Para meu amigo Tavares que se casa hoje e demais presidiários.
A mulher que me revisa.
“Niemayer faz calculos estruturais quando desenha? Então porque eu tenho que por crase? “Nada humilde, digo isso para ela quase todo dia mas nada alivia a pena. A mulher que me revisa nasceu para riscar um lápis vermelho em mim. Senhora das cedilhas, vírgulas, ela não se contenta com meus crimes contra a ortografia e parte para o pé em cima da mesinha, geladeira aberta, toalha molhadas, louça mal lavada e outros atrocidades. Sou um homem enquadrado. Vivo num carcere privado com três quartos e suite. Só não visto macacão laranja porque não combina com o sofa. Nem sempre foi assim, claro. Já fui cavalo solto. Dormia sem tomar banho, acordava mal acompanhado, tomava café no bar e escrevia errado com três “erres”. Ah! Tempos de liberdade! Ir ao supermercado sem listas, a praia sem óculos escuros, colocar acentos agudos em todas as letras de esbórnia e escrever incerto por linhas tornas. Mas a quem engano. Isso é pomba de gelo pousada na janela que bate sol. Eu vivo na tranca. Agora lavo pratos, limpo chão, troco fraldas, bebo leite, leio nas noites de sábado, uivo nas de lua cheia, escrevo melhor, amo mais.
Dia desses eu lavava a louça, esfregando bem os cantinhos e reentrâncias e sem perceber começei a cantarolar “ Sozinho”do Peninha. Sacam?
“Quando a gente gosta/ é claro que a gente cuida/fala que me ama/ só que é da boca para for a/ ou você me engana/ ou está madura/ onde está você agora?”
A frase final foi em duo pois a danada estava me escutando da área de serviço enquanto lavava nossos uniformes. Sabem devo muito a mulher que me revisa. Posso viver todo riscado de vermelho, mas sem ela minha vida é que era errada.
Jonhy Pinguela.
Escrito por Johnny Pinguela às 09h08
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Pedalando com Oilman.
Outro dia, escrevendo sobre tenacidade, disse que “devemos ser tenazes como bufalos no inverno”. Na hora, não achei essa analogia o bicho, mas na falta de coisa melhor fiquei com os bufalos. Ontem batendo perna pelo centro de Curitiba, achei uma figura bem melhor. Devemos ser tenazes como Oilman no inverno.
Pra quem não conhece o Oilman, ele é um cinquentão que há 20 anos passa bronzeador no lombo, veste um sunga vermelha demodê e sai pedalando pela cidade. Se cidade fosse o Rio, Floripa ou Salvador, Oilman era um bom vivant. Mas em Curitiba, a capital da cuidação da vida alheia, a terra do freezer Prosdócimo, a cidade que se entende melhor que o Brasil, Oil é uma boa aberração. Urso polar rebolando, de fio dental por Copacabana, chamaria menos atenção que Oilman pedalando pelo Batel.
Entretanto, Oilman pedala solto como uma Lady Godiva obesa, velha e sem cavalo. Adultos riem, Oil pedala. As crianças acenam, Oli pedala. Os velhas fazem o sinal , Oil pedala. Os crentes correm do cão, Oil pedala. Rebeldinhos do sistema, com piercing no boca, cabelo roxo e camisa Cavalera, o chamam de ridículo, e o impávido Iron-oilman segue em frente como Moisés pelo Mar Vermelho. Sua indiferença ao ambiente em torno é tamanha que Oilman não dá bola nem mesmo para a maior das autoridades de Curitiba: o frio.
Oilman, como um Buda meditando sobre a árvore, simplesmente se desliga da opinião alheia e da vida concreta. Seu caminho interior é que importa. Parece-me que Oilman tem um tipo de sabedoria. Quem sabe, pedalar de sunga vermelha besuntado graxa por uma estrada de dedos em riste seja um caminho para o Nirvana? Quem sabe?
Podemos rir do homem mas no fundo guardamos uma ponta de inveja da postura. O descaso de Oilman com o concreto da vida e a gravata forçada do sistema, nos mostra que a vida pode ser boa além do comercias de fundos pensão do HSBC. Sabem, pedalamos pela vida acorrentados a uma bicicleta com selim de pedra. Tem muita subida e quando vemos estamos velhos ou com medo da descida. Já imaginaram se a gente tivesse a coragem do Oilman? Como você pedalaria? Eu pedalo um teclado.
Johnny " Oil" Pinguela
http://br.youtube.com/watch?v=yUK7b2wmND8
Escrito por Johnny Pinguela às 09h21
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