| |
Big Brother de polenta
Apesar dos magníficos parques. Apesar das maravilhosas salas de cinema. Apesar dos estádios, dos clubes, dos teatros, dos puteiros e das saunas gays mocadas. O entretenimento favorito do curitiboca é ouvir a mesa do lado. Amigos, não tem pra ninguém! O papo na mesa ao lado é sempre mais emocionante que o clássico da rodada, mas intrigante que a megaprodução de Hollywood e muito mais sadio que andar no parque ou relaxante como trepar escondido. Para o curitiboca de raiz, auscultar vida alheia é terapia. Tira peso da rotina, dá assunto para seu almoço vazio, desculpa a mediocridade e livra a alma de culpa. Saber que o filho do casal ao lado vai mal na escola aprova o seu reprovado. Ouvir o desabafo do empregado infeliz alegra sua infelicidade. Os namorados que se agendam para a viagem dos pais agendam junto a imaginação do invasor, o poeta entusiasmado é o bobão abilolado. Enfim, mergulhar sua polenta fria no caldo quente do outro faz o banquete do polaco faminto. Por todas as mesas, para todos que se dispõem a falar de coisas mais profundas que o pires intelectual vigente, haverá de ter em Curitiba um Big Brother de polenta.
Eu então, que sou bocudo, falo manso como italiano e capricho nos gestos e adjetivos, sou um Pavarotti para esses fãs de óperas bufas. Pode ser em restaurantes, cafés, filas de cinema ou mesmo num sinal fechado, lá estou eu empenhado em encher os ouvidos de um simpatizante com bazófia e, do nada, sinto uma energia, me viro e lá está o Big Brother mastigando sua polentinha e me acompanhando como novela das oito.
Caracas! Se houvesse mulheres bonitas na platéia, tudo bem para o Paliati aqui. Mas para curitiboca mulher bonita é a Barbie Sertaneja da Barra da Tijuca, com cabeça de isopor.
Então, sabem o que eu faço? Não faço cara feia, não diminuo o volume nem paro a história. Pelo contrário, eu conto uma mentira muito melhor. Mais cabeluda, mais vexatória, mais estarrecedora e por isso refrescante para a mediocridade. Amigo, isso sim é que é a vingança do pipoqueiro. Ver as caras e os comentários a boca pequena dos espiões da polenta faz a cidade ser um pouco mais minha.
Dia desses, eu e a mulher que me revisa estávamos discutindo sobre alguma bobagem num café desses abertos para a rua. De repente, eles estavam lá: o casal curitiboca polentão. O cara segurava o menu de cabeça para baixo de tanto interesse no nosso entrevero. Tarimbados, imediatamente começamos nossa ação contra bicão com comentários desconexos e agressões do tipo: "Você parece sua mãe quando diz que é amante do meu primo". Meu senhor, o cara quase começou a fazer notas para publicar na Gazeta do Povo de domingo. Findo o café e não o circo-teatro Pinguela, fomos saindo sobre o escopo de ouvidos atentos e dentro do carro estacionado na frente do café baixamos o nível numa briga bem ensaiada, com gestos de morte e tudo. Os olhos do casal quase saltaram. Aquilo era vida ao vivo quase tão real quanto os efeitos de Guerra nas Estrelas. Por fim, no auge da crise conjugal de araque, abri o vidro e falei maroto para a platéia:
- Pessoal, se vocês querem ver drama de verdade, vão ao teatro.
Sabe o que o cara me respondeu rispidamente?
- Vá cuidar da sua vida!!!
Dá para acreditar? Em Curitiba, quem grita "ladrão" corre o risco de ser taxado de barraqueiro.
Johny Pinguela
Escrito por Johnny Pinguela às 12h20
[]
[envie esta mensagem]

|
|
|