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A vida e uma empada.
Bati a mão no balcão do bar Caruso e ordenei:
ˆ Duas empadas de frango e um chop gelado!
Recebi minhas empadas, meu gelado, paguei e estava indo sentar com meu mac lanche nacional quando pimba! Numa plaquinha bem à vista, lá estava o aviso: “Atenção! A azeitona da nossa empada tem caroço”.
Grande aviso! Fundamental para manter as obturações no lugar. Importante para manter a traquéia desobstruída. Imperativo para manter a freguesia viva. “Atenção! A azeitona da nossa empada tem caroço”. Com o aviso impresso na minha mente, aproveitei minha empadinha com caroço, mas sem medo, sem surpresa, em segurança. A tranqüilidade era tanta, o chop tão gelado e a tarde vazia que decolei um devaneio.
Sabem, devia ter mais avisos bons como esse por aí. A vida seria encaroçada da mesma maneira, mas menos engasgante. Imaginem comigo: você chega no escritório e tá lá no mural: “Atenção! Trabalhe bem, mas não melhor que o chefe”. Você vai ao banco e tá atrás do caixa: “Atenção! Emprestamos merrecas e cobramos milhões”. Na bundinha da estagiária inocente: “Sorria! Você está sendo fisgado”. Na urna eletrônica: “Atenção! A vida dos eleitos vai melhorar, a sua não”. Na bundona da patroa: “Atenção! Tá fora de forma, mas tá paga”. No mecânico, advogado, médico ou presidente de confiança: “Atenção! Não confie em mim!”. No teto do motel com a estagiária cheirosinha ao lado: “Atenção! Sua mulher não usa esse perfume”. No memorando na volta das férias: “Foi para Portugal, perdeu o local”. Na caneta de motel no porta-luvas: “Atenção. Não deixe isso no porta-luvas”. No teste de gravidez da estagiária insana: “E você preocupado com o caroço na azeitona!”.
Termino meu chop e tudo que restou de minha empada foi o caroço chupado no pratinho vazio. Olho para ele e fico feliz. Desse escapei.
Ninguém avisa sobre o caroço dentro das coisas fundamentais. Ninguém! Você vai mastigando a vida despreocupado até começar a ser mastigado por ela. E depois não digam que não foram avisados.
Johny Pinguela
Escrito por Johnny Pinguela às 14h20
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A criança plastificada
É como o enigma de Tostines. Por que as crianças são brancas? Porque não tomam sol? Ou porque o sol é forte? Em todo verão, em toda praia, a pergunta retumba como as ondas do mar. Mães levam seus filhotes para a praia, mas não querem que a praia vá até eles. Acho que se Deus pedisse palpite para as mães ao criar as praias, estas teriam insufilm no lugar de nuvens e carpete antialérgico no lugar de areia. E, claro, todo o mar teria a altura dos joelhos do filho, água filtrada com atestado de bons antecedentes e maré com docilidade de freira Clarita. Vá entender, as mães dão à luz os filhos e depois querem que eles vivam à sombra de um guarda-sol. Ainda bem que nessa ditadura do Copertone rola um libertador: o pai. É ele, essa figura pançuda e avermelhada, quem libera a praia ao filho. Pai rola como croquete. Pai toma sol depois das 10, pai compra pastel mal fritado. Com um pai por perto, o perigo de insolação na criança é bem maior. Entretanto, mesmo o mais desatento dos pais tem o defeito de ser adulto. Sabem, numa visão holística da coisa, cheguei à conclusão de que a infância seria bem melhor sem os adultos. Vejam o caso do sorvete, por exemplo. Os adultos se afligem com os sorvetes nas mãos das crianças. Querem ensinar a chupar, a evitar derretimento e lambuzagem do beiço, dedos e roupas. Para a criança, se entra areia no sorvete ele segue sorvete. Já para adultos, o grão de areia vira risco de pedra nos rins. Se nossa existência neste plano fosse um sorvetão de casquinha, o jeito certo de chupá-la seria de quem? A cada ano, passamos mais protetor solar nos filhos. Besuntamos a infância de cuidados, bóias e medos. Qualquer dia desses, um esperto vai inventar uma máquina de plastificar crianças. Tipo aquelas de plastificar RG. A partir daí, não haverá mais o risco de molhar, afogar, sujar, amassar ou queimar uma criança. Não haverá mais risco algum. Nem mesmo de viver a vida.
Johnny Pinguela. SFS, dezembro de 2007.
Escrito por Johnny Pinguela às 13h04
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