Clarice Cadillac
Formei teoria. É polêmica e vai causar alvoroço no meio intelectual e no meio da borracharia. O fato é o seguinte: mulher, basicamente, tem dois tipos de bunda. Pode haver variações de forma, no tamanho, na cor, no suingue. Mas, em essência, tem apenas dois tipos de expressão nadegal: a bunda sem cérebro e a bunda com cérebro. E o que distingue uma da outra é o raciocínio ou a falta dele. Quando a bunda não tem cérebro, ela comanda. Quando tem cérebro, demanda.
Como na corrida do coelho e da tartaruga, a bunda sem cérebro ganha logo destaque. Salta na frente, ginga, rebola, gira no poste. Se você vê uma bunda superexposta, muito provavelmente ela não tem cérebro. A bunda sem cérebro faz de tudo, tenta tudo, tanto que muitas delas acabam se perdendo. E, pior, caindo no formato e, pior, no anonimato. Nisso, a bunda com cérebro cresce e se agiganta. O tempo é um machado e as mulheres, lenhadas. Mas para bunda com cérebro, não. Bunda com cérebro não cai, assenta como pirâmide antiga. O que era uma mera perinha gostosa ao olhar, com o tempo, vira licor de pêra e anis que embriaga a alma de quem tomar.
Vejam os exemplos de Rita Cadillac e Clarice Lispector. Nunca vi a bunda de Clarice, mas pelos seus textos, olhar profundo, distância, magia e origem ucraniana, com certeza a escritora, debaixo da saia comportada, tem uma grande, sabida e atormentada bunda. Seu rebolado se nota pelo gingar da pena no palco branco do papel. Já a bunda grande e suculenta de Rita Cadillac eu vejo desde A Buzina do Chacrinha. “Uma pantera para Rita Cadillac”, alardeava o Velho Guerreiro, e lá vinha a rainha se contorcendo lentamente como Anaconda emaconhada para fazer todos os homens escorregarem aos seus pés. Mas quem pensa que aquela bunda cavala de Valquiria era sem cérebro, redondamente, engana-se. Prova disso é que se bunda de Rita fosse acéfala, ela há muito tempo teria sido buzinada e ultrapassada por bundas mais jovens e loucas pela fama. Da mesma forma, se Clarice amordaçasse sua bunda ou Cadillac não ouvisse seu cérebro, ambas seriam menores, mais retas, menos encantadoras de serpente.
Na verdade, amigos, bunda é cérebro e cérebro é cu. São dois chacras. Ambos, caminhos. Taos da sabedoria. Duas formas que Deus nos deu de sermos mais. A alcova e o altar. A missa e o mar. A “pantera” da Cadillac e a “coisa” da Clarice. Para a maioria de nós, a maneira como você se equilibra nessa gangorra dita a maneira como vive a vida. O certo é que a serpente precisa subir pela árvore para que ambas possam ser. Matar uma ou derrubar a outra nos desvia de nós mesmos.
Johnny Pinguela. Outubro de 2008.
http://www.youtube.com/watch?v=39oIP4H5EUY
Escrito por Johnny Pinguela às 10h14
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E a vida, continua? ( por Raquel Maria)
Uma das coisas que leva a humanidade para frente a capacidade de continuar. O amor se acaba e gente segue. O emprego é perdido e a gente prosegue na labuta. O time cai e a gente segue na torcida. Em toda reportagem sobre enchente, sempre tem uma pessoa ensopada com olhos fixos no horizonte a dizer “é...a vida continua”. Mas existem momentos que essa capacidade de ir adiante vira defeito. Há dois dias, a menina Raquel Maria foi encontrada morta dentro de um mala na rodoviária de Curitiba, e vida continua na cidade. Uma criança de nove anos na volta da escola foi sequestrada, violada, assassinada e abandonada numa mala. E continuamos todos nós com nossa vidinha. Intimamente, até sentimos um horror retido, um leve pesar, daí damos graça por não ser nossa filha e continuamos com nossa rotina. Essa capacidade de assimilar o horror é tão assustadora como um menina morta em um mala. Ao continuarmos levando a vidinha cotidianamente, matamos a tal da indignação, qualidade essa que nos leva para cima. Ano passado um torcedor italiano de futebol morreu a caminho do estádio e toda a rodada italiana foi cancelada. Por aqui, na noite de Natal, dois operários morreram eletrocutados numa rave e a festa seguiu na maior vibe positiva. A capacidade de assimilarmos o horror anaboliza o horror. “Pelo menos a mala era grande e a menina não foi esquartejada” dirá alguém. Se Raquel fosse nossa filha, neta, irmã ou amiga, a vida parava. Então, por levarmos sorte desta vez, vamos a adiante que atrás vem gente? Não sei como tem passageiro indo aquela rodoviária em busca de um destino outro que meditar a dor por essa perda. Se fossemos civilizados, como pensamos ser, os ônibus deviam parar de chegar e sair do terminal. Os carros deviam parar e rodar, os garçons de circular, os aviões de decolar, os jornais de roubar fotos da menina do Orkut e de escrever coisas tolas sobre os dela pais. Não haveria mais aula de cidadania em escolas, nem madames indo a shopping ou outros viciados se aplicando. Não tinha televisão abutre de carniça, nem propaganda de refrigerante vendendo zoeria, nem prostíbulos de pernas abertas. Nenhum polícia enrolaria, nenhum político escorregaria, nenhum ladrão roubaria, nenhum banco pediria empréstimo, nem bolsa alguma teria valor . Ninguém gastaria tempo com decoração de Natal bem como com votos de um feliz ano novo. Uma criança morreu! Uma semente foi pisada! E não haveria ano novo até que a gente compreenda que Raquel Maria somos nós. Todos nós! Sua perda é a perda de todos que a conheceriam em vida e todos que viveriam depois dela ter vivido plenamente. Também, nosso silêncio paralizado coletivo, diria a todos o demônios desse e de outro mundos que isso era intolerável, impraticável e não ficaria sem punição. Ou, melhor ainda, es-que-ci-men-to. Assim, talvez, com uma pontinha de luz no peito, poderemos todos nós erguer a cabeça, suspirar longamente. eE, enfim, dizer a frase de quem nada tem além de seguir em adiante.
Johnny Pinguela. Novembro de 2008
Escrito por Johnny Pinguela às 12h31
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Pra semana que vem.
Tenho um filho, um amor e Deus me deu o dom de escrever. E é isso que tenho feito para sobreviver nos últimos tempos. Trabalhei escrevendo propaganda e fui até bem bom nisso . Ganhei prêmios, dinheiro, orgulho tolo, amigos de fachada. Mas um dia meu destino entortou. Perdi meu emprego há 5 mil anos e desde então sigo rastros na ventania. Pra frente é escuro. Pra trás, muro. Não posso voltar a ser o que era. E nem sei se quero. Nesse tempo cresci muito junto de meu filho. Sou um pai presente. Um tipo de pai que não tive. O melhor da vida é o presente. Pra semana faço festa e nunca estive mais em forma. Meus abraços cresceram nesse remar contra a corrente e meu abraços ficaram mais apertados. Minha mãe sofre de Alzheimer e a cada dia fica mais distante e eu mais perto dela. Meu pai está fraco mas meu amor por ele está mais forte. A vida é um moinho cantava Cartola. Mas é no moinho que o menino virou Conan. Na casa vazia ao lado ao meu apartamento tem um cachorro morrendo de fome no quintal. São dois condenados pois, dizem, vai subir um prédio no lugar da casa. A vista do nascer do sol talvez vá sumir . Ou não. Tem um crise imobiliária no horizonte e mendigos na vista de minha janela. Hoje cedo fui a banca de jornais comprar jornal que fala da eleição de Barack Obama . “A mudança começou” diz o eleito e eu grito “yeah!” junto no meio da multidão. Na banca compro uma revista com um artigo que ensina não ter medo. Leio o artigo como quem reza. Até porque fui eu mesmo que escrevi a oração. Otimismo é uma questão de ponto de vista. Bem sabe quem olha para a luz. Rodrigo Jardim, amigos de letras e desempregos, me manda um trailer* com a remontagem do filme “O iluminado”. Sempre tive medo desse filme mas nessa montagem pai , esposa, filho e espíritos se dão as mãos e riem. Pra semana que vem faço anos.Tenho um filho, um amor e Deus me deu o dom de escrever.
Johnny Pinguela. 5 de novembro de 2008
* http://br.youtube.com/watch?v=f1dmxC-6iqA&feature=related
Escrito por Johnny Pinguela às 11h37
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