À espera do grande golpe
Como eu gosto de filme de assalto inglês! Se tem uma coisa realmente boa na Inglaterra, além da música, são os filmes de assalto. Não sei se tem muito assalto na Inglaterra. Deve ser por isso que os filmes são tão bons. No Brasil é só deixar o carro numa rua ou esticar o olho numa manchete de Brasília e tá lá o assalto. Mas na terra da rainha não. Lá assalto é raro como lady com rebolado de mulata. Acho que os filmes saciam a sede por assaltos do britânico trabalhador. Afinal, nada como um cara endividado ver um banco (esse golpe com sede e CGC) ser sacado com um cartão de crédito de dinamite, né?
Anyway, adoro filme de assalto inglês! Adoro!!! São sempre inteligentes. Os bandidos usam sobretudo, chapéu, têm fleuma e são educados. Amargurados com a vida, com o amor, bolam um plano genial! O banco do lord, a joalheria da rainha ou o tesouro do marajá. E pá e bola. “Piece of cake!” Mas antes de arrombar a caixa forte e fugir para o Brasil, o chefe precisa contratar a quadrilha.
Amigos, não há nada como contratar uma quadrilha para filme de assalto inglês. Pra mim, é como o ET decolando com a bicicleta para a lua cheia. O ápice! O chefe do assalto, fodido de saúde, na condicional e querendo livrar a filha bastarda da zona, sai em busca do, digamos, “dream team” do mal. Onde? Em dois lugares ruins: antros do submundo e no tédio dos subúrbios. O chefe busca a velha turma, velhos talentos, eternos marginais. O chaveiro que vive como porteiro, o muscle man peão de obra, o piloto motorista de madame, o mineiro guspidor de sangue, o scarface gente boa, o príncipe crazy mad a fucker, o veado maître, the demolition man mal casado, o pastor de araque e o samurai sushiman. Todos reunidos em torno da chance da mudar de vida…de personagem.
Sempre espero ansioso pela escolha do time de assalto inglês. São meus irmãos sendo escolhidos para o golpe de suas vidas. “One night, one hit, one live to live”. Deus, como queria ser escolhido para o time de assalto inglês. Sufocava com a máscara de meia todas as mágoas, medos e ia para o grande golpe com todo o meu talento natural na mochila cheia de brocas e dinamite.
Num filme chamado “The big job”, um arrombador nato se explica para o inspetor: “Não tenho culpa de arrombar fechaduras. Deus me fez assim. Mandem ele para a cana”. Tesão de bom! Também não temos culpa de ser assim bandidos. É coisa do nosso cumplice.
Eu, no roteiro de um filme de assalto inglês, fazia qualquer coisa (menos ser dedo-duro). Tanto que, ultimamente, sempre que o telefone toca eu espero que uma voz dura pergunte: “Pinguela, o HSBC do Bacacheri? In ou out? O cofre secreto do Renan Calheiros? Right here, right now. Ou um túnel para outra vida. Hey! Ho! Lets go!”. Pego minha capa cáqui, olho no espelho visto boina negra e vou pôr meu nome nos créditos de um filme de assalto inglês.
Escrito por Johnny Pinguela às 11h39
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