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O mistério da calcinha
Nivaldo do Estilo, meu mecânico e guru, diz que casamento é como favela colorida. De longe até parece bonitinho. Mas de perto rola bala perdida, esgoto a céu aberto e miséria. Não vou na canela como o Nivaldo, mas também não toco de lado. Casamento é um angu de caroço que pede muita farinha para descer. Vejam, por exemplo, a problemática do fim do mistério da calcinha. A maioria dos casamentos desce a ladeira quando o mistério da calcinha termina. O que é o mistério da calcinha? Montem o seguinte quadro mental: casal casado (ou “amigado”) há tempos resolve sair para a balada. Vão para a noite quebrar a rotina. Voltar no tempo, esquecer as rusgas (e rugas) e tomar umas. O descompromisso é o compromisso. Nisso a mulher sai do closet toda perfumada como jardim, fresquinha como chope novo, lisinha como bola de sinuca, com promissora carreira em banco estatal e desgraçadamente de calcinha fio-dental Sloggi preta tamanho M. Pronto! O mistério foi para a cucuia. Para o marido, ver a mulher de calcinha no primeiro capítulo da noite é como entregar o assassino na página 1. Rosebud é só um trenó. Mas só depois de duas horas de Cidadão Kane descobrimos isso. Até lá quantas emoções, reviravoltas, dramas, paixões. Perder o mistério da calcinha é perder o ímpeto da caça. Já pensou se as gazelas corressem dos leões usando sempre a mesma rota de fuga? A imprevisibilidade da caça, bem como da calcinha, move o predador. Quando o homem mal conhece a mulher, o mistério encanta e aprisiona, como montar o cubo mágico. Será que ela vem de renda? Lisa? Colorida? Cavada? Criminosa? Ou mesmo sem nada? Uma calcinha diz tanto de uma mulher quanto seu diário secreto. Quem não quer ler? Todo homem quer conhecer a gaveta de calcinhas da mulher, uma peça por vez. Tem a quebra de expectativa, a reviravolta, a surpresa de um dia vestir algodão com estampa das Meninas Superpoderosas e no outro uma eloqüente tanga cavada de tigresa. Gazelas têm dia de caça também. E, nessa imprevisibilidade, o leão cai na armadilha. Em busca da elucidação do mistério, o homem se amarra a rendas e sedas. Daí o tempo passa, a bruma avassaladora da rotina desce e o mistério desvanece. Quem tem tesão de montar cubo depois de 200 acertos? Mulheres, manter o mistério da calcinha é tão importante quanto manter a Unimed em dia. E, se você está achando este texto machista, ele também vale para o mistério da cueca. O homem que passa a se vestir apenas com aquelas cuecas cinzentas compradas por dúzia em hipermercados também entrega o ouro ao ladrão. Por fim, se você acha que este texto é apenas sobre calcinhas e cuecas, você não entendeu nada do verdadeiro mistério do casamento feliz, gafanhoto.
Johnny Pinguela
Escrito por Johnny Pinguela às 17h41
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