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Johnny Pinguela
 


O álcool é são. O cão é a dose

Beber virou um crime hediondo. Por conta da lei de tolerância zero, quem bebe está sendo mais caçado que raposa em campo inglês. Fazem blitz, cercam, dão geral, metem bafômetro na cara e mandam “ sopra ” . E em caso sopro de álcool, o bebum vai tomar a cana mais amarga de todas.

Apesar de tudo, acho certo. Tão certo que de deviam levar o mesmo conceito de tolerância para os corredores de Brasília. Uma autoridade vira um esquina e tá lá a blitz do poligráfo “O senhor senador lesou o povo na última semana?”Ia reduzir a porrada na nossa grana, que mata tanto quanto carro, confere?

Mas, voltando aos vilões da garrafa, ponderem comigo. O problema não é o álcool em si, mas o carro. Reprovam o bebum, mas o problema é o motorista alterado. Um alcoolizado automobilizado atinge a velocidade de até 200 km. Já um bêbado, tropicante, a pé, alcança no máximo 6 km. A essa velocidade, atropelamentos de postes e árvores dão galos na testa que ajudam o cabeçudo a encontrar sua dose moderada. E aqui minha causa. Trancafiem e reprovem o motoristas bêbados e deixem a turma beber em paz.

Outro dia, prenderam um bêbado ao volante e ele deu entrevista coletiva* aceitando sua culpa e sua pena. Estava algemado no banco traseiro da patrulinha, mas era homem mais honesto que se viu nessa terra de habeas-corpus. Na verdade do vinho, o bebum assumia o erro e anuia com pena. “Bebi e vou pagar! Bebi e vou pagar!!! ” . Não tinha capacida de dirigir, mas conduziu seu julgamento melhor que muito promotor vendido. Bravo!

Quantas autoridades de cara limpa teriam tamanha honradez e coragem diante da tranca? Quantos encarariam a imprensa e diriam “desviei a verba, comprei o voto, estuprei a menor, soltei o culpado e agora vou pagar! Vou pagar!!!”. Bêbados são mais supremos que juízes tidos como tal.

Na mesma entrevista, um repórter, cheio de verdade e superioridade abstêmia, afirma não beber e recebe em resposta a mais galhofa das gargalhadas do bebum. Quem bebe sabe bem qual é a graça. O álcool é um lubrificante das dobradiças da alma. Quem nunca bebeu, vive num apartamento de dois quartos com um corredor cheio de portas trancadas. O que tem lá dentro? É segredo, desconjuro. Enfim, quem não encara o alçapão no fundo no copo, não se sabe.

Amigos, o que seria da humanidade se não abríssemos nossas portas? Quantos poemas, livros, cantadas, músicas e mesmo invenções não saíram de dentro de uma garrafa. Quantos gênios frustrados não encontraram a resposta contemporizando com um copo? Beber é salutar. Beber saneia. Beber levanta. Se a cerveja desce chicoteando, é culpa da cabeça endemoniada. Em cabeça santa, a cerveja sempre sobe redondo e te leva para um lugar melhor, supeior. Prova disso é que Jesus Cristo na Santa Ceia não serviu Ki-suco para a rapaziada. O álcool é são. O cão é a dose. Encontrem o ponto de equilíbrio, bebam perto de casa e voltem para casa andando pelas estrelas e soprando cantada para a lua.


johnnypinguela.zip.net

*http://www.youtube.com/watch?v=LnQKNCr3fWE

Escrito por Johnny Pinguela às 10h09
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A cidade perdida

Outro o dia, seu Adevair, o porteiro do prédio, me chamou de lado. Pensei que
lá vinha alguma queixa de barulho e ou cheiro do meu apartamento, mas veio
outra bomba. Seu Adevair é um bom ouvido e excelente pessoa. Então, já ouviu
eu falar de minha paixão maior. Assim, seu Adevair me veio com essa
surpresa no meio do dia:

- O seu Johnny, o senhor não quer isso?

E me apresentou um trambolho estranho que pensei ser um poster. Ao olhar
melhor a oferta notei que se tratava não de um poster, mas de um mapa. Mapa
de cidade. cortada por um rio e com uma ilha no meio do rio e no centro de
tudo. Dai, uma luz acendeu em minha cabeça e iluminou uma coleção de coisas
boas. Seu Adevair me dava o mapa do paraíso. Era Paris

Já me senti pleno andando por aquelas ruas que agoram me eram presenteadas
tão sem porque. Eu era jovem, belo, sábio, rico mesmo não sendo tudo isso.
Olhando aquele emaranhado de história, vida e alegria eu era um tipo um
Wally em busca do que fui. Alguém que se olha no espelho e lembra de onde
fez as tatuagens.

Bulevares que vivi, esquinas que dobrei, livros que tomei emprestado para
sempre, brindes, bobagens, baguetes, suspirros. Tudo apareceu de repente ali
nas mão do porteiro. Na Rue du Temple fui fiel. Em Pigalle, infiel. No
obelistco da praça da república fui leão. Pelo arco de triunfo foi Napoleão.
Numa estação de metro que quero esquecer o diabo quis me vender o mapa do
subterrâo. Na noite do 11 de setembro diante das torres gêmeas de Notre
Dame me associei em um seita tão secreta que não sei qual é.

Agora, tudo está ali no mapa tatuado em mim. As vezes penso que jamais
voltarei andar por Paris. Que perdi o elevador para o alto da torre e o
melhor tempo passou como um Bateau Mouche em noite de neblina. Sabem, minhas
pernas sempre foram gouche mas ultimamente os caminhos andam lisos. Muitos
becos, boeiros e maçanetas girando em falso. Tem horas que pensar em Paris
e como mexer numa coisa morta que deveria estar bem fundo terra. Mas como
tumbas do Père Lachaise , o defunto sobrevive meio por mágia ou acaso.
Quando penso que a perdi, a mágica de Paris me manda o mapa para levar de
volta para casa.

Johnny Pinguela

Escrito por Johnny Pinguela às 11h32
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