Um abridor de lata para o Homem de Ferro.
Caique, meu amigo, diz que tenho sangue de Alien. Quando ferido, goteja ácido na forma de frases. Pode ser, sou Alien, estranho, bocudo, mas no íntimo me sinto mais como o Homem de Ferro.
Sabem, desde menino pequeno em Itararé, não tenho feito outra coisa além de construir uma armadura. Uma casca leve para me manter protegido do pai no hospital, salvo do divórcio eminente, me criando sozinho “in vitro”. Armaduras leves são fáceis de carregar, e assim fui crescendo. Mas a vida é esmeril e tem gente com muito maçarico na boca. Eu tinha pernas tortas, aparelho nos dentes e lia poesia. Então, fui me armando e blindando cada vez mais.
Os tais jorros de ácido nasceram perdidos em meio a versos adolescentes. Depois vieram: uma cabeça voadora, língua de fogo, olhar de raio x, ouvido de morcego, um eventual cotovelo de aço inox para beijar boca de vadio. Funcionou. Por algum tempo o esmeril ficou menos abrasivo e eu, sentado no canto da classe. Mas eu cresci e a armadura foi ficando cada vez pesada, fria, isolante.
Um dia acordei, me olhei no espelho e vi que uma armadura nada mais é que uma prisão vagabunda. Estou aqui trancado dentro dela e passo esses bilhetes por baixo da porta para prisioneiros próximos, como você. Sabe, em maior ou menor grau de blindagem, todos estamos presos no lado de dentro de nós mesmos. E até acho que tem que ser assim mesmo, apesar de não ser.
Não ter armaduras nesse mundo duro, é como fazer de caixa de papelão, aquário de peixe dourado. O sentido se perde, o sentido se esvai... o dourado apodrece. No filme do Homem de Ferro, o herói muda seu propósito no mundo após sofrer na prisão e passa a defender invés de só se proteger. O tempo na prisão também me mudou. Troquei a língua de fogo por sentimento, o ácido por suco de laranja, tiro por riso, dor por esperança e a armadura agora é feita de fé.
Hoje é dia de São Jorge, eu estou em sua companhia. Jorge tem uma armadura de herói. Pensam que ela sempre foi assim leve e brilhante. Mas na verdade, eu acho, que o brilho só veio mesmo depois de uma vida de abrasão contra o esmeril.
Salve, Jorge de Ferro.
Johnny Pinguela. Abril, 23. 2008
Escrito por Johnny Pinguela às 15h04
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