Cama elástica no fundo do poço.
Como eu gosto de filme de volta. Se tem um filme que gosto de ver e rever é filme de volta. O cenário pode variar: Roma antiga, Velho Oeste, Depressão na América, Cadeião de Itaquera, Jerusalém mas a história é sempre a mesma.
Um cara volta.
Mas antes dele voltar tem a parte chata, que ninguém gosta, da ida. Ninguém jamais voltou se não foi. Ë preciso partir para ilha do diabo, ir para a galeras de Roma, ir para lista negra, ir para o desemprego, ir para a tumba. Em filme de volta, ir é como ir para escola da Elite da Tropa. O elevador que desce para o escuro também leva para um tipo de caminho de Santiago.
Lá embaixo não se vê muitas caras legais. Se olha para cima e pegunta-se “porque” e ninguém responde. Graças a Deus, tem alguém. Se você quer ver seu amigo de verdade aparecer basta apagar a luz do mundo. O irmão fosforrece.
Sempre aparece um escravo para divivir um pratinho de feijão, um índio para tratar ferimento e um louco para cavar túnel contigo ou advogado, garçon, traficante que acredita na sua história. É no fogo que se forjam as ligas mais fortes. O Monte Cristo aponta no horizonte.
Mas antes disso vem a parte da provação. Do desespero. Do "deu pra mim". Da resilhência. Teimar em ser o que deveras ter sido e insistir com quem diz “ você já era”. Sem provação a volta não vale porque se volta igual. Volta só vale quando se retorna melhor, mais rico, mais forte, mais zen, mais malvado, melhorado mesmo que seja para aniquilar alguém. Perder ensina. Abra seus olhos quando tudo for embora. Firme o pé e ergue a cabeça quando caminhar por entre ruínas. No fundo do poço tem escondida uma cama elástica .
Daí o filme enfim chega na hora boa da volta. Ah! Como é docê a hora da volta. Quem nunca teve um momento de volta não viveu. Já reparou que nos filme de volta quem ficou na mesma não foi longe. Enquanto o cara vai trabalhar os bíceps no remo de galera, quem fica não muda. Enquanto um vira gladiador,outro vira bajulador. Enquanto um aprende truques apaches, outro vira contador de grana e histórias. Enquanto um vira um tipo Deus, o outro lava a mão. A volta é redenção.
O filme daí chega na grande cena da a troca de olhares entre quem volta e quem ficou. Amigos, quanta coisa me falam aqueles olhares que se cruzam como espadas. São dois opostos, ying e yang, assombração um do outro. Ruim e Ronin. O cara que ficou enriqueceu porque traiu o amigo.O cara que voltou enriqueceu porque foi traído. Se o filme é de Hollywood, quem volta mata que ficou e retoma seu reinado. Se for filme europeu, o cara que volta acende um cigarro e ri um risso de quem sabe algo mais, fez a curva certa na encruzilhada.
Viver é virar esquinas. Quando tudo é reto, você dorme no volante.
Johnny Pinguela. Maio de 2008.
Escrito por Johnny Pinguela às 11h48
[]
[envie esta mensagem]

Lotéricas nunca perdem.
Perdi de novo. Apostei na Megasena acumulada e perdi. Tudo bem, joguei pelo escapismo e ganhei um sonho para sonhar na fila do pão. Ganhar na Megasena é para quem tem esquema, bolão, fé na tal Lei da Atração. Meu segredo sujo é que professo a lei da repulsão. Algo me empurra para baixo, para o erro, para a falência, para o divórcio, para passar merda no pão. Palpito contro meu talento. Desdenhando da bola que corre para o gol a acerto na trave. Aposto contra mim, enfim. E o que ganho com isso? Merda. Quando acerto, erro. Quando erro , sofro. Merda!!! Mas o sofrimento ensina então aprendi que agora quero acertar. Não quero errar. Não quero perder. Não quero desganhar tudo que tenho. Quero escrever certo por linhas certas. Lotéricas nunca perdem porque em cada aposta, cada pagamento, cada saque, ganham algo. Sabem que vão receber mesmo na menor das apostas. Confiam, enfim. Confiança é um músculo. Um exercício diário. Confiar no acerto, confiar no caminho, confiar em Deus. Eu quero seguir assim. Escrever assim. Ser mais que sou. Voltar a sorrir no fim. Na TV, tem um comercial de um gorila que toca bateria. Cansei de correr na selva, urrar, quebrar galho, esmurrar tambores, eu quero tocar bateria. Isso! Eu, teclando letras ,quero ser um gorila gente fina que toca bateria. O que você lê agora é ao mesmo tempo meu obituário e minha certidão de nascimento. Confio a partir de hoje que Deus escreva por minha mão. Minha dor, erros e perdição até aqui foram como tipo uma escola. Assim, como lotéricas abrem suas portas, a escolinha de letras Johnny Pinguela se inaugura hoje.
Johnny Pinguela. 2 de julho de 2008.
Escrito por Johnny Pinguela às 14h37
[]
[envie esta mensagem]

|