O pequeno milagre de Páscoa.
Aconteceu um milagre em casa. Bem, não foi na casa mas em uma pequena floreira que tenho debruçada na janela de sala. Uma tripa de terra fértil no concreto da vida. Minha floreira apesar de pequena me dá muito trabalho para poucas flores. Parece com o casamento depois de sete anos. Ano passado o casamento meio que secou. Distância, cansaço, toalha na cama, jardim florido na rua e tédio nos levaram para pontos opostos da cama. Ouve dias que tudo que restava era uma picada de terra batida do que fora uma avenida florida. Nada havia além de compromissos assinados em papéis, fotos de dois jovens e uma criança balançando entre Curitiba e Sp. Talvez pelo menino, talvez por amor, talvez por falta de vontade de buscar outro amor, eu insisti. Melhorei no que podia. Virei um pai melhor, barriga menor, faz tudo e até comprei flores para “levantar o ambiente”. Sempre que passava no supermercado trazia comigo um vaso de alguma coisa bonita para agradar mulher. Mas meu amor, imerso em trabalho e com ganas de riscar fósforo no paiol, estava cega. Quanto mais eu melhorava a casa , mais atormentava o plano final de amor. Nessa sanha louca da trilha do divórcio um vasinho de margaridas passou como um navio bonito em noite de tempestade. De tanto absorver os espinhos do ambiente, as margaridinhas secaram em poucos dias. Ficou apenas um monte de caules secos que mais pareciam estacas de cemitério maldito. Entretanto, duas ou três folinhas, insistiam se vestir de verde e mostrar que o mundo também é feito de esperança. Assim, levei o vaso, que iria para o lixo, para a floreira e passei a regar flores mortas. Na floreira, além dos meus descuidados cuidados, o vasinho tinha como jardineiro o etéreo. O sereno da madrugada, o brilho da lembrança da lua, o ardor do sol de verão, o vento que tudo leva, enfim, um dia após outro. Semanas e meses se passaram e eu segui regando flores mortas. Um dia o verdinho de nada voltou. Fiquei entusiasmado. Tanto que fui mudar o vaso outrora morto de lugar e descobri o primeiro indicio do milagre. Grandes jardins são feitos de pequenos milagres e as raízes das flores do vasinho haviam atravessado o furos de escoar água e enraizaram no solo mais adubado da floreira. Assim, o vaso passou a ser parte da casa e de mim. Quase que na mesma época que meu amor voltava para o natal e o vaso dizia para quem tinha olhos “seu lugar é aqui”. Mais algumas semanas passaram e o vaso ficou repleto de folhas verdes. Uma verdadeira Amazônia de pote. Mas nadica ainda de flores. Numa mostra de sabedoria e timing, o vaso deixou o milagre da ressurreição agora para a páscoa. Enquanto escrevo esse texto, os primeiros botões começam a abrir após seis meses de hibernação. A família está reunida, a casa perfumada, a cama, novamente, apertada. Meu amor está de volta e um clima de lua-de-mel revival tomou contar do caminho. Viver é uma estrada. Nas retas se assobia e ama, nas curvas se tira o pé e nos túneis, se rega flores mortas.
Uma Páscoa cheia de flores a todos.
Johnny Pinguela. Páscoa 2008.
Escrito por Johnny Pinguela às 18h20
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