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O vôo da Mulher-Dragão
Para a mulher que nasce sex symbol não existem muitas escolhas. E para aquela que chega aos 20 sem ser capa de algo é pior ainda. Fazer o quê? Ser caixa do Mercadorama só vai aumentar as filas pelo decote. Operária é desperdício de material. Secretária é ante-sala de divórcio. Médica, arquiteta ou jornalista precisa de muito estudo. Esposa, de muito saco. Pra ser massagista precisa cortar as unhas. Pra ser modelo, cortar comida. Dentista dá acidente. Enfermeira dá pressão alta. Professora, freira, pastora, engolidora de espada dá confusão. Então, o quê? Adriana tentou ser aeromoça. E foi. Fez tudo direitinho e embarcou no Foker 100 de seu sonho. Mas era muito avião pra pouco Foker. Adriana era alta demais para se curvar para executivo careca, tinha peito demais para servir bebidas e, principalmente, muita bunda para trabalhar naquele corredorzinho. Andar, girar, ajoelhar, fechar compartimento de bagagem, travar mesinha era um esforço sem fim para Adriana e para o pescoço da turma. O inferno de Adriana era o show dos passageiros e incômodo da tripulação. O piloto tocava o Foker, mas era Adriana quem comandava as atenções. Uma vez, um piloto meio bêbado lhe disse que “uma aeromoça deve ser aerodinâmica como um Mirage, e não como uma Ferrari”. Era tamanho o carisma da moça que ela foi proibida de fazer aquele mise-en-scène das portas de emergência e das máscaras de ar que caíam. Os passageiros não prestavam atenção, as passageiras beliscavam os maridos e um senhor precisou de oxigênio numa vez em que os cabelos negros de Adriana se soltaram junto com a máscara. A situação já era em si quente, mas Adriana tinha um fogo no rabo. Não um fogo que queimava a olhos vistos, mas sim como uma brasa domada sob o azul escuro do uniforme. Adriana sentia o fogo ardendo, mas continha o incêndio. Desde a adolescência tinha essa vontade de sambar, girar no ar, fazer ginástica, se descontrolar como a moça do Flashdance e incandescer. Em casa, após a escola, Adriana gostava de ouvir Madonna e riscar seus fósforos na frente do espelho. Uma vez comprou o disco Erotika, da Madonna. Tinha brigado com o namoradinho e pela primeira vez virou tocha humana. Enquanto Madonna cantava, Adriana dançava e se perdia. Sem perceber, a dança virou transe. Com movimentos lentos, profundos e sinuosos, Adriana parecia estar sendo atingida por um tipo de raio quente de prazer. Por fim, a música acabou, Adriana saiu dos braços do fogo e se olhou assustada para seu estado. Estava suada e seminua. Foi um aviso do que viria. Mas Adriana não ouviu. Seria aeromoça da Avianca! Conseguiu... Mas vivia ouvindo os passageiros cochichando: - Isso sim que é “avi-anca”. - Muito avião pra minha pista. A vida seguiu de embarques e desembarques, Adriana sempre segurando o sorriso diante das piadinhas, mãos bobas de velhinhos e espertas de fazendeiros. Até que um dia, num vôo noturno para Curitiba, Adriana conheceu aquela que seria sua mentora: Kendrya. Kendrya andava com o crachá de puta no peito siliconado. De uniforme colado, transparências estudadas, saltos e perfumes, Kendrya era honesta em sua postura. Não escondia os atributos, pelo contrário, ostentava como Hebe usa diamantes. Vivia sua profissão. Amava a profissão. Dava aulas se preciso fosse e sacava alunas aplicadas. Kendrya sentiu a fumaça de Adriana e percebeu o potencial do vulcão. Por isso, falou de sua vida, seus shows e seus lucros. Depois jogou o anzol de ouro: - Uma menina como você levava fácil uns R$ 20.000,00 só fazendo strip. - Só fazendo show? - Três vezes por semana e nem precisa aparecer. - Como? - Usa uma máscara tipo Mulher-Gato. - Pode ser da Mulher-Dragão? Nascia ali uma lenda. Quem conheceu a Mulher-Dragão sabe que por mais que eu escreva atributos aqui, será pouco. Com o tempo, Adriana foi virando mais passageira e menos aeromoça, com trabalhos agendados de Ponta Porã a Punta del Este. Fez site, fotos num caminhão de bombeiros, desfilou na Sapucaí no alto de um vulcão e participou do Programa do Leão. Quando conheci sua história, fiquei curioso de saber qual foi o momento real da mudança. Quando realmente o rastilho de pólvora chegou ao paiol? Se foi a grana, os olhares, as juras de amor ou a sensação de poder. Nada! Ela me disse que, após um show agendado por Kendrya, se sentiu mal. Apesar da máscara do anonimato e do dinheiro fácil, ela se sentiu estranha, vendida. Foi uma vez e parou. Porém, com o passar dos dias servindo lanchinho, sentindo dores nos pés, passageiros bêbados e suas mãos bobas, veio uma lembrança do controle que ela teve sobre a platéia e o rastilho de pólvora se acendeu. E correu rápido, com o agravamento da crise da aviação, que colocou Adriana em rotas mais cansativas e horários ridículos. As demissões começaram e, por não se vender para o gerente de RH, Adriana sabia que estava na lista. Pressionada, estressada e “puta da cara”, como me disse, numa madrugada gelada de junho, Adriana acordou às 3h45, vestiu o uniforme, se maquiou e partiu para a noite fria como seu sonho. No caminho para o aeroporto, parou atrás de um caminhão frigorífico e seu olhar perdido bateu na frase do pára-choque: “Quando a vida lhe virar as costas, passe a mão na bunda dela”. Um avião decolando passou por cima de sua cabeça e levou a aeromoça embora. A Mulher-Dragão tinha pista livre para decolar.
Johnny Pinguela
Escrito por Johnny Pinguela às 14h19
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