A revista Where Curitiba
de novembro sai com uma
crônica de minha autoria.
Escrito por Johnny Pinguela às 17h23
[]
[envie esta mensagem]

O porcaria.
O porco é um animal sofrido. No banquete pela vida, sua reputação o precede. Seu cheiro o introduz. Sua aparência o incrimina. Seus modos à mesa o condenam. O porco é uma porcaria? Acho que não. Acho que o porco é um bicho que não tá nem aí para as convenções. O porco é incompreendido. No fundão da faculdade, conheci um porco fita azul: Feijoada.
Feijoada vivia barbudo, descabelado, mal vestido, mal educado. O cara tinha um apetite pelo pior. Vivia no pior bairro, andava com as piores companhias, tinha a pior atitude com professores e horários, tomava as piores bebidas, chafurnava nas idéias mais loucas e transgressoras. Depois arrotava e limpava a boca no pulôver do mauricinho na fila da frente.
Diziam que o Feijoada era louco, drogado, alienado mental, mas era um marketing porco. Adorava o cara! Num mundo de cópias xerox, o Feijoada era um autêntico gauche com firma reconhecida. Sempre sujo, nunca descartável.
Uma vez perguntei por que adotou o visual porco. Ele, bebendo e babando um copo de vinho Sangue de Boi, me esclareceu a doutrina suína:
- Pinguela, um porco vive como quer. Ao contrário dos outros animais, porco não é domado. Não precisa seguir pastor. Como não dão muito valor ao porco, não é ordenhado, não é tosqueado nem é depenado.
- Porco vira feijoada!
- Mas mesmo assim segue dando seus peidos e arrotos.
Seguimos rindo e bebendo por vários bimestres. Um belo dia, surpresa! Estarrecimento geral na classe! Feijoada tinha tomado banho! E mais! Feito a barba, cortado a cabeleira, revelando que por trás do look Rasputin off-road tinha um olhar singelo de menino sonhador. O Feijoada mudou tanto que parecia mais risoto de trufas.
A razão para tamanha transformação, todos sabiam, atendia pelo nome de Erika. Moça vivaz, Erika sentava lá na frente mas visitava regularmente o zoológico que era o fundão. Tanto que foi aceita pelo pior de todos. Indo além da barba, da caspa, dos arrotos e comentários vomitados, a jovem bonita e limpa começou a conhecer a vida do porco. Imagino que ela sentia-se como Diane Fossey pesquisando os gorilas da montanha. Todo dia um passo dentro da montanha mal cheirosa, todo dia vendo mais poesia e menos porqueira naquele bicho, até que um dia o porco lhe deu um olhar cálido e grunhiu "amor". Foi a véspera do banho, do barbeiro e o início do fim.
Apaixonado, Feijoada usou toda a sua fúria gauche e cultura para tentar conquistar a espantada Erika. Escrevia cartas longuíssimas com juras infinitas, poemas intensos, enviava flores estranhas, até presenteou com discos do João Gilberto. E a moça só querendo ouvir o Kid Abelha. Para a desbravadora mas superficial Erika, era como se a montanha proibida dos arrotos virasse um saco de versos herméticos ao som de "Desafinado". No final, o Feijoada voltou a ser o que sempre foi para a turma da frente: uma aberração. Descartado, Feijoada voltou ao visual selvagem, agora menos Urtigão e mais Unabomber. E com o tempo acabou largando a verdadeira porcaria: a faculdade.
Anos depois, numa noite fria, cruzei o Feijoda no Café Piu-Piu, no Bexiga. Tinha tomado todas e, curvado, escrevia na toalha de papel. Trocamos algumas palavras, mas notei que ele queria voltar ao Lusíadas de cana.
Mais tarde, percebi que o Feijoada havia ido e deixado a toalha coberta de garranchos. Não resisti. Se a letra de um bêbado não é boa, imagine a de um porco bêbado. No meio de um longo devaneio desestruturado, riscos e rabiscos, eu pincei isso:
"Sem o toque não há arranhão.
Por eu não ter você, nunca vou te perder.
Por você ser sempre uma caixa de música na vitrine, nunca vou parar de dar volta no quarteirão".
Matei o último trago e caí na madrugada gelada pensando que o pior de ser porco é querer tomar banho e ninguém deixar.
Johnny Pinguela. novembro de 2008
Escrito por Johnny Pinguela às 17h21
[]
[envie esta mensagem]

A volta de Rivelino.
Todo vez que passo na Padaria Verdes Mares, Nina me olha nos olhos. Se fosse ela uma gatinha, podia até dar caldo. Mas não. Nina é um cão perdido.Tipo aqueles Terreir fofinhos de apartamento. Um dia se perdeu no frenesi das ruas e nos seu cheiros vadios, e agora sua dona cola Xerox pelo bairro. Nina é a Madeleine Macquain de alguém. Sua placa de procura-se está colada há tanto tempo ao lado de propaganda de cigarro que eu nem vejo. Ontem, porém, ouvi na fila do caixa: “Essa Nina... pode esquecer”. “Com certeza virou sabão” respondeu um desses tipos que concorda com qualquer coisa pra não dar problema. Entretanto, eu que sou sempre do contra, concordei com o tal em cima do muro. O retrato amarelado e o Durex descascado mostram mesmo que Nina está mais para sabão que cão. Porém, para dar uma chance a Nina, contei a saga do cachorro de minha tia corinthiana.
Rivelino era seu nome. Cachorro de cidade do interior, criado solto, sem coleiras e trancas, Rivelino era um pequinês metido a vira-latas. Preto e felpudo, como o bigode do craque que lhe deu nome, Rivelino era amistoso e querido por todos em Itararé ( até mesmo os Palmeirenses). E todos sabiam que, apesar de parecer cão perdido, Rivelino tinha dona, lar e time do coração. Riva era como um marido galinha, ciscava por todo lugar mas a noite jantava em casa. E assim vivia Rivelino na modorenta Itararé. Até que no Carvanal de 1987, Rivelino sumiu como a carne com preço congelado do Sarney. Minha tinha entrou em desespero. Correu a cidade, fez Xerox, fez novena, falou no rádio e nada de Rivelino voltar. Teria o galinha achado um franguinha mais nova e partido? Desalmado, como o craque em 1976, trocara a Fiel pelo Fluminense? Atropelamento? Maldade de algum Santista? Nada! Ninguém sabia a resposta e o destino de Rivelino em Itararé.
Os meses foram passando e o rasgo no peito de minha tia viúva foi cicatrizando ou, pelo menos, maquiado. Passou a perda do Outono e depois o frio do Inverno. Depois, veio a renovação da primavera e Rivelino só era visto em fotos antigas de minha tia. Até que em um 12 de Outubro, Dia da Aparecida, Rivelino latindo e pulando como um vulcão de alegria explodiu na cara de minha tia. Foram gritos, lambidas, lágrimas e graça intermináveis. Como um milagre, Rivelino, o desaparecido, o morto, o esquecido e agora, o renascido retornava para dar vida a minha tia.
Passado a festa restou a pergunta. Onde esteve Rivelino por oito meses? As investigações e conjecturas tomaram conta da pequena população. Das rodas de bares aos saídas de missa todos estudavam o caso de Rivelino. Até que um Sherlock Holmes caipira falou “é elementarrrrr dona Nelcy, durante o carnaval, alguém de fora achou o cachorro bonito e levou embora. Depois, no feriado da Santa, voltou para visitar a parentada, e danado do cão escapou”. Todos concordaram que essa era a resposta do mistério. Até porque Rivelino agora vestia uma coleira onde se lia “James Brown”. Nome de cachorro de cidade grande.
A história de Rivelino calou fundo na turma da padaria e deu esperança na volta de Nina e de outros perdidos. Sabem, eu mesmo andei desaparecido por uns tempos. Desempregado, fora de casa, longe dos amigos e do bom caminho, andei por ruas estranhas, bebi, chorei, pedi perdão. Na morte re-encontrei a vida. Sabem, tem que se perder para achar um novo caminho. E, como no milagre de Rivelino , aqui estou. Melhor, mais forte, mais certo de meu lugar e de minha escrita.
Quem tem fé nunca está de todo perdido. *
Johnny Pinguela.
*Obs: Dias depois, Nina foi encontrada e o Timão acaba de voltar para seu lugar na primeirão divisão.
http://www.youtube.com/watch?v=ijnZTPP38YM
Escrito por Johnny Pinguela às 13h08
[]
[envie esta mensagem]

|