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Johnny Pinguela
 


 

O arco.


Se tem uma arma que acho realmente legal é o arco. Não sei a origem de encanto pelo arco. Talvez por ser ele coisa de selvagem lutando contra a cavalaria, o BOPE do velho oeste. Mas, pesando melhor, eu gostava do arco antes mesmo de assistir Sessão da Tarde. Tanto que adorava fazer meu arcos com barbante de embrulho e uma varinha especial. Não podia ser uma varinha qualquer. Para a flecha ir longe o arco tem vergar bem. Se não verga, o arco não tem força. Só esforço de ir até o ponto de fratura e se segurar, produz a tensão necessária para ser uma arma.


Para tanto, uma vara requer três qualidades. A primeira é a supracitada flexibilidade. As varas duras e inflexíveis não servem para arcos mas para cabos de vassoura varrendo as migalhas do mundo ou, pior, cassetete em cabeça alheia.

A segunda é a resilhência. Vergar sem perder a consciência da forma original. Se dobrar pela luta de atirar a flecha porém sem perder de mira a origem reta. Sem a visão da sua essência, a vara acaba cheirando o próprio rabo e vira bambolê na mão de alguém.

A terceira, e mais importante, é a coragem. A determinação de ser vergar até o limite das forças. E aqui surge o desafio maior do arco. Ser flecha é moleza. Basta voar retinho que a cabeça dura e pontuda crava no alvo. Flechas podem voam alto mas quando perdem o impulso viram espetinho de churrasco da firma. Já para ser arco deve-se ir além e desafiar limites. Buscar fé, rilhar dentes, enquanto ouve estalos medonhos dentro de si. No peso da mão dura, a arco se descobre, ou melhor se encontra. A cada estalo ultrapassado o arco vira mais arma e menos vara.


Ando meio curvado por esses tempos. A cavalaria tem me perseguido e só não me pegaram porque tenho sido guiado pelas estrelas e me alimentado de escorpião. 'As vezes parece que ouço o grande “ crack” em mim. Outras penso em me entregar e virar vasoura, bambolê, espetinho, brassinha em fogueira baixa. Porém, nas noites escuras sonho em ir além te e atirar uma flecha para as estrelas. Daquelas que levam uma cordinha amarrada. Por ela talvez eu escape ou um índio desça para me guiar. Assim eu rezo, assim sigo. Entre cavalos, flechas, uivos e a lua. Minha igreja eu construo dentro de mim. Índios mortos, assim como arcos quebrados, não tem lugar no fim dessa história.

Outubro de 2008



Escrito por Johnny Pinguela às 19h18
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Filme de circo


Eu não entendo os filmes de circo. Desde Dumbo até Mazzaropi, todos os filmes de circo que vejo são tristes. Pense em um filme de circo que você assistiu e você necessariamente estará lembrando de um história de sofrimento e dor.

Sempre tem um trapezista que cai, uma fera que foge, um filhote que se perde, um guspidora de fogo que engasga, atirador de faca vesgo. E , claro, tem sempre o homem triste debaixo da máscara do palhaço. Quem não lembra de um filme do Jerry Lewis que ele só consegue fazer um garotinha paraplégica sorrir depois dele chorar? Nos filmes de circo com grande palhaço Didi Mocó, no final ele sempre perde a mocinha para o filho bonito do fazendeiro. Nos filmes de circo nunca tudo acaba bem porque eles ainda não tem destino final. No filmes de monstro espacial, o monstro sempre morre. Nos filmes de circo ele se muda para próxima cidade. Filme de circo é hardcore. O estranho disso é que o circo é um lugar alegre, as moças ter pernas bonitas, os animais fazem truques espetaculares, os homens tem coragem e tambores no final sempre rufam “tchan-tchan” . Por que será que circo no cinema é triste? Acho que queremos saber que por trás daquela vida espetacular tem uma existência de dor e incerteza. No cinema a lona rota do cirquinho tem que pegar fogo para a gente não se esconder lá. Temos que ver o lado ruim para não ir embora para o lado bom. Mas o mais triste de tudo isso é que projetamos esses filmes triste de circo dentro de nós mesmos. Nos filmes que passamos dentro de nós mesmos o cara do arame sempre escorrega e o leão nunca pula pelo aro de fogo. Outro dia encontrei com amigo Jardim no bar. Tinhámos vários assuntos para tratar: mulheres, futebol, livros. Mas tratamos de projetar nossos filmes de circo. Como fomos destratados, traídos e espezinhados e empregos anteriores. Erámos como se arranhacemos ferimentos cicatrizados até hemorragia rertornar. Dois ex-presos políticos trocando figurinhas de torturas e torturadores não fariam melhor. Por fim, a tarde havia passado, as moças bonitas haviam passado sem a devida referência, a cerveja tinha descido mais amarga e nenhum um único torturador havia sido prezo ou pedido perdão. Projetando o filme de dor, apenas a reavivamos. Bruta besteira!!!!Sábias as palavras do Charles Lampião que na contra mão de todo oculista afirma que “ a realidade nada mais é que a luz de dentro projetada do lado de fora”.


Por isso, meus leitores amigos, mesmo que a bolsa de NY quebre, o trapézio não venha, a corda seja rota, o leão bipolar e a platéia vazia, devemos, como o sábio palhaço, passar a maquiagem colorida antes de encarar o picadeiro da vida.


Johnny Pinguela.



Escrito por Johnny Pinguela às 14h26
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