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A chacina no BBB
Era dia de paredão. Os brothers, arrumadinhos como figurantes de comercial?da C&A, estavam sentados em seu sofá. Na TV de plasma, Pedro “gente fina”?Bial era a personificação do grande irmão que paira acima do pega pra capar?social. De repente, uma explosão abre um rombo na muralha da casa. Pela fresta?entram sombras com camisetas enroladas na cara e fuzis automáticos? disparando. Uma bomba explode na piscina, granada na academia e dá-lhe? azeitona pra galerinha da casa. Uma rajada dilacera o peito malhado de um? brother. A loira é explodida. Outra, cortada na faca, corre respingando? silicone no porcelanato da cozinha. No gazebo, duas futuras playmates são? estupradas e o modelo da G Magazine é degolado. Na maior adrenalina, alguns futuros hóspedes da Ilha de Caras correm para o quarto do confessionário em?busca de salvação. Tudo inútil. Uma bomba incendiária ilumina o? confessionário e chamas reais fazem o grupo arder. Entre gritos de socorro e?o bonde de “Tá tudo dominado, tá tudo dominado”, Pedro Bial ameniza: “É … ?a coisa tá fervendo na casa mais quente do Brasil” e corta para os? comerciais do Fiat Adventure. Já imaginaram? O país livraria a cara de uma ?vez de ver essa cambada que acha que bunda, braço tatuado e barriga de?tanquinho é talento. Do outro lado, ver a casa mais vigiada do Brasil virar? cinzas ao vivo talvez fosse o fundo do poço para quem gosta de ver o circo?pegar fogo. Na manhã seguinte, com a manchete “PCC chacina BBB” em todos os jornais, a? máquina de tragédias podia “reestartar” e começar do zero. Deixar de mostrar? só cratera do metrô de São Paulo e ir atrás do vazamento de responsabilidade?da obra. Mostrar a verdadeira nascente do rio de lama que desce Minas e o de? Brasília para o Brasil esgoto. A Globo, com a experiência do BBB, podia criar um Big Brother Brasília com? câmeras 24 horas em cima dos governantes, cobrando atitudes, falas sérias,?postura realmente honesta, corte nos salaries e cartões, escola no morro, pontes sobr e?o desfiladeiro social que separa os brasileiros. Quando incêndios florestais estão descontrolados, os bombeiros usam o? recurso de lançar fogo contra fogo. Talvez se o PCC fosse contra o BBB, a?cena nacional fosse menos quente. Mas acho que não rola. Vivemos um tempo? em que vale tudo para ficar fora do paredão. Na casa dos BBB, na mesa ao lado,?na rua de cima, nos gabinetes, os comandos brigam pelo domínio de morros,?promoções, cidades, votações. Matar é sobreviver. Eliminar, tramar e fazer? sombra na bunda alheia é se perdurar. Votar pelo fraco enfraquece sua? posição? Manda o preto pro paredão. No verão 2008, ônibus ardem,?rios de lama deságuam em nada, crateras soterram batalhadores , criança sem? cabeça é arrastada pelas ruas, tudo vai meio mal. Só o Pedro Bial segue? sendo um cara legal.
Escrito por Johnny Pinguela às 12h25
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O purê
Comendo um peixe frito na praia, tive uma epifania. Não sei bem o que é uma epifania, mas legal pacas falar que tive uma epifania. Parece que sou alguém melhor que um desempregado que come peixe frito. Mas, adiante com a refeição.O meu peixe frito veio acompanhado por arroz, molho de camarão, salada mista e purê de batatas. Era um bom prato. Leve e saudável. E, entre uma garfada e uns goles de cerveja gelada, a tal epifania me bateu. Preparados? Batatas têm o mais nobre dos fins. Tem batata assada, gratinada, frita sautée, crua, recheada e purê. Entretanto, nenhuma batata, ao nascer, pensa em virar purê. Batatas anseiam por pratos mais nobres. Nadar em azeite português com bacalhau, assar com ervas aromáticas, cozer com legumes bem quistos e acompanhar pratos franceses em jantares badalados. O purê, como as praias do Paraná, é um destino que poucos seguem. E não é para menos. Purê é uma batata que perdeu a forma. Mesmo a batata palito, a mais corintiana das batatas fritas, pode bater no peito e bradar: “Eu ainda sou uma batatinha”. Já o purê o que é? Qual a sua forma, entende? Purê é um acompanhamento, um cara que fica no canto da foto dos pratos do menu. Se o molho de camarão não vem, eu reclamo. Se o purê não vem, eu nem noto. Ninguém vai ao restaurante para comer purê. Além disso, o purê, com sua consistência nula, tem um flexibilidade moral espantosa. Por isso, para quem não tem dentes, o desafio do purê lhe vale como filé. Tanto que faz sucesso nas dietas de recém-nascidos e quase mortos. Batatas fritas têm pontas, cozidas tem cascas, mas o purê, quando muito, tem apenas seu calor inicial, que se vai com um sopro de censura. Sua ambição é se moldar à colher da hora. Até porque já sofreu demais. Se você conhece o passado do purê, você entende sua consistência. Colhida, descascada, cozida, a batata foi prensada por aquele instrumento medieval de torturas até ser transformada em uma massa branca. O purê, em essência, nada mais é do que uma batata moldada pelo sofrimento e pelo medo. Merece o nosso respeito e a minha última e fraterna garfada.Termino meu peixe com epifania. Estava ótimo. O purê se deu bem com o arroz e o camarão e se contrapôs ao sabor espinhoso da carne frita.Saio do ar-condicionado para o calçadão da praia apinhado por pessoas vermelhas queimando o décimo terceiro. Por muito tempo quis ser peixe-espinho, agora estou pensando em mudar.
Johnny Pinguela. Janeiro de 2008. SFC.
Escrito por Johnny Pinguela às 11h13
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