O dedo azul
O verão bateu como caminhão de gás em posto de gasolina. Tá um calor para índio Apache pedir trégua. Em meio ao fogo, tenho que trabalhar. Não fosse isso já um sufoco, pela janela, vejo a piscina do Colégio Estadual do Paraná.
Se você não conhece esse orgulho do ensino do estado, eu explico: o Colégio Estadual do Paraná é uma miragem. Um oásis no meio do Saara não estaria tão fora de lugar como o Estadual no Paraná no Brasil. Não existem escolas públicas como ele aqui e em nenhum estado da federação. O prédio é imponente, grande, arborizado, tem campo de futebol, planetário (juro), sala de música, pista de atletismo e uma enorme piscina azul com trampolim onde os alunos mergulham na melhor das matérias. De tão fenomenal, a escola é reconhecida por essas bandas apenas como “O” estadual. Todo escola do estado é estadual mas só uma tem “O” como pré-nome.
Do meu canto quente olho os alunos saltando do trampolim e me pergunto se eles sabem que aquele pode ser “O” momento da suas vidas. Será que o garoto que mergulha no ar é grato por estudar numa escola com piscina? Por ter um dia de sol no seu dia de piscina? Por não saber o que são contas, crise da mundial da economia e ter que trabalhar numa tarde de sol. Acho que não.
Quem realmente sabe que vive “O” momento de sua vida? “O” grande amor, “O” grande salto no trampolim, “O” grande lance, “O” grande pico na cadeia do Himalaia existencial. Não, amigos, não! Só quando olhamos de baixo que vemos como fomos alto naquela hora. Por isso, acho que a gente devia ter um tipo de aviso quando for “O” momento. Por exemplo, um dedo podia ficar azul.
A gente mirava o rosto da moça linda sorrindo para e o dedo fica azul. Marcava o gol do título e o dedo ficava azul. Escapava da morte, agarrava um pepita no fundo da mina suja ou punha ponto final na obra prima ou simplesmente olhava um por de sol e o dedo ficava azul. Seria um aviso tão bom quanto das rugas no rosto e fios brancos na cabeça. Só que diametralmente oposto na mensagem.
Mas isso é bobagem minha. Passatempo ou sonho de quem olha piscina azul através de janela quente. Muitas vezes “O” grande momento é ofuscado pelo dia seguinte, pelo desafio seguinte, pela menina nova da sala ou outra distração qualquer. Os garotos que saltam na piscina tem sorrisos abertos mas também tem provas bimestrais e preocupação com a formatura. Tolos. Mal sabem eles que formatura se faz todo dia. Enquanto mergulhos na piscina em dias quentes são raros como dedos azuis.
Na cama com Curitiba.
Em busca do melhores mercados para sua pílula azul, o laboratório Pfizer fez
uma pesquisa com mais de 8 mil pessoas, em 10 capitais brasileiras, e chegou
a conclusão que nos enche de "quem eu?": o curitibano é pior brasileiro na cama.
Antes que me detonem ou me mandem devolta pra minha terra ( que nem sei mais onde é ), reafirmo e dou site * de que quem afirma isso é Pfizer e quem faz a fofoca é a ilustre Gazeta do Povo.
Então, mandem eles devolta de onde vieram, não eu. Eu, que sou curitibano
por opção e não por escolha da cegonha, quero ver Curitiba fora da lanterna
da pica de pano e estou a disposição de qualquer amiga jeitoso que queria tirar a cidade
dessa posição. Porém , entretanto, penso que o sexo nesta cidade contruída embaixo do ralo do céus, enfrenta algumas dificuldades pra pegar como na Bahia ou em Minas. A saber:
Primeiro, segundo e terceiro: o cinza, a chuva, o frio. Quando fica cinza a gente quer trassar lasanha. Quando chove, a gente já fica todo molhadinho. E quando faz frio, quem pensa em ficar pelado?
Mesmo no calor, pra fazer sexo bem feito é preciso tirar a roupa de grife e
manchar a maquiagem do Salão Marly.
Sexo muitas vezes começa com um bom dia. Coisa que curitibano não curte fazer.
Quando se faz sexo não dá pra mostrar que fez em coluna social tipo do Reynaldo Bessa.
Sexo é entrega, comunhão, parceria. E sujeito reservado ás vezes é um nome bonito pra solidão.
Sexo fora do casamento é um pecado. E dentro, um milagre.
Quando se faz sexo em casa estranha, seu carro fica ao relento na rua.
Pra ir a um motel o curitibano precisa ir aos bairros que ele não gosta de mostrar pros turistas.
Quem não faz sexo, nunca broxa. O que é um belo argumento pra não fazer.
Sexo não foi obra de Jaime Lenner. Então, não deve funcionar bem.
Sexo não cai no vestibular da PucPR. Então, pra que saber como faz?
Sexo envolve gritos, sussuros e paixão e isso só pode em Atletiba.
Sexo não pode ser feito em shopping centers. O que complica a agenda.
Motel não serve o cardápio do Madalosso Santa Felicidade.
Motel fica nas saídas da cidade, o que pode dar vontade
de seguir em frente e nunca mais voltar.
Sexo com gente do fora pode gerar mestiços com povo do interior e, pior, do norte.
Sexo, quando bem feito, é sujo. E essa é a cidade mais limpa do Brasil.
Mulher que gosta de sexo é vadia. E homem, tarado. Viado, então, valha-me Jesus.
Fazer sexo tira atenção do Facebook, do Twitter e do que o vizinho anda aprontando.
Sexo, ás vezes, envolve tomar no cú. E isso o curitibano já usa no nome da cidade.
Amigo, meu amigo. Se você riu pelo menos de uma linha nesse texto, você entendeu tudo. Ninguém é perfeito o tempo todo, em toda ocasião, em tudo. E mesmo o maior do pegadores, tem horas que querem mais é dormir. E de mais a mais, você não foi consultado neste pesquisa, né? O importante é manter tesão pela vida. O resto, dá-se jeito com uma amante nova, vinho velho, viagem pra Bahia ou pílula azul.
eduardo visinoni
*
http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=831770&tit=Curitibano-e-o-que-menos-faz-sexo
Pela ordem e progresso : burca no verão.
Dizem que a burca que cobre as mulheres muçulmanas é um retrocesso medieval. Essa mulherada boa e bronzeada andando solta pela rua é que é um atraso nacional. Distraem os homens, impedem o avanço social, dão divórcio. Burca centra a mente do homem em assuntos outros além da festa no apê. A humanidade é maior com as mulheres cobertas. Vejam os países avançados. Dizem que são assim porque trabalham mais, roubam menos, têm raça superior.
Bah! É o frio que põe a mulherada coberta com camadas de lã, nylon e algodão que aquece a economia deles. Podes crer, quanto mais escondida for a barriguinha, maior será a fartura da nação em todos os campos. Mulher boa andando solta na rua pára o trânsito, serra o dedo do peão na obra, salga o café no boteco e condena até o soldado distraído do tráfico de morro.
Outro dia, aqui na mina de sal, deu quebra geral no computador da Karina, que roda a folha de pagamento. Se fosse o computador de outro o conserto era pá e bola. Mas a Karina, além de bela, se veste como se isso aqui fosse o Ministério da Lycra. Veio um infame técnico fazer boca a boca no CPU. O cara viu Miss Lycra e
deu pau no HD dele. Foram horas, amigos, horas de mexe-mexe. A Karina fazendo beicinho e mexendo no cabelão a cada aperto no "enter" e o técnico babando no monitor.
No fim, era só um fio solto. Mas o problema real foi o decotão liberado que levou o pagamento para depois do feriadão e a produtividade geral da mina para a cucuia.
Imaginem milhões de decotes soltos?
Por isso, eu sou pela burca! Não precisa ser pesada e radical como no Oriente Médio mas não pode ser transparente como o malandor pensar. Pode ser colorida, leve, mas tem que ser folgadona e cobrir a perdição de nosso progresso social.
Se você acha isso machismo, pense melhor. Burca vai igualar as mulheres. As boas não vão dominar. Uma tortinha pode ser hostess de balada, vendedora de loja descolada, personal trainer. Com a burca, toda mulher pode ser confundida com a Luana Piovanni. Só não pode ser vesga. E mais! A mulher
Burca é a libertação do pior dos mantos: da feiúra e das neuras com celulite e dobrinhas. Imaginem os namoros iniciados por tesão pelo papo da mulher e não pelo pandeirão? Imaginem a estabilidade dos casamentos? A esposa preservada pela burca e o marido sem ter curvas alheias para capotar a paz no lar. Seria uma redenção.
Então, com tanto a ganhar na economia, na igualdade da mulher e na paz no lar, eu sou pela burca! Não arredo o pé! Burca é progresso! Vida melhor! Evolução... Ops!
Pesando melhor, a Karina acabou de passar por aqui. Hoje ela veio trabalhar de calça de lycra rosa com marquinha do biquíni aparente e eu quero mais que o
progresso da humanidade se exploda. Fui!
eduardo visinoni
Eu e meu vidro de rolmops
No retorno do réveillon na praia, parei numa daquelas cabanas de pé-de-serra que vendem tudo o que você não deveria comprar em pé-de-serra: chocolate, mel, pinga, artigos de couro, caixa com cobra de mola dentro. Não sei se por causa do calor ou pelo finzinho da febre consumista do Natal, eu, que sempre tomo só um suco de milho, dessa vez comprei pão caseiro fumegante, um pote de mel e, num ato intempestivo, peguei um vidro de rolmops Tatuquara.
Não me perguntem por que comprei o vidro. Nunca fui um grande fã de rolmops e não sou caminhoneiro o suficiente para ser. Sim, porque rolmops, antes de ser petisco, é um atestado de macheza bruta. Criança, mulher, viado, intelectual e palmeirense não comem rolmops. E não é pra menos. Uma cebola ardida, enrolada por uma sardinha salgada, embebida em líquido acido e transpassado por um palito tosco sempre será pra gente que palita o dente com facão. Coisa fina como eixo de caminhão FNM.
Mas você me pergunta se o gosto é bom? Bom não é. Mas, amigo, dá uma moral!... Como pular bungee jump, depois de encarar a parada você se sente macho, no alto da cadeia alimentar, bem acima dos covardes que desdenharam inicialmente do tresloucado ato. Dito isso, se comer um rolmops parece loucura, imagine comprar um vidro inteiro! Só delírios de grandeza explicariam meu ato, porque minha amiga não entendeu meus argumentos vagos.
Em todo caso, o vidro subiu a serra e ganhou lugar de destaque no alto de minha geladeira. Daí, passado o frenesi do momento, veio o desafio de encarar o vidro. Dei uma semana para me preparar e, num fim de tarde, depois de entornar duas cervas preliminares, subi no ringue. Daí pintou a caçapa! O rótulo do vidro reciclado de maionese alertava: depois de aberto, consumir em três dias. Caraca!!! Contei bem mais de 20 rolinhos de estopim para gastrite submersos no ácido. E eu como um rolmops por bimestre. Problemão!!! Minha namorada, filho, vizinhos e parentes não iriam enfrentar o vidro comigo. Então, pensei nos camaradas de luta. Caras duros, machos como zagueiros uruguaios e índios apaches. Mas tenho muitos amigos em literatura, artes, jornalismo, propaganda e nenhum caminhoneiro. Todos tinham outros afazares além de deglutir peixe salgado e cebola crua.
Assim, o vidro de rolmops prosseguiu fechado, me olhando como um cubo de Kubrik em busca de solução. Eu, na adolescência, resolvi o enigma do cubo, mas não o do rolmops na meia-idade. Assim, agora lá está meu vidro de rolmops me olhando de cima para baixo toda vez que vou pegar um Danone na geladeira. Tento evitar olhar para o vidro, mas, como o BBB7, dor de no dente ou carnês de IPTU e IPVA, ele insiste em atravancar o meu janeiro. Não sei o que fazer com aquilo, como não sei o que fazer com minhas dívidas. Feio, ardido e indigesto, o vidro de rolmops virou um problema que empurro com a barriga. Quem dera fosse o único.
A lição dos cabelos brancos. ( para meu amigo Xexeco)
Ontem fui a um bar modinha perto de casa. Fui lá para beber, para comer rango da moda e confabular com amigos que só me mandaram as desculpas de não poder ir. Mas, por sorte, lá estavam, sentadas na mesa ao lado, as integrantes de um banda da moda chamada Mixtape.
Já ouviram Mixtape? Provavelmente não, né. ( vide clip abaixo ) É banda da cena underground de CWB, som moderno, postura atual, All Star xadrez no pé e não é coisa de velhaco pançudo que curte Uriah Heep e calça chinelo Rider. A vocalista da banda, muita da moderna, ostenta uma bela cabeleira branca. Não loira, branca. Como juba de leão albino. É super Hype ( maneiro, como se dizia antigamente ). Sorvendo minha cana e ruminando palito, fiquei a olhar a menina de juba branca moderna e lembrei-me que já fui moderno.
Eu era então calouro de faculdade, terceiro lugar de um vestibular fácil e, largadamente, estava me dourando na praia de Peruíbe-SP. Sabia que meu bons companheiros da capital, em um gesto de bruta amizade, iriam escalpelar minhas madeixas castanhas assim que voltasse para a casa . Dai num ato meio sem porque besuntei meu cabelo com um descolorante forte que minha prima Ligia passava na pernas e fiquei com os cabelos alvos, nevados e modernos.
Sabem, naqueles idos, se filme francês era "cool", o filme francês Subway era muito moderno. Nele o astro do futuro Highlander se esgueirava pelos tuneis e estações do super “cool “metrô de Paris. De quebra, ele montava uma banda “daora”, pega a mega gata “hype” Isabelle Adjani, escapava dos tiras cuzões e ostentava cabelos brancos e óculos Ray Ban.
Com meus cabelos brancos eu não me senti muito astro francês de cinema. Mas dava um caldinho. As meninas que queriam ser modernas passaram a me achar mais interessante que deveras eu era. Ou sou. Por decorrência, naquele verão dourado, eu nunca peguei tanta menina metida a descolada.
Mas o caso é que verão acaba, aulas começam e, na volta para cinza São Paulo, os amigos galhofos me chamaram de Eduar-idol ( em alusão ao Billy Idol). E os outros me xingavam de bicha, de viado, de costureiro do diabo, de vergonha do meu pai. Dai, na ância de não destoar ou de envergonhar meu pai, cortei minha juba branca e como um Sansão “hype" perdi a força da modernidade.
Isso foi vinte e tantos verões e agora meu cabelos estão voltando a ficar brancos. Não sou mais moderno, nem tenho a esperança de calouro, tenho ainda sonhos e cabeça dura mas uma coisa fundamental eu aprendi: quando uma menina metida a descolada lhe der mole pela ousadia da cor de seus cabelos e um gaiato te chamar de viado , fique com a mulher e mande o babaca enfiar cenoura e bronze no rabo. Sabem, a memória é um fio de cabelo, pinte de cores mais alegres que ele se destaca na escuridão do tempo.
Mix tape.
http://www.youtube.com/watch?v=V64LG8rR26Y&feature=related
subway
http://www.youtube.com/watch?v=hvRrEzlfTWk&feature=related
Andando sobre as folhas do tempo.
Retornar as ruas de Itararé- SP onde cresci abre dentro de mim uma avenida. Ainda mais passeando com meu pai. Ontem saímos para comprar espetinhos de churrasco e na volta bater um papinho no boteco. (Dou graças a Deus por ter idade e pai para tomar uma no bar). Fazia um calor dos infernos o que era bom para ir descongelando o espeto e dar mais gosto ao gelado da cerveja. No caminho da bar, meu pai se abaixa na rua e apanha um folha de papel branco. Em meio ao movimento lento e dolorido de ele diz "Deixa ver quem morreu".
O papel é um tipo folheto de liquidação espalhado pelas ruas de maior movimento como santinho de candidato. No meio lê-se com letra grande meio funesta o nome de um morto recente e o horário do seu sepultamento. ‘As vezes, como adendo ao finado, vem sua função tipo professor, vereador ou doutor. Também é comum, para ser melhor reconhecido, ler seu apelido "Biribinha". Essa é a maneira que familiares em Itararé usam para anunciar a partida de um ente querido.
Lembro-me dessas folhas rolando pelas ruas desde sempre mas nunca lhes dei conta. Agora, na idade da vida que se sabe da ida, é diferente. As folhas brancas rolando com vento me lembra o samba "Folhas Secas" de Nelson Cavaquinho. "Quando o tempo me avisar que não posso mais cantar, sei que vou sentir saudade ao lado do meu violão de minha mocidade". Folhas com nomes de meus avós, tios e uns primos já rolaram pelas ruas de Itararé. Outros viram. Mas hoje não.
Faz um sol ardido e andando lentamente chegamos ao bar com sede. A última vez que eu e pai tomamos uma em clima tão bom era para celebrar o nascimento de meu filho. Meu pai me apresenta ao pessoal e pensam que sou neto dele. Todos riem quando a verdade vem. Tomamos duas cervejas juntos e meu pai toma uma pinga sozinho "pra amaciar". Homens com barba mal feita e botas sujas de poeira entram e saem. Meu pai é conhecido na cidade e reconhecido gente de bem. O morto do dia por sua vez divide opiniões. De certo mesmo, todos concordam,é que desta vida só leva o que se dá. A noitinha chega com seu refresco e amanhã outro nome estará escrito na folha do tempo e falado em mesas de bar. Voltamos para casa abraçados eu e meu pai.
Itararé-Sp, janeiro de 2012.
George Clooney 24 h
George Clooney é que se pode chamar "o cara". Bonito, boa praça, amigo, na dele, engajado em causas, solteiro, rico, dizem que até é Corinthiano Em pesquisa realizada nos USA 80% das mulheres apontaram com George o parceiro ideal e sonho para uma noite deslumbrante. Modelos acham o cara lindo. Intelectuais acham o cara inteligente. Charmosas, acham o cara charmoso. Alpinistas sociais, acham o cara um escada de ouro. Freiras, acham o cara o tentação do demo. Até mesmo a Maria Gadu, acha o cara uma forte razão para o arrependimento. Enfim, o cara é um deleite como queijo em Minas Gerais. O cara é tão querido que eu pensei numa questão:
O que o amigo aí faria se fosse George Clooney?
Isso! Como uma espécie de Gregor Sansa do Kafka com muito mais sorte, um dia você acorda, sente um tônus muscular diferente, pele mais bronzeada, olha para baixo e a barriga e não nada de barriga, apenas tanquinho e um membro muito ocupado. Dai corre ao espelho do banheiro e avista o George Clooney sorrindo para você. No canto do espelho um post-tit divino alerta "vc tem 24 horas, run". Para onde você corria?
Eu, por mim, saia correndo pela vizinhança, depois pela firma, depois pela academia, pegando pelo caminho todas a damas que sempre fora motivo de minha salivação mas nunca deram conta de minha existência. Depois, com mais controle do cérebro sobre o desejo, passaria em vários bancos e pedia grandes empréstimos para as gerentes solteironas. Qual delas iria negar uma ajudinha para como estrela de Hollywood que ficara sem numerário no Brasil ? Ainda mais com aquelas covinhas e barba semi serrada.
Claro, depois colocava a bolada na porta mala do meu Corcel e dava o sumiço ao estilo bola ninja. Ato contínuo, rico e bonito, ligaria para meus grandes amores não correspondidos que, por serem grandes, não foram tantos. Convidaria para um café, um papo e um por de sol. Pegaria na mão, fazia charme e falava de coisas do coração, de filhos, de envelhecer, dessas coisas para sempre. Depois, com elas aos pés do de George Clooney sai correndo deixando as ingratas com gosto de flecha de gelo no peito. Afinal a noite era uma criança prometia. Dai dava uns pegas na mulher dos meus chefes e outros canalhas e faria de todos cornos e com sanha de matar o Clooney.
Já com a noite feita, daria em cima de umas mulheres feias e solitárias, afinal tudo mundo é filho de Deus. E por fim, eu iria atrás dela. A tal. A razão de meu existir. A melhor de todas, que eu sinto nos ossos feita para me complementar neste plano astral. Ela, que de tão linda, de tão bem humorada, de tão gente fina eu quase não percebo o corpo de cavala andaluz, com quadril de tacho de bronze, coxas de tora de bananeira e sorriso de dia de sol em mar azul. Vou até Ela com todo o charme e a certeza quem já teve todas as mulheres do mundo. Ela, humana e mulher que é, se derrete. Fica fácil, solta, risonha como um criança indo para Disneylandia.
Conto segredos em seus ouvidos. O quanto a entendo e o quanto somos pares. Num deslize, falo que ela é a tampa da minha panela, mas até isso na voz do Clooney parece coisa de Romeu para Julieta. Por fim, com ela em meus braços a beijo com toda a intensidade de um amor eterno e final de novela.
Dai olho no olho, hálito no hálito, digo sério, "Amor, você quer eu volte? Sempre?" O sol vem nascendo e ela responde "Sim, sim George!!!". Daí eu digo ". Então, eu te peço que quando for a padaria Verdes Mares comprar pão e mortadela e cara do caixa com boné do Paraná Clube lhe falar que você é a mulher mais linda e maravilhosa que encantaria até George Clooney, você não faz nem cara feia nem corre, mas olha no fundo dos olhos dele e verá eu, George Clooney. "
Eu a beijo mais uma vez, o sol aponta na janela e eu corro para abrir a padaria.
Era um filminho que passava na Sessão da Tarde. Como não tinha grandes efeitos e astros, acho que pouca gente se lembra. Mas o roteirista tinha talento e por isso eu me recordo do “plot”. Era o seguinte: uma raça alien super do bem está em guerra com uma orda selvagem
do mal, tipo uns hooligans-pittyboys-espaciais. A tal guerra de fronteiras, que já dura séculos, está pau-a-pau. No filme, os aliens sangue bom têm um problema. Eles têm naves superavançadas , porém estão quase sem guerreiros para pilotar as máquinas. Para resolver a escassez de pilotos, enviaram um videogame chamado Starfighter para todos os planetas habitáveis por seres inteligentes da galáxia. Os consoles tipo Defender (alguém se lembra?) ficavam mocados em fundos de fliperamas, cantos de bares e postos de gasolina. Daí tinha uma sacadinha legal do roteiro. A garotada jogava na verdade num simulador de batalha da guerra espacial. Os comandos eram iguais às naves reais dos aliens. Mas nenhum garoto buscando passar de fase, bater recordes de pontos ou simplesmente sobreviver sabia disso. Assim, os aliens treinavam, calejavam e peneiravam os melhores guerreiros das estrelas. Um adolescente fodido, após perder o emprego e a namorada, para um riquinho, vai afogar as mágoas no tal game que não devia ter vindo para a Terra (pois os habitantes não são inteligentes o bastante). Resultado: o fodido bate o recorde de pontos no Starfighter e na madrugada um disco voador vem buscá-lo. O fudido fora automaticamente recrutado para as tropas do bem na luta contra o mal. No final, após uns sustos com as novas reponsabilidades e pedreiras da guerra, o guerreiro da Terra encontra seus pares de toda a galáxia e partem para rachar de pau os sangues ruins na guerra santa especial. Fim! Como disse lá no começo, é um filminho de Sessão da Tarde que não vale nada e quase nem vale lembrar. Este ano está no fim, como os últimos três, e eu tenho lutado sem parar para me manter, pagar as contas, dar oportunidade de futuro para o meu filho. Tenho feito pontos, escrito, caído, dado tiros e levado bomba. Às vezes, desanimo vendo o mundo desse jeito vale-tudo com as fronteiras da decência caindo. Mas gosto de pensar que as minhas ações neste mundo tão cheio de canalhas são um tipo de joguinho que nos leva a mudar de fase ou pelo menos encontrar com gente melhor, mais humana e evoluída. Assim seguirei em 2012. Me indignando com injustiças e falsidades, lutando contra moinhos, vivendo a boa luta, enfim. Mesmo que isso seja uma baita bobagem da Sessão da Tarde.
Johnny Pinguela.
Prece de Cáritas ( psicografa numa noite de natal de 1873)
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Toda árvore é feita de luz
Houve um tempo em que todas as árvores de Natal eram árvores de verdade. Em Itararé-SP, A gente ia ao campo perto de casa, colhia um pinheirinho bonito e replantava numa grande lata de banha Maria embrulhada em papel vermelho. Depois trazia tudo para a sala de casa e fazia a decoração.
Mesmo antes de ouvir falar em reciclagem, a gente em casa reciclava por falta de opção. Assim, copinho de iogurte Batavo virava sininho e as bolas eram feitas de lâmpadas pintadas, origamis feitos com maços de cigarro Minister viravam pacotinhos de presente e o forro metalizado eram as estrelas. Tudo era artesanal, por isso mesmo tinha mais jeito de Natal. Afinal, Jesus era artesão, não?
Já hoje vejo que tudo isso vem embalado para viagem da China. Cuspidas das linhas de montagem, tem árvore para todo gosto e todo bolso. Mas todas as árvores chinesas têm em comum serem feitas de plástico seco e arame torcido. Li em algum lugar que lá na China, onde a economia é planificada, tem uma cidade do tamanho de Belo Horizonte que só faz única e exclusivamente árvores e decoração de Natal. E a cidade vive o ano todo no clima do Natal. Fico imaginando se quando chega o dia 25 de dezembro os habitantes dessa cidade-fábrica comemoram a festa ou simplesmente, tiram o dia de folga e pensam no ganhos planificados do próximo ano.
Mas, independentemente da árvore ser de plástico, de papel, de pano ou de verdade, elas não são feitas de material em si. Porque toda árvore de Natal é feita de luz. Olhar para elas nos cavoca a alma endurecida e revela um brilha na gente . A sombra das árvores, ao contrário das sombras da vida moderna, nos ilumina. Por sua vez, os pirilampos que brilham nelas acendem coisas boas e tolas dentro da gente, como as lágrimas ou reminicências de árvores antigas, presentes passados e abraços que já se foram. Os sinos de plástico , com balado de pilha e melodia de bits, tocam um tipo de sinal para desacelerar, para nos desarmar e pensar nas coisas que realmente valem e nos ajudam a seguir adiante em nossos planos de um Natal melhor ano que vem.
Falando nisso, passado o Natal, aquelas árvores de verdade seguiam sua vida. A gente, com dó de matar uma coisa que nos inspirava tanto, acabava replantando a árvore em algum quintal, bosque ou terreno baldio. Depois esquecia e voltava à luta. Passados 40 anos, eu gosto de pensar que essas árvores de luz seguem por lá, onde eu as deixei, porém, agora, bem mais frondosas que as minhas memórias da infância.
Feliz Natal. Ótimo 2012
Felicidade é uma fresta no muro Ver a margem do rio longe e o braço ardendo. O saco meio cheio de tudo. Tão cheio até de ser infeliz!!! o sopro de entendimento na chegada dos 40 ou simplesmente ver o babaca se fodendo nem que seja na videocassetada do Faustão.
Ninguém é feliz o tempo todo. A não ser que você viva
num monastério no Himalaia ou num ap com vista para a
piscina da Luma de Oliveira. Mas para prisioneiros do
cheque especial como eu e você, leitor, felicidade é o
bug, o respiro, a anomalia. Uma taturana psicodélica
escalando a antena transmissora da TIM. Viver sem
fronteiras é o slogan deles. Mal sabem que a grande
fronteira hoje não se levanta lá fora, mas sim
aprisionada aqui no oco do peito.
Frustração é a grande fronteira. O muro invisível da
solidão. O cagaço do bilhete azul. A bruxa do 71.
Para não explodirmos como moscas no pára-brisa desse
trem-bala morro abaixo, tem que ter a fresta. Uma
graminha entre paralelepípedos. Um cheiro de café novo
no meio da tarde. A voz do filho no telefone. Um cigarro
na varanda do Titanic. Uma bola de três dedos no
ângulo. A esposa numa tarde de namorada. O pardal azul
no céu cinza. Sem a rachadura o muro vira túmulo e
você, zumbi.
Por isso, se não dá para implodir a bagaça, o que nos
resta é a fresta. Sejamos como baratas e passemos por
ela. Da mesma forma que as sombras ao meio-dia somem
por um instante, a gente pode ser feliz eternamente
por um olhar da bunda que passa, o desconto no 1,99, o
abraço do filho na saída da escola, o salário dobrado em dezembro,
Carta ao Pai.
Meu amado pai, hoje você completa 81 anos de vida. E como todo aniversariante deve estar a pensar em sua vida e no seu presente. No calvário que sua esposa com Alzheimer enfrenta, na distância dos filhos e do neto. Quis nossso Senhor que esse últimos anos tenham sido duros, talvez até, os mais duros de sua vida. Não tem sido fácil. Mas eu aprendi uma coisa boa com toda essa dificuldade. Ela tem nos unido como família mais que nunca.
E eu nunca tive tanto orgulho do meu pai João Edinil Visinoni como tenho hoje. Você completa 81 anos e eu só tenho aplausos para você e sua tragetória de vida. Das batalhas que venceu, da honestidade, da bondade, da força e fé. Nos momentos que tudo ia bem, você ia mais ou menos. Mas agora que enfrentamos nossas piores lutas, você tem sido superior como homem, glorioso como marido, exemplo como pai e avó.
Isso não é pouco, meu querido pai. Sua perseverança me serve de ideal nesta momentos duros que vivo. Sabe, meu pai, DEUS existe e não é cego. Se você teve falhas no passado, agora você só tem glórias. DEUS existe sim, e se nos dá doenças e dores é porque nos desafia a sermos maiores. Você do alto das suas 81 vitórias, venceu perda do pai, venceu a Turberculose, venceu os vicios, venceu a si mesmo e agora se apresenta como um homem integro e maior. Bravo!
Tem sim as dores de seu tempo. Mas não tem as correntes da desonestidade que alguns arrastam pela vida e canalhice que curvam outros. Vc está integro. Se não tem a fortuna que todos ambicionamos é rico em outras mais caras. E tem o amor irrestrito da esposa, dos filhos, do neto e amigos.
Um grande beijo de Célia, Eduardo,Luciana e Francisco Visinoni.
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