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Johnny Pinguela
 


 

O retrato da crise.


Renovei a carteira de motorista. Para tanto, tive que ir a uma enorme e antiga repartição pública, pegar senhas, seguir filas, pagar taxas e tirar um retrato novo. O antigo me olhava a tanto tempo que nem mais reconhecia aquele rapaz solitário e um tanto triste enquadrado em 3 x4.Assim, na hora do “clic”, pensei no meu amor, no meu filho e abri o sorriso numa forma comprovada e reconhecidade de simpatia.


Porém, em resposta a minha inflada alegria, uma voz amarga por trás dá máquina, avisou . “Não pode sorrir!”. Como? Não pode sorrir na foto carteira de motorista? Por que? Será regra ? Ou era a simples raiva da dona da voz em ver gente sorrindo no seu monitor? Assim, com essas interrogações na cabeça, tirei o sorriso da cara e máquina registrou meu desencanto. Agora, onde podia ter um gota de alegria, tenho um retrato feio. Eventualmente, terei que mostrar esse cara triste para algum guarda e ,certamente, ele não terá boa impressão do motorista. Podia eu explicar do sorriso proibido e de minha boa indole. Mas o dano do retrato de cara amarrada vai prevalecer. Tudo culpa da voz amarga por trás da máquina. Se não sorrir na foto fosse uma lei, ela podia fechar os olhas como tantos funcionários públicos fazem para coisas bem mais feias que um sorriso aberto. Se fosse implicancia ou amargor da voz, ela podia olhar para sua vida por outro ângulo e rever seu papel no mundo. Podia achar que seu trabalho é deixar o mundo mais bonito, um sorriso por vez. Assim, sempre que as pessoas, olhassem para suas fotos, iriam lembrar do dia que uma voz docê lhes pediu para mostrar seu lado melhor. Como alegria é um bumerangue, a voz teria mais motivos para sorrir. Mas não. O retrato feio prevaleceu.



Isso me leva ao retrato da crise. Há uns dez dias, os jornais só falam da crise nas bolsas e suas consequências para a economia mundial. Todos os retratos da crise são feios. Não há quem diga que as notícias de Apocalipse são precipitadas, que o pânico é passageiro, que Deus é pai, que vem ai o verão, e nossa escola pode brilhar na avenida. Não! Tudo é feio no retrato da crise.

Trancada em sua casa, minha mãe luta contra a crise. Não das bolsas, mas com a perda da capacidade de discernir o que é realidade do que que delírio. Há quatro anos, minha mãe enfrenta o Mal de Alzahimer. Mas a três semanas está em crise. Sente medo, vê gente que não existe, lembra de sustos antigos como se fossem atuais e se desespera. Eu rezo por minha mãe, levo ao médicos, a Igreja do Perpétuo Socorro e todos juntos, santos doutores e parentes, tentamos acalma-lá. Graças ao bom Deus , tem funcionado. Há cada dia minha mãe está melhor, mais calma, mas salva da crise. Hoje, entre seus fantasmas, reconheceu meu rosto e abriu o seu lindo sorriso de mãe. Eu, mesmo que chorando, retribui.


Retrato da crise vocês me perguntam? O sorriso da minha mãe para mim hoje é o que vale. O restante é gente azeda, que perdeu dinheiro fácil , achando que perdeu tudo.


Johnny Pinguela. 14 de outubro de 2008.




Escrito por Johnny Pinguela às 15h28
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Profissão: poeta



Que mundo seria se poetas pagassem suas contas, seus planos de previdência, seus lares. Mas poetas mal pagam suas tintas, trepadas e bebedeiras.


Poesia é coisa de tolo. Imagine gente de futuro gastando tinta com poesia. Imagine financistas fazendo MBA de poesia. Imagine Você S/A com Manuel Bandeira na capa. Imagine se Bill Gates gastasse segundos do seu precioso tempo com poesia. Já imaginou o Windons um poema? Um poema magistral. Que tocasse os corações da humanidade como um todo. Já pensou? Windons abrindo janelas para a alma da humanidade? Tocando chineses, franceses, americanos, pretos e brancos, nazis e judeus e fazendo-os se sentirem parte de algo mais tangível que uma world wide web. Seria um mundo melhor? Quero pensar que sim, mas é tolice. Poesia devia ser escrita em papelão, porque assim dava para vender pelo menos para o garrafeiro.


Escrever versos é passatempo de quem perdeu o trem. Eu perdi. E agora me agarro à poesia como uma recepcionista segura o resumo dos últimos capítulos de sua novela.


Será poesia um tipo de xilocaína que amortece o nervo enquanto os dentes se vão? Será um tipo de prece de condenados?


Vivo de favor num apartamento morto. Conto causos. Faço hora na fila do abismo. Escrevo desespero. E amo poetas pobres. Conheci apenas um poeta rico na vida. Era um fantasma* do cemitério Père Lachaise, em Paris.


Esperava que ele me desse uma dica de cocheira. Um verso mágico no ouvido. Um piscar de Rei Lagarto. Mas nada, olhei para ele... ele olhou de lado... deixei meu cartão... e fui. Quem sabe, ele me liga e oferece uma vaga no céu dos poetas.


 


Johny Pinguela

*http://www.youtube.com/watch?v=LTFymzPySIA&feature=related



Escrito por Johnny Pinguela às 10h00
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Lugar de poeta é na rua.


O professor Oswaldo Martins Teixeira foi demitido da Escola Parque, no Rio de Janeiro, por escrever poesia de cunho erótico. Vejam vocês, meus amigos, a que ponto chegamos. Um professor que devia ajudar nossos filhos a passar no vestibular, arrumar emprego, ser aprovado em concurso público perdendo tempo com versinhos. Absurdo!

Pagamos um dinheirão para nossos filhos aprenderem sobre equações diferenciais, tomada de Constantinopla e caminhos para crescimento sustentável da economia americana e o mestre  perde tempo com rimas e figurações. Absurdo!

Se ao menos fosse poesia daquelas antigas, que caem em vestibular ou pega bem recitar em discursos de promoção na empresa, vá la. Mas não. O professor poeta gastava toner, tempo e tutano (em ordem de importância) com poesia erótica. Ora, ora qualquer pessoa moderna de mente aberta, qualquer criança de 14 anos, sabe que para se ter contato com o tal erotismo basta ligar a tv, clicar mouse ou passar na banca da esquina. Tá tudo lá na capa da revista !!! Arregaçado, devassado, explicitado como menu de churrascaria. O que me leva a pensar que esse mestre além de tolo é defasado. Qual a vantagem de por em letras miúdas o que se vê a cores na HDTV? Esse professor despreparado, tem mesmo que ir pra rua que é lugar de gente desqualificada para o momento atual. Poesia era coisa de Machado de Assis e daquele caolho lusitano que temos que decorar para passar de ano. Poesia morreu com Quintana, Drumond, Leminsky, Chikabon . Foi-se como a vitrola, o bonde, o mar azul de Copacabana e o vermute Capeta. Esses são tempos de gente de visão de águia para oportunidades, nichos de mercado, restituíções do IRPF 09. Isso! Se tivesse o mestre o bom senso de escrever sobre restituição de impostos, redução de perdas na bolsa e de como recorrer de multas do Detran, os pais teriam nele um homem de confiança. Um aliado no formação de filhos de valores positivo. Mas não! O ”mestre” restituiu tudo de bom que o mundo lhe deu com poesia. Tsk!!! Agora que vá para a rua que é lugar de quem olha vôo de passarinhos e riso de crianças. Vá confabular com velhos , rir com bêbados e se entender com loucos. Tomar sorvete, tirar a camisa e ministrar sobre soltar pipa em brisa leve. Ou não, eroticamente como lhe apetece, vá escrever sobre belezas além da capa, de cabelos ao vento , olhos na cor de mel e uivos para a janela do amor malogrado. Esse mundo é bala,... um é trem bala. Dos financistas de NY a mulher fruta da capa da revista todos sabem. Menos esses taís poetas que insistem em olhar para outro lado quando noticiário econômico esquenta e a atriz da novela das oito ferve.


Johnny Pinguela. Outubro de 2008.



Escrito por Johnny Pinguela às 13h27
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