A vida extra light
Homens estão sempre se dividindo. Sempre. Humanidade remete a um. Mas para os homens isso é demais. Tem que dividir um por dois, por cor, por credo e por estrelas no cartão de crédito. Eu não escapo disso. Só sou mais criativo. Divido os homens pelas bicicletas que pedalaram quando meninos. Sabem, quando se tem 13 anos, depois de uma revista escondida embaixo do colchão, nada é mais valioso que uma bicicleta. Aos 13, ter uma boa bicicleta vale mair que MBA, casamento com herdeira, nome na coluna social. No mundo de hoje, dos games, computadores, sexo fora do manual e tudo “made in China”, a bicicleta não é tanto. Mas nos idos da Caloi e da Monark, era. Ainda mais com a explosão do bicicross. De uma hora para outra, as bicicletas tinham quadro reforçado, pneu lameiro e se pareciam com motinhas, só que movidas a x-salada. Quem tinha uma bicicross estava por cima, ainda mais depois de ver a turma do ET fugindo da polícia com bicicletas de guidão em V de vitória.
Por toda a cidade, terrenos baldios viraram pistas onde a molecada levantava vôo sem o poder do ET. As corridas eram uma constante e com o tempo e surpresa notei que, ao contrário de futebol, eu tinha jeito para a coisa. Era magro e minhas pernas tortas sempre foram fortes. Por isso, eu tinha leveza e tração para voar pela pista. Todo dia, após a escola, lá ia eu decolar para longe de minhas limitações. Na sala de aula eu era, quando muito, um menino quieto que tirava notas sete. Já na pista eu voava. Minha bicicleta tinha quadro de aço e eu era forte. Tinha guidão em V e eu me sentia assim. Nas curvas inclinadas, os pneus biscoito me colavam na parede e eu, aranha. Chegava à frente e vencia. O dia valia... a vida prometia. Eu não era um menino no meio da sala. Era um corredor. Mesmo quando perdia, as corridas valiam. Perder era para eu me aprimorar. Se caía, era para me levantar. Assim eu pedalava firme para longe das espinhas, do aparelho nos dentes e mais perto da menina bonita da escola. Cronometrando minhas voltas, eu comprovava meu crescimento na pista. Primeiro eram 45 segundos, depois 43, depois 40, até bater nos 38. Meninos maiores faziam 35. Mas eram maiores. Tinham 15 anos. Eu, pré-adolescente, nos meus 38 cravados, era o maioral.
Um dia a Caloi lançou a Extra Light. Para quem não conheceu esse modelo de bicicleta, eu defino: a Extra Light era como um Porsche num mundo de Fuscas. E custava como tal. Cheia de peças importadas, ter uma Extra Light era sinal de ter pai rico ou pai divorciado com culpa. O que nas outras bicicletas era de aço pesado, na Extra Light era de alumínio reluzente como raio. Os freios eram de competição e a relação de coroa e pinhão não deixava dúvidas de quem comeria poeira. E assim foi. Um dia, como de costume, pedalei até a pista. Como sempre, me superava. Buscava o melhor traçado, o melhor impulso em busca de um segundo a menos no relógio. Nisso surgiu um garoto novo. Vinha com o pai e uma Extra Light azul. O pai começou a cronometrar o filho e ele batia nos inacreditáveis 33 segundos. Logo notei que o pai buscava um adversário para o tempo do filho. Formou-se um grid com garotos de todas as cores e idades, mas reluzia apenas o alumínio azul. Antes de largar, pensei algo como “corridas são corridas”, como dizia Fangio. A largada foi dada pelo pai e a briga deu-se pelo segundo lugar. O garoto pedalava bem, mas o extra desequilibrava. Mais que isso, humilhava. Ao longo daquela tarde, tentei por várias vezes vencer o garoto extra Porsche. Até mesmo bati meu recorde pessoal. Mas o garoto, mais leve e rápido, freava depois e acelerava antes. Ainda mais impulsionado pelo aplauso e pelo orgulho do pai. Meu pai estava correndo atrás de grana e eu não tinha cara para pedir um extra para uma bicicleta de rico. Assim, ao fim da última corrida da tarde, pai e filho me olharam com um desdém de quem não valia mais vencer. Voltei para casa esgotado, pedalando uma bicicleta de chumbo e um sonho mascado como chiclete sem sabor.
Depois daquele dia, as Extra Light se multiplicaram e minha bicicleta voltou a ser só um meio de transporte. Dos meus dez amigos de infância, nenhum teve uma Extra Light e hoje todos correm loucamente atrás do fechamento do mês. Se é coincidência eu não sei. Sou um cara que corre atrás. Pedalo firme e sigo com as pernas fortes, mas, às vezes, sentado no canto de meus pensamentos amargos, eu imagino como seria bom pedalar uma Extra Light para variar.
Johnny Pinguela.
Escrito por Johnny Pinguela às 12h59
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