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O rebolado amanteigado
Pelas ruas, ladeiras e escadarias da cidade, noto com pesar que a arte ancestral do rebolado está se perdendo. As boazudas de hoje em dia não estão dando nota para o remelexo. Acho que o crescimento do interesse na barriguinha e no peitão, que por sua vez é moda que vem dos States, coloca o rebolado de lado. Como gringo não dá bola para bunda, pra que rebolar? Ainda mais sendo o rebolado algo que remete a coisa de morro e de mulata e de pobre. E hoje em dia todo mundo quer ter raízes loiras, mesmo que tingidas pela Niasi. Nisso a arte do rebolado vai se perdendo como a das carrancas do Rio São Francisco. Apenas que estas eram feitas para afugentar maus espíritos e o rebolado para atraí-los. As mulheres de hoje acham que basta ter o corpo violão para receber a nota 10. Mas um corpão sem rebolado é como um violão que não toca, não encanta, não embala. Alguns diriam que o rebolado segue firme em grupos baianos e bailes funks. Bah! Aquele requebrado estrebuchado está para o rebolado como o palavrão está para a poesia. O rebolado verdadeiro é insinuação, e não depravação. Mais doce que pimenta. O pecado existe como uma pitada de canela em arroz doce. Isso, para homens, é hipnose. Ondas que batem no cais do amor. A mulher que domina as ondas não anda, navega... flana como saveiro no horizonte. Entretanto, essa mágica está em extinção. Aqui em Curitiba, uma cidade metida a européia, sem morro e sem mulata, o rebolado quase desapareceu das ruas. E mesmo quando existe é ríspido, nervoso, mecânico. Parece com aquelas lixadoras de tacos indo de um lado para outro no salão. Para piorar, as curitibanas fazem uso dos abafadores de bunda. Colocam um moletom sobre o quadril e nas academias vestem um tipo de cinto largo atrás para amordaçar a bunda. As mulheres vestem legging e colocam o abafador em cima. Ora bolas, então que vistam bombachas. Liberdade para a bunda!!!! Rebolado é tão importante para a vida como a manteiga é para o pão. Um rebolado amanteigado dá sabor. Poleniza as flores na imaginação do homem. A construção do prédio sobe mais leve, a aula de matemática fica menos aritmética e a secretária da diretoria comanda o expediente com as cadeiras. Um bom rebolado sob um vestido leve aviva o sol, promove assuntos entre estranhos. No táxi, por exemplo, passageiro e motorista viram compadres a partir da constatação do rebolado da balzaca distraída. Dizem que a serpente seduziu Eva, mas aposto que foi a jibóia enrolada no seu quadril que prendeu Adão. É, amigos, a arte do rebolado amanteigado não pode se perder. Não pode virar coisa de museu ou de pornochanchada. Tem que ser perpetuado em escadarias, repartições e constantemente estudado em botequins. De tão fundamental, deveria ter aula. Quarenta e cinco minutos de power spinning com professor Rubão e 15 minutos de rebolado técnico carioca com a Ana Paula Gimenez. Imagino a cena. Vinte e cinco gatas de shortinho e uma mestra gritando: "Vamos lá! Rebolar! Rebolar! Rebolar! Passando manteiga! Alimentando jibóia". Caso alguma leitora se interesse, mas tenha vergonha do mexe-remexe numa sala de aula, não esquente. Sou personal training e tenho MBA em bunda.
Johnny Pinguela. Carnaval de 2008.
Escrito por Johnny Pinguela às 09h05
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