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O melhor dos dias. O pior dos dias.
É um fenômeno ainda há ser estudado. Mas já repararam como rola umas cagadas em com rescém-casados? Conheci um cara que pegou rubêola na noite de nupcias; outro que teve que operar as costas; outro perdeu avião; Um estraviou malas, noutra esposa antiga aparece, nego broxa na hora H e por assim vai. Acho que é na descompressão da cerimônia, na inveja de alguém ou no azar, o imprevisto abre uma breja e estraga a festa. O fato é que a cagada rola. E no meu casamento não foi diferente. Apenas a minha cagada foi descomunal como godzilla entrando na festa.
Aconteceu no primeiro dia da lua de mel. Eu abri a janela do meu quarto e cidade mais linda do mundo se discortinou diante de meus olhos encantados. Era Paris. Tomei um café de rei num hotel que outrora fora um palácio e eu minha rainha corremos cara o metrô como crianças correm para o carrossel. Para começar nossa giro com classe, fomos até a avenida mais linda do mundo: Champs Elysees . Subindo a avenida, vi tanta coisa bonita. Gente feliz, coisas fascinantes, tanta beleza e história. No meio da subida vi uma estátua do General De Gaulle e lembrei que ele desceu por alí no dia liberação de Paris. Mais acima, o Arco do Triunfo me lembrou que nazistas, por sua vez, haviam marcho vitoriosos por ali. Seguindo no passeio do carrossel, fomos a até a Torre Eiffel. No caminho cruzei com um grupo modelos que pareciam ninfas, Ferraris vistosas e gente elegante. A vida era bela. Nos Jardins do Trocadero fizemos um lanchinho de sanduba com soda limonada, mas a vista fez virar banquete. A torre de ferro subindo aos céus me lembrou as palmas de nossa mão juntas num tipo de prece por um mundo melhor. Ao fim do almoço, me lembrei de um filme velho que mostrava Hitler bem alí onde eu estava agora com meu amor. Hitler não consquistou a torre pois o elevadores haviam sido sabotados. Eu sim! Bigodinho cuzão. Peguei a minha conquista pela mão e cruzamos o Sena, no caminho vi diversos gatos e pensei em mal agouro. No pé da torre tinha uma fila tipo serpente. Mas tudo bem. O espetáculo de ver tantas culturas e povos diferentes lado-a-lado me fez pensar como somos diferentes, e ao mesmo tempo, tão iguais. O que nos difere, nos une. Pensei que Deus prefere a salada de frutas a mixirica engomadinha. Em seguida, subimos todos aos céus.
Lá do alto, nenhuma foto ou filme nos preparava para o espetáculo. Era o céu e eu tinha um anjo ao meu lado. Queria ficar lá para sempre, mas o jardins e monumentos com teto de ouro nos convidavam a mais encantos. Descemos e passeamos pelo Campo de Marte onde Santos Domunt fez história. Na frente da Escola Militar, ainda crivada de balas da segunda guerra, tinha um monumento onde se lia a palavra “paz” grafada em dezenas de linguas. O homen é um menino que caça pardal para depois chorar pelas penas. Adiante fomos ao túmulo de Napoleão, que apesar de ter teto de ouro e colunas de marmore, notei que não tinha nenhuma gaveta pra levar isso embora. Logo atrás, no Hotel dos Invalidos ou vi uniformes negros da SS nazista e pensei que Dark Vader era escoteiro mirim. Por fim, saímos andando ao léu.
No Bolevards des Invalides vi uma igreja semelhante as do Brasil e entrei como se entra em casa de conhecido. A porta estava fechada, mas no momento que fui por a mão na maçaneta, ela se abriu meio por mágica. Um oficial do exército estava saindo e me sorriu como um velho conhecido. Lá dentro, descobri o porque do sorriso. Era a Igreja de São Francisco Xavier! E estava completamente vazia. Na paz, rezei pedindo isso para minha família e pensei em dar nome de Francisco ao meu filho. Na saída, o milagre da porta que se abre junto com sorriso se repetiu para uma madame francesa com o semblante preocupado que desta vez recebeu meu calor franciscano. Cansados como peregrinos de Santiago, pegamos e o metrô e notei de canto de olho alguma aglomeração diante de televisores. Achei que era perda de tempo pois não havia programa melhor que assistir Paris. Já no hotel, tiramos um cochilo, pois a noite prometia. Mal sabia eu, mal sabia eu.
Ao acordar, ainda no fuso horário do Brasil, eu não sabia que horas eram e nem onde estava. Na tv, gente pulava de um edifìcio, pessoas corriam como fantasmas empoirados, aviões atropelavam prédios e duas torres desfaleciam. Eu que havia passado o dia todo vendo maravilhas agora assistia uma delas no avesso. O gênio do homem é bipolar.
Sem saber o que fazer, chorei. Sem saber onde ir, abracei minha esposa. O mundo parecia ruir com aquelas torres. Dai, pensei em noutras duas, e resolvi ir até Notre Dame. Era madrugada e Paris parecia abandonada. Andando por aquelas vielas medievais pensei em quanto sangue e dor já havia escoado por seus boeiros. Quase chegando a igreja pensei que muita gente estaria lá buscando refugio naquela noite de pavor e espanto. Haveria gente de todos povos e fé rezando pelos mortos e no porvir. Mas chegando, lá não havia ninguém. Nada! Ficamos eu Ivana, diante daquelas torres eternas, como dois vaga-lumes de fé. Na escuridão daquela noite penseu em tanta coisa aqueles santos com espadas na mão não haviam defendido e os gargulas espantado. Haveria muito trabalho pela frente com certeza. Rezamos muito e quase no final, um homem sozinho chegou a praça e também rezou ao nosso lado. De repente, senti que Deus gostava muito de mim. Que nunca havia me deixado só e que me protegia. Tanto que no dia mais horripilante para a humanidade, Deus havia me poupado. Como um pai distrái o filho na dor da perda da mãe, ele havia me mostrado a beleza de Paris*.
Voltamos ao hotel em transe. Antes de deitar a televisão mostrou que um esquadrilha de Mirage 2000 chamada Anjos Dourados iria sobrevoar Paris a noite inteira para evitar qualquer maldade. A cidade luz jamais se apagaria. Com amor ao meu lado, fé em Deus e anjos dourados sobre minha cabeça dormi bem e sonhei com mapas e tesouros.
Esse foi meu 11 de setembro de 2001. O melhor dia de minha vida. A cagada que rolou no meu casamento também rolou pra toda a humanidade.
Passados sete anos, quando a insensatez ataca meu casamento, o desemprego ameaça desmoronar minha casa e o terror anda solta por todas as ruas, eu lembro da noite diante de Notre Dame, durmo tranquilo e sonho com mapa e tesouros.
Johnny Pinguela. 11 de setembro de 2008.
*Mais tarde descobri que exatamente no momento que o WTC desmoronava eu estava no alto do Torre Eiffel.
Escrito por Johnny Pinguela às 19h26
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