“Ah, as garotas do verão de 88”
Começar texto com esse tipo de expressão saudosa é sinal inequívoco de senilidade a caminho. Moçadinha da hora não começa seus textos assim. Ninguém dirá, pelos menos nos próximos dez anos, “ah, como eram belas as moças de 06”. É preciso perder o ponto do ônibus para ver como era boa aquela parada.
Mas, seguindo com o andor, outro dia, Sergio "Dabê", companheiro de estrada, me mandou uma jóia digna de um grande, suculento e saudoso “Ah”. Trata-se do concurso Garota Verão 88 do Chacrinha*. Lá se vão vinte verões e eu não posso deixar de salivar e suspirar “Ah, como eram lindas as mulheres de 88”. A beleza era totalmente outra. E totalmente melhor. Mais autêntica e surpreendente. As moças de 88 eram diferentes entre si. Todas imperfeitas, por isso tão perfeitas.
Hoje existe uma conspiração em curso formatando o que é belo. A beleza, que era artesal, se industrializou. Loiras são cuspidas numa linha de montagem de tintura. Peitos fornados como pão. Bundas forjadas como lataria de carro. Pele pintada no spray. Nariz limado. Dente alvejado. Perfeição perdida.
Na busca do “fashion”, se dilui o “passion”. Gostosas de 88 eram gostosas para gosto de homem. Hoje para ser gostosa tem que passar por crivo de americano burro, de estilista viado, de cirurgião dinheirista e de personal endividado. Já pensou uma mulher jeitosa chegar na academia e o personal tascar “olha, se é tesuda assim desse jeito mesmo, se malhar estraga”. Não rola, né?
Pelo padrão vigente, as garotas de 88 eram gordas. Tipo picanha boa, todas tinham um “blanket” de gordura que dava o sabor. Não tinham abdômen de tanquinho, mas tinham “a pegada”. E aqui uma constatação: se homem gostasse mesmo de músculo duro aparente, panturilha seria capa de Playboy.
Em 88, a bunda boa era trabalhada na subida da ladeira, o peito bom era o que Deus lhe deu e ponto. O bronzeado era do sol. O batom na boca era Bocaloca. Mesmo os biquínis de 88 eram infinitamente melhores, mais cavados, mais safados e mais “biquínis”. Explico meu ponto: biquíni por principio é devasso. Nudez nua é bem menos devassada que um mulher de tanga. Biquíni é como cravo em arroz doce. Um coisica de nada que está ali pra dar tempero. Mas agora, nos tempos do flash, biquíni é mais pra desfilar, mostrar que tem grana, senso estético de compor figurino com chapéu, canga e óculos Dolce & Gabanna. Hoje se veste biquíni para ter grife. Em 88, gostosa era grife.
As garotas do verão 88 bem sabiam. Elas não queriam desfilar, fazer carreira, ser capas de Caras. Eram apenas as gostosas do bairro, da escola, da praia, da firma ou do Relax For Men querendo arrumar 25.000 Cruzados Novos com o Chacrinha. Esse sim, um guerreiro que nunca envelhece. Ao contrário de deste escriba, nesse frio inverno de 2008. Ah, velho palhaço!
johnnypinguela.zip.net. Julho de 2008
* http://www.youtube.com/watch?v=9zzZBasJQfw&feature=related
Escrito por Johnny Pinguela às 14h58
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