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Deus é um chantagista?
Outro dia, batendo um lanche no McDonald’s com Chicão, pensei que para meu filho eu sou um tipo de deus pagão. Senhor de todos os sins, nãos, porquês e pagamentos. Meu filho aprendeu a falar comigo, segura na minha mão no cruzamento, assiste ao mundo ao meu lado e sempre fica com a última batata frita. De manhã lhe faço Quik e de noite rezamos. Apesar de todo o amor envolvido na nossa relação, noto que eu tenho usado um recurso pouco louvável: a chantagem. Para ganhar o brinquedo do McLanche Feliz, Francisco tem que antes comer todos os nugets. Para ver TV é preciso recolher os brinquedos pela casa. Para ir à praia de manhã é preciso dormir cedo hoje. Sem querer, os pais vão colocando condicionais para a vida da criança. Educar é como enrolar algodão-doce numa cerca de arame farpado. Para evitar o beliscão, a gente amorosamente vira um chantagista dos filhos e de quebra cria junto uma sociedade meio chantagista. O que é a espada da lei sobre nossas cabeças. O funcionário que não fica até mais tarde não ganha biscoito. O cão que late ganha focinheira até se calar. A chantagem está tão presente nas relações que às vezes penso que o próprio Deus faz uso delas. Vejam a nossa busca pela salvação, por exemplo. Quantas coisas temos que fazer para alcançar o Paraíso. Quantas batatas duras e nugets frios temos que engolir para ganhar as luzes e guizos do brinquedo eterno. Biquíni, birita, baralho são ruas lisas, por isso não podemos passar perto, senão... Deus é pai à moda antiga. Se meu filho não come lanche, eu não o ameaço com chamas e espetos. Já Deus é fogo. O dragão da maldade seria fruto de um pai emputecido com o grafite do filho na caverna? Não sei ao certo. Mas outro dia, ameacei dar os brinquedos de meu filho se ele não os recolhesse da sala. Ele, assustado, recolheu seus tesouros rapidinho e eu, ao contrário de senhor duro, me senti mal por ter me imposto pelo medo. Talvez Deus se sinta assim toda vez que nos ameaça. Afinal, apesar das duras crucificações e eventuais chantagens, Deus é pai. E pai é amor.
Johnny Pinguela. Páscoa de 2008.
Escrito por Johnny Pinguela às 16h28
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O Verdugo do Paraná. Um habitante local, desses com cabelos e idéias aparados pelo Lady e Lord, certamente o terá como um estranho. E não é pra menos. Figura superdimenciona no manequim, nas opiniões e nos textos duros, ele se destaca...ou melhor destoa. Houve um tempo que para ser publicitário tinha que destoar. Afinal, propaganda é como plantar um girassol em canteiro de margaridas. E as ideais do tal, como um bom comercial da USTOP, fazem isso. Se bem com a mão bem mais pesada que a do Fernandinho. Realmente, não agressão não é com ele. Passar a mão em cabeça de criança não é com ele. Ele gosta é de furar o balão de gás do riso bobo vigente. Prefere chutar os saco que chupá-los. Flower Power? Bullshit! Enfim, ele é um cara do "mal". Até porque é carioca de nascença e ,para Curitibano do rancho, carioca sempre será alguém meio do mal. Por ser assim grande e do mal eu lhe dei o alcunha de Verdugo. Lembram? Não, né. Eu sou velho, gosto de gigantes do ringue e tenho ótima memória. Por isso não esqueço do telecatch e de seu vilão maior. Se o Tigre Paraguaio era o galã, ágil, do bem, que dava pirulito para as crianças e beijinho pra moças, Verdugo ( carrasco em espanhol ) era seu oposto. Grande, lento e ruim, esse gigante entrava na arena sobre um intensa vaia e chuva de pipocas. Empurrava crianças, fazia caretas para mulheres e dava um telefone na orelha de um atrevido que na verdade um coadjuvante do circo. Para eu moleque, Verdugo, vestido negro e se locomovendo como uma montanha sombria, era a encarnação da trevas. Precisava ser detido. Mas como parar um trem negro? Verdugo não sentia os sopacos do Aranha Nelson, não se curvava as chaves do Charles “o britador”, não caia com as rasteiras de Ciclone e resistia até as impressionantes tesouras voadoras de El Condor. Ao contrário, era comum ver os heróis queridos como Espanholito voando como para fora do ringue em resposta a uma simples “braçada” do vilão encapusado. Verdugo perdia apenas quando queria. Seu adversário maior era ele mesmo. Seu algoz, o inconformismo. Seu carrasco, a língua. Por isso, chamo meu amigo aqui do Paraná de Verdugo. Um cara grande que só pode ser vencido por si mesmo. E que, no fundo é grande coração tentando se situar num mundo ruim e injusto. Falando nisso, a última vez que ouvi falar do Verdugo da tv foi num programa onde o sangue que jorra não é groselha: Linha Direta da Globo. Aos 80 anos Verdugo foi defender a neta de um namorado violento e levou seis tiros. Seis balas! O assassino covarde descarregou a arma para segurar um octagenário! Pelo menos na morte, Verdugo teve um fim de herói que na realidade era. Johnny Pinguela.
Escrito por Johnny Pinguela às 14h33
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