chumbo, ao estilo Rambo, Chuck Norris e Al Capone. (Só faltou puxar um livro da estante ou aperta o umbigo do poster do Ultraseven para aparecer a Taça Jules Rimet original.) Que gosto deve ter comer pizza com vinho de 15 mil reais enquanto navega em site de sacanagem?

 

Tudo isso somado me conta que esse finado herdeiro era um desses tipos vazios que compram tudo. Comprou a mulher numa vitrine de sexo, casou e depois queria comprar na mesma loja outra "action figure do sexo" do mesmo modelo, porém mais nova. Mas queria exclusividade com o brinquedo. Para tanto propôs pagar 27 mil reais ao mês pela exclusividade do mimo. Mas esposa não gostou da coleção e o cara acabou espalhado pelos terrenos baldios de Cotia.

Contabilizando tudo acho os quatro uns merdas. O dois são uns merdas por cagarem para a fortuna que é ter filho no colo. Mais a mídia que uma grande merda a chafurdar nessa merda como se não tivesse tanta merda melhor em Brasília para revelar. E por fim, eu me sinto um merda por pensar nesse assunto e, pior, escrever sobre ele pra você. Foi mal.

 

Alegria lhe cai bem.

 

A moda está cartaz. Na São Paulo Fashion Week só se fala em cortes, tecidos, estampas, desfiles, frescuras em geral. Moda é negócio. E negócio tem que ser vendido para dar dinheiro. Então, dá-lhe blá-blá-blá e clic-clic-clic sobre quase nada-nada-nada. Afinal, o que é moda? Fazem um barulhão danado sobre a nova coleção outono-inverno mas no fim rola jeans e afins. Além do que, vamos falar a verdade: esses estilistas são uns chupões. Para tanto, eu já saquei, eles seguem basicamente quatro caminhos. Uns, saêm pelas ruas, praias e baladas clicando o que acham diferente, inusual. Por exemplo, um dia alguém saiu de casa na pressa e vestiu uma camiseta de manga curta por cima de uma longa. Um estilista registrou essa gafe e transformou em tendência. Agora, a gente compra essa combinação protinha na botiques e o estilista fatura. Outro, caminho clássicos dos estilistas mais preguiçosos é comprar umas revistas antigas em sebos e fazer algo chamado “releitura”. Muda cor aqui, caimento alí e pau! Você tem uma releitura dos animados idos da New Wave, dái cor citríca vira neon. É assim que a altura da cintura sobe e desce feito io-io. Tem também a turma de vanguarda que segue o caminha do aeroporto. Ir para um lugar diferente e chupar o que rola lá. Que pode ser em Guaiaquil , em Ibiporanga, em NY ou, normalmente, em Paris. Na volta o dandi retorna cheio de sacadas para sua nova coleção. Mas na real sacou da cabeça da modista colombiana. O quarto caminho, que até considero o mais integro de todos, é misturar tudo, rachar pau no gato dentro do saco, e fazer o seu chiado realmente novo. Isso é talento. E é para poucos. O resto é tendência que nada mais é um jeito chic de falar que chupou. E falando em tendência, quem foi que disse que modelo tem desfilar de cara feia? A menina é bonita, tá ganhando um maná por um trampo mole e ainda assim faz cara veia. Seria a cocaina batizada? Moças da faxina tem o direito de fazer cara feia e não o fazem. Porque as moças lá de cima fazem? Se a roupa é tão linda, o tecido tão leve e caimento tão perfeito, por que a cara de cimento? Pra mim, na verdade, não existe caimento melhor para uma roupa que tal felicidade. Quando a gente está feliz, tudo está lindo, leve e perfeito. E a roupa é o de menos. Podemos vestir seda da Dior, mas se estamos mal ela vai ser estopa da pior. Podemos vestir trapos da José Paulino, mas felizes, será Saint Loren. Nada, nenhuma fibra, nenhuma roupa, nenhum grife, nenhuma carreira de porcaria cai melhor na gente que alegria. E para isso não existe estilista melhor senão você. Corte os medos, costure as amizades, se cubra de amor, depois jogue uns panos que gosta por cima e saia desfilando pela cidade. O resto é moda. E moda é passageiro de trem otário.

 

 

Participe da campanha do agasalha.

Sexo é calor, diversão! E a mulher é um Playcenter. Então, por que não aproveitar todos os brinquedos?
Ver a mulher sempre igual é como um passeio no carrossel. Por mais legal que seja o cavalinho que sobe e desce, uma hora dá enjôo ou, pior, deixa o cara tonto. Daí o tonto troca de parque. Besteira! O negócio é trocar de brinquedo e seguir a diversão.

Por isso, amigos, antes que comece a soprar o vento gelado da apatia, é preciso pular de um cavalinho para o elefante voador, escorregar no tobogã de língua, apavorar no trem-fantasma, brincar de medo da mulher-gorila. Lembram-se da Monga? Não sei por onde anda, mas ela deve andar bem casada. Afinal, num momento ela era uma mocinha fina, de traços educados. Noutro, uma macaca louca arregaçando barras de aço e apavorando a macharada toda. Isso sim é uma atração quente!

Fidelidade se constrói traçando a mesma mulher de um jeito diferente a cada noite. Imaginação no poder era o lema dos estudantes em Paris. Imaginação também é foder. O cara que é fiel até na imaginação é um boçal. Ver a mulher sempre igual deve ser o ó. Para a trepada de entretenimento, a sacanagem de diversão, é preciso confiar e ousar. Papai e mamãe no escuro é legal, um clássico, saia e blusa. Mas como um tarado é um cara comum apanhado em flagrante, no guarda-roupa deve haver trajes outros. Roupa de toureira, vestido de normalista, empregada, encanador, patroa, calça de cachorra, minissaia de couro, roupa normal, por baixo fio-dental e assim vai o passeio, mais alegre, brilhante e sem fim. Como diz o poeta maior da padaria, o Nivaldo do Estilo: “Pra quem é sente frio, toalha de mesa é casaco de pele”.

 

 

Pacotinhos de amor.

 

No meio da prateleira de cereal, tem um álbum de figurinhas. Por um momento, penso ser brinde. Tonto eu: é para vender. O mundo cada vez mais ganancioso. Quando criança, lembro bem, os álbuns de figurinhas eram distribuídos em portas de escolas e os pacotinhos jogados aos ar como borboletas de uma asa só. Essas figurinhas vindas do céu serviam de chama piloto para torrar mesada e dinheirodos pais, tias e avós. Agora, o prejuízo paterno já começa a seco. Compro o cereal e sigo adiante como evangélico em frente de sauna gay.

Na fila do caixa lá está o álbum de novo. Desta vez estrategicamente postado na altura dos olhos infantes ( ganância é a cara de pau com cifrão nos olhos) . Como estou só não tenho que negar o álbum ao meu filho.
Na fileira acima, avisto as revista de gente "crescida". As capas emgeral são figuras famosas se encontrando, aprofundando relações, casando com o sonho, se separando do pesadelo, fazendo dieta, voltando de viagem sacra e dando voltas e mais voltas por cima. Em comum, todos sorriem e dão um passo adiante na fila do amor. O caixa rápido demora, então tenho tempo pra pensar.

Ninguém mais tem tempo e paciência para aqueles longos romances, densos e perenes? Agora, a gente quer viver alguns momentos legais, tirar fotos sorrindo e postar no Facebook. Assim as relações amorosas modernas são como os álbums antigos. Vamos colando figurinhas e enchendo páginas. O namoro, as férias de verão, a noite de fondue, relações com amigos, viagens pra lugares legais de fotografar com casal na frente, o prato de macarronada em Roma. A coisa vai indo até que pintam aquelas figurinhas mais difíceis. O apoio na queda, a falta de grana, o tédio, a ruga, a impaciência com o defeito que não vai mudar, o desaforo, a gota dágua, o fim da cola mágica. Dai deixamos o álbum meio de lado e partimospara a próxima oferta da fila.

 

Esse virou um mundo de metas e sorrisos. O grande romance é arrastado, complicado ou dolorido? Vamos colecionando figuras então. Um dia a gente compra um animal de estimação, ou filhos e fica postando “clics” deles no Face. Eu não sei se isso é certo ou errado, mas eu acho que é assim. Enquanto carrego minhas sacolas pra casa lembro que o único álbum que preenchi quando criança foi o mais demorado e difícil. Ouve trocas mil, buscas, quase desisti. Mas ele se completou e eu o tenho guardado em algum lugar até hoje.

 

 

O dia em que minha mãe foi tricampeã . In Memoriam por seu falecimento em 31-05-12

Amigos dizem que tenho boa memória, que lembro até do que não aconteceu. Saudosista do que não vivi? É! Sou um deles. Mas a minha memória não é ruim. Lembro de coisas que vivi quase bebê. Porém, a mais antiga lembrança que posso localizar no tempo é de um dia que ninguém jamais esquecerá: 21 de julho de 1970, o dia em que ganhamos o tri.

Desse dia, não me lembro da expectativa no ar, da cidade verde-amarela, do "pra frente, Brasil", hinos, dribles e gols. Eu lembro de uma coisa mais incrível: minha mãe assistindo a um jogo de futebol. Sabem, minha mãe nunca deu bola pra futebol. Para ela, Pelé sempre foi um tipo de café e Tostão era o dinheiro curto com que vivíamos. Por isso, lembro tanto daquele dia.

Naquele domingo, minha mãe torcia com fervor por uma vitória coletiva para animar sua campanha individual. Casada havia pouco mais de quatro anos, o time de minha mãe estava em crise. Minha avó Conceição havia pouco fora escalada para o céu, e minha mãe sofria com o desfalque de João, meu pai, craque e capitão do time, que fora barrado pelo departamento médico. Meio que condenado pela tuberculose, meu pai jogava bola com o destino num hospital em Campos do Jordão. Uma triste campanha para quem casara tão cheia de esperanças havia apenas uma Copa. De bom mesmo só havia a esperança no moleque de pernas tortas recém-chegado: eu. "Seria Garincha?" – pensava a mãe, olhando o filho.

Assim, o time estava armado para enfrentar a Itália: minha mãe, eu, a enorme casa de minha avó morta e a tevê. Lá bem longe, a Itália assustava, Pelé prometia, Zagalo rezava, Médici ordenava, João rezava. Lá fora 90 milhões estavam em ação e aqui dentro eu e minha mãe assistíamos tevê.

Logo no início do primeiro tempo, todos viram que o jogo não seria fácil. Itália, terra de origem da família de meu pai, jogava duro. Marcava em cima sem dar moleza para os canarinhos, da mesma forma que meu pai marcava em cima o ataque da tuberculose. Passados 45 minutos com 1 x 1 no placar, pudemos respirar um pouco. Minha mãe pelo intervalo, e eu por escapar do aperto de seus braços assustados.

No segundo tempo, a Itália cansou. O Brasil marcou um, o vírus da tuberculose fraquejou, o Brasil marcou dois, minha mãe ganhou confiança, o Brasil marcou três, todos viramos craques e com quatro um povo, pela primeira vez na história do futebol, pôde gritar "tricampeão!". O caneco era nosso, Deus era mesmo brasileiro, o futuro seria possível, 21 de junho de 1970 foi e é ainda o primeiro dia de festa na minha galeria de grandes momentos.

Trinta e seis anos depois, cá estamos todos em campo de novo. O Brasil mudou... tudo mudou... ou quase. Com o marido salvo, filhos crescidos, uma nora e um netinho para acalentar sonhos com o futuro, minha mãe assistirá à Copa com a mesma sensação de dever cumprido de Pelé, Tostão, Rivelino e companhia. Chatos dizem que futebol é o ópio do povo. Pode ser, mas o que dão para os soldados feridos em batalha?


Johny Pinguela – 21 de junho de 2006

O sítio de Curitiba.

Um garoto ,por não ter 14 Reias para completar a conta do bar, perdeu a perna. E algumas pessoas "de bem" acham que rapaz culpado não devia ter gasto além da conta. Podia ter retrucado, mas me calei e pensei: Curitiba é uma cidade sitiada por seus cidadãos. A partir do momento que você toma uma posição por aqui seja ela eco, gay, maconha, pró ou contra governo, você vira um tipo de comunista enrustido, terrorista “light” ou satanista “low user” que deve ser monitorado, cerceado, sitiado.  

Pela minhas contas ( desavalizadas), o contingente da tropa que faz esse sítio nunca é maior que 20% do total dos pagãos. E às vezes é mínimo pra não dizer um pulha apenas. Entretanto, eles, que tem desvantagem numérica, contam com o conformismo, indiferença e deixadissismo de uns 70% que apenas se manifestam em véspera de Atletiba ou brigam por ervilha em hot dog completo. Protestar não presta, então dá que a capital sorriso ri um riso sardônico de manequim da Lojas Marisa.

Outro dia mesmo tentei fazer um comercial e de dia dos namorados para um shopping que tinha entre outros um casal gay. Minha intenção não era militar pela causa gay, mas apenas causar o tal do “buzz”para o filme de pouca verba de veiculação. Mas não teve papo. Não passou nem do departamento de criação, local que sempre foi tido como chamariz de bichas, maconheiros e fans do Cazuza. Entre um fala e um levantada de sobrancelha, surgiu um bruma de TFP e eu, calejado como mosca diante de brisa do Ligeirão, fui comer bolacha Maria com leite quente na padaria. Por lá encontrei dois colegas. Um de Pernambuco e outro de São Paulo, capital. Engraçado como as falas e as posturas deles destoam de nós ( eu, há duas décadas aqui, me incluo neste nós) viventes de Curitiba.

Parece que a gente embala nossas opiniões mais perigosas em plástico  bolha. Daí entrega o filho na porta do Positivo Jr, veste o crachá e vai ralar. Não é átoa que o melhor escritor da terra do muito pinhão, premiado como o melhor da língua portuguesa, Dalton Trevisan, é avesso ao contato com os nativos.

Para o Dalton, elucidar a rodinha de io-io que é essa sociedade, apenas nos olhar basta. Como paga por esse talento nato de ver que tem mais colarinho que chope no nosso copo, a cidade sorri mas veste no tal Vampiro de Curitiba o crachá de anormal ou pior: lhe ignora como a pedinte no semáfora no Batel. Assim, cercamos nossa amada capital tal qual jecas cercam  arame em torno de sua criação e nazistas de seus guetos.

O vestido lilás.

Era impossível. Não devia ser pensado. Não devia ser ousado. Era um pensamento a ser apagado como uma fase de sua vida. Era agora ela uma profissional. Tinha responsabilidades, horas pra comprir. Tinha nome em placa de acetato. Não podia pensar naquilo que enrroscara em seu neurônio. Defenitivamente não seria correto, pertinente, mesmo exeqüível. Já fora descolada, solta, descompromissada, Loiraça Belzebu. Mas isso fora em 94. Antes da conformação. Antes do PHD, do filho no Positivo Jr, da sub-diretoria regional e do sem tempo pra malhar, correr, nadar. Isso: fora sereia um dia. Nado livre e sincronizado com olhares submergidos em pensamentos. Mas isso tudo fora afogado pela vida. As amigas mais velhas, a responsabilidades, os deixas disso se avolumavam como areia no costado de saveiro no seco da praia. Porém, no fundo não sentia a idade que tinha. Os trintas e tantos lhe mastigavam um tanto mas não a engolira. Será? O desafio na vitrine se insinuava. Pequeno, diminuto, apertado e devassado. Era um vestido lilás de uma moça. E os amigos da filho adolescente insistiam de lhe chamar de tia. O namorado, ou "comis" como o chamava, no escuro da noite a chamava de vadia, graças a Deus. Mas isso era dentro do mundo deles. Um mundo que ela não vivia no avesso. Mas agora ela estava ali, parada na frente daquela botique de roupas que não lhe convia. "Botique de puta" sua amiga rotuladora por falta de fantasia diria. Mas ela tinha alguma fantasia e descarate. Era rebelde. Sempre fora. Achava.Era doida? Dias antes, vira o vestido lilás na vitrine de longe . Não atravessou a rua, era hora do almoço e voltaria para sua cara de cracha. Gostava de desafio mas aquele se apresentava por demais descompassado com sua rotina. O que pensarariam? Que era cega? Louca? Vaca? Puta do vestido lilas do departamente de Marketing? Até já fora tudo isso mas estava curada. Ou não. Passaram-se alguns dias e ela andou duas vezes por aquela rua, cada vez mais perto, mais instigada, excitada até que agora estava diante dele. Olhava o vestido lilás e olhava para si. Será? Como quem direciona um espelho para o sol, se aprumou diante do manequim e sentiu que seu brilho de gostosona ainda reluzia. Era uma mulher agora, dona de seu destino e de se seu Ford Fiesta. Era tesuda ainda. Entrou na loja que não devia. Sem olhar mais nada, para um vendedora loira e siliconada com cara de puta semi aposentada, pediu o vestido lilás da vitrine e foi para prova. Se desnudara da armadura de trabalho e coberta por langeri cor da pele se fitou com a dureza de um juiz olimpico. Fora melhor. Tivera menos dobras. Seios e bunda mais altivos. Seu homem discordava, mas ela sabia. Fora melhor. Fora sim. Até que vestido lilás lhe subiu por suas coxas qual cobra por tronco, o elastano envolveu suas ancas de potranca e abarcou os seios fartos como cachos de uva itália. Após ajustar o conjunto, centrar o mamilos na mira, jogou os cabelos negros pra tráz e se mirrou mordendo o canto do lábio. Uepa! Era como se ela fosse de argila e o vestido mãos de artesão tarado.
Estava mais magra, mais dura, mas empinada, uvas mais suculentas, e até mesmo mais determinada. Aquele era o vestido que iria mudar seu rumo. Iria tocar com ele o lado A de seu repertório. Teria os homens que sempre quis, as invejas das mulheres, os olhares do alto. Subiria. Poderia ser uma daquelas mulheres de diretores, vices. Ocupada apenas de ser gostosa e dizer sim. Trocaria de carro, de endereço, de escola para o filho, de nivel superior pra rica. Seria outra mulher.Uma que guia SUV. Viajava enquanto se mediua girando a bunda de um lado para outro. Era aquilo tudo que seria? Tirou o vestido como mulher maravilha tira o short. Se recompoz, suspirrou. Saiu e deu de cara com a vendedora vaca anciosa.


- Serviu, linda?

-Em mim? Sim. Mas em minha vida não.

Deixou o vestido lilás no balcão e voltou para o trabalho da tarde.

 

"Mar alto e pesca farta."

Talvez pelo nome da estalagem: Verdes Mares. Talvez pelo frio cortante. Talvez o ambiente de com pratos fumegantes, garrafas a emborcar e conversa sobre sereias nuas. Talvez pelas roupas pesadas, o olhar meio baso e os fios brancos nas barbas dos comensais. Talvez, mais certo pensar, para fugir da minha realidade de segunda feira gelada no fim de mês magro. O fato é que ontem fui almoçar com Grande Jairo, Rick Ricardo Carvalho, Rodrigo Jardim, Fabrizio Italiano, Aroldo Poliglota na Padaria Verdes Mares e, na saída, fiquei a pensar na pesca de caranguejo gigante no Alaska.

Dizem ser esse, de pescar caranguejo, um dos empregos mais duros e mortais do mundo. Não sei ao certo o que dizer ou pensar( só enfrento o mar na barca da Ilha do Mel). Só sei que para meu lombo, Curitiba é tão fria e cinza como o Alaska. E viver de criação aqui, tão instável como fisgar siri no estreito de Bering. O clima é pesado e sempre mudando. Muitas pontas de gelo nos rondam abaixo da linha da civilidade. Boatos, queimas, feitiços, custos, idade, tatuagens não porém, mas calejados como velhos marinheiros eu e meu confrades rimos um riso de pirata e gritamos como um Ahab diante da montanha branca. "Que venha!! Que venha!!!Que venha besta burra, tola e corrupta do trabalho na ponta de uma mar de contas a pagar". Assim seguimos de isca em isca, gole em gole, pescadores de um amanhã melhor.


Sim, somos velhos. Sim, não nadamos em jovens cardumes alegres e coloridos que acreditam em isca artificiais de prêmios, de famas e de limosines. Sim, já tivemos o casco rasgado por cantos fugidios de sereias e promessas cantaroladas ao vento. E sim , graças ao Kraken ou sanha torpe do RH de corta custos, agora somos postos como velhos. Como tal, velhos, sabemos navegar por mares de sargaço, buscar peixe graúdo em toca profunda, fisgar Marlin com linha fina. Em alguma parede de patrão tem um enorme peixe espada envernizado com olho morto vidrado,a nós como prêmio resta a cicatrizes da linha corrida na mão e olhar sábio apontado para além da arrebentação. Sabemos por temos passado por tsunamis, vencidos bonanzas,  rezando nas tempestades,engolido algas nas fomes. Sabemos por mirar o farol nos olhos de filhos e mulher em algum porto distante. E principalmente, sabemos porque o velho marinheiro Paulinho da Viola nos contou," não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar".

 

Termino nosso almoço e, na chuva fina da rua lisa, olho meus amigos indo cada um para sua escuna. Cada um tem suas dores, redes mau costuradas e as suas rotas vigiadas, mas todos tem um velamê aberto para vida. Eternos Tin-tins e Hadocks a degladiar dentro deles. Em cada capitão vejo um tipo de espelho que revela quem sou. Então, não deixo de acenar e pensar comigo "mar alto e pesca farta, capitães."

 

 

 

Dia das mães longe da mãe.

 

Por um minuto perdi um ônibus. Por esse desgraçado punhado de segundos, perdi o Dia das Mães ao lado de minha mãe. Nunca fui um filho muito próximo, muito presente. Mas nunca fui um ausente como me sinto neste domingo vazio. Falta do que fazer e culpa me levam a olhar fotos dos dias da mães de antigamente. A gente só percebe que aqueles eram os bons tempos, quando os maus vem. Por décadas, o dia das mães era mais um domingo de almoço em família. A gente ia, almoçava macarrão com brachola empalada com palito de pau, tirava fotos e dava presentes e beijos para abrir o sorriso lindo de minha mãe. 

 

Às vezes, faziámos uma prece meio solta diante da refeição fumegante. Se soubessemos o que viria, a gente devia dar mil graças. Havia a fartura, os filhos, o netinho, o marido, a calma e principalmente minha mãe sorria na ponta da mesa.  Agora, mesmo se eu não tivesse perdido o ônibus, eu não estaria próximo de minha mãe. O Alzheimar apartou minha mãe de nós. Minha mãe não sabe mais que hoje é dia das mães, nem que tem dois filhos criados, um neto cheio de vida e alegria. Esposa, minha mãe não sabe que o amor que escolheu para casar há 48 anos e que algumas vezes duvidou ser o certo, agora é o melhor e mais dedicados do maridos. Minha mãe não sabe que foi professora por quase quatro décadas, e muitos do adultos com quem cruza na rua a chamam de Professora Célia. As perdas de minha mãe são tantas nos últimos dois anos que ás vezes tenho dificuldade de olhar para seu rosto. No entanto, mesmo assim,  ela ainda olha por mim. Às vezes, num flash de lucidez,vejo, em meio ao seu rosto debilitado e atormentado, um olhar de mãe. Passa como uma estrela cadente em noite nublado. mas marca. 

 

Não sei porque justo ela meu Deus tem de sofrer tamanha dor. Quero crer que ó prego que lhe fincam é oque lhe uni a cruz. Em um natal passado, quando a doença já estava bem adiantada, lhe presentiei um cd com músicas golpel.Minha mãe sempre gostou mais de MPB e boleros, mas pela ocasião achei melhor milagres. Pedi para sua enfermeira sempre tocar aquele cd toda manhã. Em um sábado quente e calmo, encontrei minha mãe serena. As janelas do apartemento, que tanto nos davam medos nos dia agitados, estavam abertas, assim como o lindo sorisso da professora aposentada. Me sentei ao seu lado no sofá e ficamos a ouvir a música que falavam de provações, milagres e Jesus. Minha mãe segurava nas mãos a capa do CD e em um dado momento me mostou a lista de quatorze músicas. Meio que aleatóriamente me apontou a oitava faixa e disse suavemente "eu estou aqui" . O nome da música era " Jesus está comigo". As lágrimas rolaram de meu rosto enquanto eu beijei a tempora de minha mãe. Esse foi nosso último diálogo. 

 

Agora à pouco, quando a boca da noite ia terminando de engolir o dia, o telefone tocou. Era meu pai. Eu já havia falado da perda do ônibus com ele mais cedo mas agora ele tinha uma novidadade. O jornal O Guarani no domingo das mães publicou uma crônica que fiz para minha mãe há tempos. Não lembro bem do conteúdo desse texto em especial, mas sei que escrevi quando minha mãe estava plena de saúde, aos 70 anos. Assim, ela soube que não era tão ausente.

 

Eu ai terminar esse crônica escrevendo "Dia das mães longe da mãe, dia vazio". Mas a ausência de minha mãe de certa forma me trouxe ela mais próxima. Então penso melhor e digo quem teve uma mãe nesse mundo por maior que seja a dificuldade, distância ou doença jamais estara de todo longe dela. 

 

Beijo, Célia. 

 

 

 

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