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O guarda chuva invisível.
Ontem levei Francisco, meu filho, para conhecer o centro de São Paulo. Logo no início, a cidade mostrou que não é fácil. Do nada, rápido como trombadinha, o tempo virou e caiu um pé d’água estilo tsunami paulista. Sorte nossa que a cidade era São Paulo. Noutro logradouro teríamos que correr até uma marquise, mas na capital das oportunidades, tinha um vendedor de guarda-chuvas logo à mão. Em SP, tendo muito dinheiro, você manda até a chuva parar. Tendo pouco, vira-se. Sendo assim, saquei 5 reais da carteira e comprei um guarda-chuva chinês . Na TV passa um comercial das Linhas aéreas dos Emirados que pergunta: “Quando foi a última vez que você fez uma coisa pela primeira vez ?”. Fiquei sem resposta quando ouvi a pergunta, mas respondo agora: “Quando comprei um guarda-chuva.”
Lembro de ter comprado guarda sol na mocidade dourada, mas nunca um guarda chuva. Em caso de chuva, sempre me arrumava com corrida, capa, carona e emprestava um guarda-chuva preto sisudo com cabo de baquelite de meu pai ou, em último caso, uma sobrinha florida e nervosinha de minha mãe. Esses foram os guarda-chuvas em minha vida até ontem.
Mas seguindo com o passeio, inaugurando o guarda chuva, lá fomos eu, Francisco e uma multidão de pessoas apressadas e molhadas que mais pareciam figuração do Blade Runner. No abrigo da estação do metrô descobri que meu guarda chuva era grande e que no lugar daquele cabo curvo que a gente pendura no antebraço, o meu era reto. Assim, além da mão de um filho para apertar, uma carteira para defender dos gatunos, eu tinha um baita guarda-cruz para carregar.
Foi aí que o pensamento me veio . Que tal me descartar dele? Eu não precisava mais da proteção do guarda chuva e ficaria mais livre se aquelie trosso molhado . Para corroborar minha idéia ruim, a última vez que vi a chuva ela parecia que ia para os lados dos bairros. E cinco reais sempre serão cinco reais. Assim, pensei em esquecer o trambolho num canto e sair de fininho. Hoje em dia guarda chuvas são meio que descartáveis. Usamos quando precisa e depois tchau. Se pelo menos meu modelo fosse dobrável eu podia esconder ele na mochila como um salame embrulhado em nylon. Mas o meu era grande e sem alça, sem jeito...
Por fim, o trem chegou ao centro velho e o exemplo de meus pais carregando seus guarda-chuvas por dias de chuva e de sol manteve o meu na mão. O que foi ótimo. Pois , na estação São Bento, chovia. A chuva que parecia ir aos bairro, veio para o centro , ecomo todo paulista, com mais força e impeto de mostrar serviço.
Tanto que corri até a igreja do mosteiro da São Bento com um filho e um guarda chuva em cada mão. Lá dentro, surpressa: a chuva não caia e nem cidade lá fora existia. Um silêncio estranho a São Paulo tomava conta do local. Era outro tempo, outra pressa, outro sentido do metrô dentro de mim. Lá fora rolava um deus nos acuda, dentro, um Deus nos acolhe. Em seu abraço ancestral a igreja abrigava gente molhada, seca, viva e cansada de viver.
Daí, como luz varando vitral, me veio o segundo pensamento . Fé é um guarda chuva! Você pode não ter, desdenhar, questionar que ele abra e duvidar se vale a pena carregar, mas na chuva quem não quer? Quem é ateu no desamparo? Saímos do Mosteiro e do outro lado da rua avistei uma bomboniere-cafeteria chamada Ebenezer. Abri meus dois guarda-chuvas e corremos eu e meu filho até um bombom com chocolate quente.
Johny Pinguella. Novembro de 2007.
Escrito por Johnny Pinguela às 12h34
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