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Le caveau
Já escrevi muito sobre mulheres e sua anatomia. Em especial a anatomia de sentar. Mas mulher é como Paris. Tem surpresas e maravilhas em cada rua, praça, covinha e caverna. Se uma bunda redonda e reluzente é como a Ópera de Paris, algumas xanas são como o melhor clube de jazz da Cidade Luz: Le Caveau de La Huchette.
Sabem, Le Caveau de La Huchette não é ponto turístico. Não tem mapa para chegar lá nem fila na porta, nem mesmo japonês com Yashica. Na verdade é o oposto, para poucos, pouquíssimos. Fica numa estreita rua medieval, dessas que escaparam dos avanços dos boulevards. Não passa carro nessa rua, por isso não dá pra ter pressa ao chegar lá. É preciso ter convite, indicação, papo com porteiro. Le Caveau de La Huchette é uma festa para poucos. Mesmo sabendo onde é, você pode passar batido pelo verdadeiro portal dimensional que é a entrada. Cercado por restaurantes gregos, a porta do clube é discreta, mas impõe respeito. Está lá desde que a Cidade Luz só tinha luz de velas e lamparinas. Atemporal, indestrutível, convitão.
Ao entrar, uma surpresa! O visitante só vê uma escada. Não tem nada. Recepção, chapelaria, maître, segurança, nadica. Apenas uma escada para o fundo. Você, entusiasmado e temeroso, desce um degrau por vez. A cada passo, menos barulho da rua e mais calor, vozes, fumaça e, finalmente, JAZZ!!!
Lá no fundo da escada você entende o nome do cafofo. O clube é uma caverna escavada nas entranhas da cidade mais linda do mundo. Um espaço apertado e primal para poucos. Não tem garçom, mas a bebida é boa. O barman que fala todas as línguas distribui charutos tortos. Deus e o diabo estão sempre sentados num canto. Sua cabeça gira e você não é mais você. É o pintor Toulouse-Lautrec, o poeta Mallarmé, um lagarto pensando que é Jim Morrison, o noivo de sorte grande. Vestida de negro, no meio da pista, a moça linda lhe sorri.
Lá fora o WTC desmorona, lá fora os lobos uivam para a lua cheia, lá fora o Rio Sena passa em silêncio funebre, as gárgulas de Notre Dame fazem careta enquanto os sinos badalam no peito. Dentro, viva o jazz!!!
Alta madrugada, você sobe a escada e emerge para o planeta chamado chatice. Na rua, olha a porta pesada e atemporal se fechar e pensa "volto logo". Mas Paris é uma dama. E aquelas portas só voltarão quando quiserem. Se quiserem... Se quiserem.
Johnny Pinguela setembro de 2001
www.caveaudelahuchette.fr
Escrito por Johnny Pinguela às 11h11
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