Produtos vencidos.
Às vezes, escrevo um texto inteiro para encontrar alguma frase que vale à pena ser lida. Outras, é a frase que faz o texto ser escrito. Assim foi quando, chegando em casa, cheio de sacolas do Mercadorama dei de cara com aviso da Cibele, nossa diarista, anotado no verso de um papel de embrulho: “PRODUTOS VENCIDOS”.
Passei batido pelo aviso e fui me aliviar dos alteres de compras. Mas, uma interrogação começou a coçar entre os neurônios.
Pra quem os produtos perderam?
Sim, porque se foram vencidos, ouve quem os derrotasse. Concorda?
Desta forma, curioso como uma fuinha em toca de cobra, lá fui eu me enveredar por túneis dentro de minha cabeça oca. Os tais produtos vencidos eram frascos de molhos italianos, maionese, suco de tomate e um queijo de Minas que, na degelo mensal da geladeira, foram descobertos por Cibele como derrotados.
Vendidos, não levaram sabor a saladas, não fizeram dupla com hamburger, não marcaram o vermelho sangue do Blood Mary, nem compuseram amor perfeito com marmelada cascão. Foram vencidos não por serem fracos, gordurosos ou intragáveis, mas por simplesmente não acontecerem. Não forão o que na verdade são.
Podiam ser produtos bons ou maus, mas dentro do frasco quem podia julgar? Viraram impróprios para consumo humano sem jamais terem sido degustados. E agora tem como destino o azul profundo do saco de lixo.
Pensando nesse destino não posso deixar de matutar o meu. Muitas vezes me guardei dentro de frascos. Por vezes guardei no fundo do freezer meu amor, e ele morreu. Viagens que deixei para depois. Abraços que não dei. Planos de fuga rascunhados numa seda louca e destragados na janela pra a vida.
Outras vezes engoli minha raiva, e ela virou veneno em mim. Também tive azar, gente azeda, inimigos que convidei pra jantar, disabores. Tanta coisa trancada na geladeira que nunca foi posta pra fora no prazo válido.
Ah! Seu meu prazo de validade fosse outro eu faria tanta coisa doida que não fiz. Mas agora rondo os quarenta e bebo devagar como Winston Churchill.
Sabem, Winston, no final da década de trinta, era um produto vencido. Diziam ser chato, brigão, incoveniente, disperso dos acontecimentos, enfim, caduco como uma maionesa fedida. Mas a luta veio e o vencido saiu da geladeira e venceu.
Durante o combate disse que toda a sua vida anterior, todos os seus tropeços e derrotas foram uma preparação para conquistar a vitória sobre o eixo. Se Winston fosse um vencedor nato antes da guerra, seria menos resiliente, mais pomposo, molão e hoje falaríamos alemão. Quem sabe?
O segredo do seu sucesso, afirmou, é manter o entusiasmo entre um fracasso e outro. E assim foi até esmagar o nazismo.
Após a batalha, fez muita coisa, ganhou um Nobel de Literatura e perdeu eleições. Também no final, deixou uma frase que para mim serve como o prazo de validade para quem não tem vocação para maionese nessa vida: " nunca é tarde para ser o que se podia ter sido". Fui.
Johnny Pinguela. Abril 2008.
Escrito por Johnny Pinguela às 12h21
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