| |
A vaca premiada.
Eu não paro de me surpreender com a beleza das mulheres. Outro dia mesmo, saí de manhazinha para comprar leite para meu filho e pão para minha docê esposa. Ia contente pelo caminho. Mente leve como os passarinhos que rodavam os postes de luz. Nisso, a moça que não sei o nome cruzou meu viver. Não sei muito da moça que não sei o nome. Sei que vive no prédio que vira a minha esquina, sei que é bela como uma Ana Paula Gimenez e sei que não é de todo feliz a moça que não sei o nome. Como sei disso? Pelo marido. A moça que não sei não teve sorte no marido. O dela é um agroboy que curte sertanejo e acha que cantada boa é de pneu. Digam o que disserem mas essa combinação nunca dá bons maridos. Mas dá bons carros, vestidos, tinturas douradas, bronzeados artificiais, silicones, lentes, dentes e granola rica em fibras. A moça que não sei o nome é a vaca premiada do marido. Triste e bela moça que não sei o nome. Sempre a vejo linda, sempre bem vestida, sempre bem maquiada ( por fora e por dentro). Sempre! Menos naquela manhã. Surpredetemente, naquela manhã de outono a moça vestia um singelo vestidinho leve e calçava nos pés, acostumados a saltos, uma simples sandália Havaiana. Vendo ela assim, desmontada de tudo que uma mulher de agroboy curitibano deve ter, notei que além de calçar chinelo barato, a moça tinha um pezinho na roça. Fugira de seu destino no campo para pastar salada de endivia na cidade. Mas o que mais me chamou atenção era que moça soltava fogo pelas ventas. Aquela não era a mulher docê e simpática das baladas sociais mas um medusa baraqueira de cabelos desgrenhados. Pisava duro em direção a padaria com olhar de mulher de tragédia grega. Será que iria apunhalar alguém com uma baguete? Através de seu vestido leve se notava um corpo denso. Seios grandes e empinados como potranca em duas patas, ancas brutas de DNA cabloco forjado em agachamentos, coxas feitas como toras de pinho do terceiro planalto Paranaense. Era o corpo de uma onça de Umuarama em busca de caça. Ficou claro que a moça-onça que não sei o nome acabara de sair da cama, jogara o vestido sobre o lombo nú e agora no frio da manhã, cuspia fogo pela rua. Sua chegada na padaria apinhada de trabalhadores indo pro batente, foi como se um carro alegórico de carnaval cheio de vedetes vestidas de diaba estacionasse no balcão. A moça que não sei o nome sempre arranca olhares por onde passa. Acho que para ela isso é um prazer vicioso como jogar miolo de pão para os patos do parque Barigui. Mas naquela manha o pão era de pedra. A moca com quadril de jibóia agilmente driblou a mesas amarelas da Skol e os olhares de lobo e ordenou ao Zé como voz de quimera : “dois Mallboro azul de caixinha”.
Pagou com uma nota de cinqüenta reais que amassava por entre dedos de unhas esmaltadas lilás e saiu. Nisso o Zé alertou “moça, o troco”. Ao retornar para apanhar o bolo de notas de dez, olhei no fundo dos olhos verdes avermelhados de raiva e entendi tudo. A moça que não sei o nome não fuma. Bufando a moca pegou o trocado e partiu.
Olhando aquelas ancas de mais de metro indo embora pensei comigo que problema de se comprar um amor é que o prazo de validade é curto como um Mallboro azul.
Comprei o leite, pão e um quindim em forma de sol e fui para casa acordar meu docê amor.
Johnny Pinguela
Escrito por Johnny Pinguela às 14h39
[]
[envie esta mensagem]

|
|
|