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Johnny Pinguela
 


A condenada

 Adélia era uma aluna como poucas. Séria, inteligente e esforçada, Adélia passou entre os primeiros no disputadíssimo vestibular de Direito da Universidade Federal do Paraná. Um sonho de criança realizado! Ser advogada! Os pais apoiaram, os irmãos incentivaram, os parentes aplaudiram e até colocaram faixa na rua. "Parabéns, Doutora Adélia!".

A seriíssima Adélia havia nascido para sentar numa cadeira de advogado. Defender causas, proteger inocentes, fazer um mundo melhor. Só havia uma dissonância, um parágrafo na sua defesa de vida não batia: Adélia tinha uma bunda de humilhar chacrete. Um rabo abusado e indefensável que fazia Adélia Farracha de Castro, ainda caloura de Direito, ser conhecida na faculdade como "a melhor bunda da advocacia do Paraná". Sabem, para muitas o título de melhor rabo podia ser uma honra, mas para Adélia era uma maldição. Adélia não aceitava seu rabo volumoso, arrebitado e saboroso como pêra madura. Adélia queria vencer pelo talento e trabalho duro, e todos a reconheciam apenas como “o rabo”. Estelinha, amiga de infância de Adélia, tentava orientá-la:

- Adélia! Isso é uma dádiva. Use sua bunda a seu favor...

- Nunca!

- Use-a para fazer justiça!

- A justiça é cega, Estelinha! Hei de vencer por meu intelecto e correção! Não por minha anatomia desproporcional!

Como na faculdade somente a justiça era cega, Adélia sofria. Estudava, virava noites em cima do Código Penal, tirava 10 e os colegas falavam: "É pouco para tamanha bunda". Professores estavam sempre prontos para esclarecer as dúvidas mais aprofundadas da caloura. "Afinal, para bacharelar aquela bunda vale tudo."

Mas o pior eram as colegas de Adélia. "Maldita! Não basta ter a melhor bunda, tem que ser a melhor aluna! É como se Evandro Lins e Silva fosse também campeão mundial de box", destilava uma. "Ela não merece a bunda que senta", respondia uma colega reta como a Belém-Brasília. Adélia se desesperava, vestia calças folgadas e saias soltas, mas isso só instigava os comentários e desejos. "Ah! Lá debaixo daquele vestidão vai a melhor bunda do Paraná." Como na lenda do Pé Grande, quando menos se via mais se buscava e falava da melhor bunda agora do Paraná. No Centro Acadêmico se falava em aparições históricas na praia de Guaratuba, fantasiada de melindrosa no carnaval de Floripa e até mesmo numa inesperada farmácia do Alto da Glória, onde a recatada Adélia, por conta de uma virose, mostrou sua glória para o farmacêutico mais sortudo de Curitiba.

Os anos se passaram e Adélia se formou com honras. Primeira da turma, foi paraninfa, recebeu aplausos e ouviu o deslize do reitor para o secretário de Segurança do Estado: "Essa bunda vai longe."

Formada, Adélia seguiu sua luta injusta. Quanto mais batalhava, mais abria processos, mais ia ao Fórum, mais gente conhecia o seu melhor. No Fórum era comum ouvir: "Olha, pessoal, a melhor bunda do Paraná vai estar hoje à tarde na sétima vara", e todos corriam para ver Adélia. Havia aplausos e assobios quando Adélia se levantava para um aparte. Revoltada com a falta de respeito a ela e, em especial, ao rito da justiça, Adélia fez uma jura: “Se não me respeitam como advogada, vão me respeitar como magistrada!”.

E assim, após passar fácil pelas provas escritas de conhecimento jurídico, Adélia foi para a temida prova oral diante dos magistrados mais graduados do Paraná. Em média, um candidato a cada 48 passava, mas Adélia estava confiante. Entre aqueles homens que respiram o Direito ela seria reconhecida. E mais! Respeitada.

Logo ao entrar na sala, ouviu um decano meio surdo cochichar alto para o colega:

- Então as lendas são mesmo verdadeiras!

Fazendo-se de surda, Adélia sentou no meio da sala e ajustou a saia folgada e comprida. Em seguida, o emérito juiz Pedro Pacara falou:

- Doutora Adélia Farracha de Castro, diante de suas notas na faculdade, na OAB, nas provas e junto ao excepcional desempenho profissional, acredito que qualquer questionamento de cunho técnico que façamos será mera perda de tempo.

Adélia, orgulhosa, anuiu enquanto o juiz Pacara seguiu.

- Então, pergunto à Doutora, caso aprovada por esta banca, qual será sua atitude como juíza se alguém chamá-la de "a melhor bunda da advocacia do Paraná"?

Adélia, sem titubear um instante, respondeu:

- Mando prender!

- Por quê?

- Código 1831, seçção dois, parágrafo terceiro: desacato à autoridade!

Os juízes se entreolharam. Em seguida, o juiz Pacara, para espanto de Adélia, que esperava por horas de sabatina, dispensou a candidata.

Após a saída de Adélia do recinto, o juiz Pacara mirou os colegas, respirou fundo e exclamou:

- É uma magistrada nata, bem preparada, justa, corajosa, firme, entretanto... não temos espaço para tanta gente no sistema prisional do Paraná. Que pena!

Todos os demais acordaram. O juiz Pacara fez um "x" diante do nome de Adélia e a condenou por desacato à maior das autoridades.

 

 



Escrito por Johnny Pinguela às 17h59
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