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O rio
Um dia você vem andando pelo bosque e passa a ouvir seu barulho e sentir sua umidade. De repente, ele se atravessa à sua frente: o rio. Seu caminho se afoga na margem e recomeça lá do outro lado. Enquanto você estuda a água, o rio passa a correr para dentro de você. Tem correnteza? É fundo? Frio? Eu sou forte? Daí, meio sem ter alternativa, você encara.
Se o rio for raso, você atravessa a passo largo e acha todo passeio refrescante. Se a água bater na cintura, dá até um susto, mas como ainda dá pé, você acredita que dá. E esse é o grande parâmetro de um rio perigoso ou um riacho. O pé. Se ele toca o solo, você ainda está caminhando, enraizado, racional. Mas se a água bate no queixo não.
Rio no queixo é travessia. As roupas pesam e a correnteza, como um dragão dormente no leito, acorda e você passa a cavalgá-lo. Quem já montou uma corrente de rio sabe que ir com ela é o melhor caminho. Lutar, se debater, apenas cansa, o negócio é negociar. Nadar um pouco, boiar um pouco, rezar nos meios. Indo na diagonal, você perde a sua margem oposta original. O dragão de água é quem decide onde, como e se você pode chegar lá.
Em meio à espuma, podem aparecer pedras pontiagudas, como também podem surgir ilhas mágicas. Verdadeiros santuários para se respeitar mas não para descansar. No meio do rio seus braços ardem e o rio vira mar. As margens se distanciam mesmo estando no mesmo lugar. O caminho de volta não mais existe e o de ida parece que não vai acontecer. Você afunda uma vez, duas, três e grita “Jesus”
Daí , meio que vindo de grota funda, vem a lembrança de que estando em um inferno, avance. Um força aflora e os braços reagem. Uma, duas, dez. As braçadas se repetem. Você se lembra para onde está indo e porque bebe da água turva do medo. Isso meio que serve de salva-vidas. Um, duas, cem braças depois, o inesperado acontece. Você sente chão na planta dos pés. A travessia se finda. O homem que sai enxarcado da água é maior que o que entrou.
O rio do sofrimento foi vencido.
Johnny Pinguela, agosto de 2008.
Escrito por Johnny Pinguela às 15h26
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O retrato mais apurado da realidade é um mosaico.
Tudo que você olha interage com o que você pindura na parede de dentro para assim forma o retrato da realidade. Descobri isso vendo a Mallu Magalhões, uma menina de 15 anos que toca folk. A Mallu é uma graça, a pureza em pessoa. Me fez lembrar do tempo que eu era puro e o amor era como um brotinho de feijão crescendo em mim. Sabe quando?
Lá bem longe, nas quinta, sexta e sétimas séries. Quando o desejo, como um copão de Fanta Uva quente, borbulha na gente pela primeira vez. A Mallu de hoje, com suas melodias, deve fazer isso com muitos garotos. Mas, no retrato do ontem, pendurado na parede do hoje, era a Kristy Mcnichol que borbulhava.
Alguém se lembra da Kristy Mcnichol* ? Hoje não, né?! Em 1980, ela fazia sucesso nos seriadinhos de tv, com uma cara de menina que sentava na fila da frente e apaixonava meio fundão.
Kristy me remete as festinhas regadas a guaraná, discoteque e sapato bico fino, ou patins de 8 rodas. Fever night!!! Kristy tinha um pentiadinho de franja viradinha, estilo Pantera teen, que todas as meninas bonitas do mundo pareciam ter. Essa franja, em forma de gancho, me fisgou. Foi aí que eu começei a gostar mais de mulher que de Ultraman. Sabem, eu não quero olhar para trás. Mas tem coisas que eu não consigo ultrapassar. Talvez, um dia, o retrato de Kristy suma. Talvez não... Espero que não. Até porque um dia o que mais teremos para olhar? Pra terminar, lembrei de uma boa: Outro dia, eu o Francisco fomos andar de bike. Eu no pedal e o Xico na cadeirinha. Daí bateu uma sede e acabamos numa lanchonete, onde um grupo de adolescentes, na faixa de 16 e 19, se fazia de gente grande. Nisso, uma menina de uns 16, olhando para Xico, teve um deslize e disse que tinha saudade de andar na cadeirinha com o pai. Um garoto, com um bigodinho ralo, meio que concordou, mas emendou: " Bom mesmo é ter uns quarenta anos e andar com o carro cheio de gatas ". Se eles soubessem. Se soubessem.
Johnny pinguela. agosto de 2008
* http://www.youtube.com/watch?v=oias0fWnroE&feature=related
Escrito por Johnny Pinguela às 11h54
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