Bolhas profissionais
Você segura ele e sem perceber começa. Pof! Um . Pof! Outro. Pof! Mais outro. Assim vai para longe das mazelas. O valor terapêutico do plástico bolha é indiscustivel. Por pior que seja a situação, se você tem um plástico bolha por perto, você consegue um refresco momentâneo, uma fuga transitória, uma iluminação relâmpago. Plástico bolha é Freud na unha. Um Santo Daime de furar. Você fura, viaja e não volta vomitado. Hoje em dia quem não tem um plástico bolha mental tá na droga, na drepê ou na Universal. Tem bolha para todo gosto. Passear com o cachorro, cuidar do carro, escrever um blog, fazer a unha, jogar em rede, praticar ioga, lustrar a escopeta, pescar, trair e, o meu favorito, visitar sebos. Garimpando num sebo eu sou outro. Fugido de minha penas. Se tudo que a gente usa para fugir fizesse “Pof!Pof” igual ao plástico bolha, ninguém dormia. Mas isso é paliativo. O ideal mesmo é transformar o plástico em ganha e pão é viver dentro dessa bolha. Todo dia é sexta-feira para quem trabalha com seu plástico bolha. Amigos, que inveja tenho do cabeludo grisalho que monta um loja de discos de vinil e vive. A designer apagada que se ilumina fazendo velas. O mecânico que se concerta com brinquedos. A conversa lépida do propriétário do Sebo nas Canelas. Gente sábia e feliz pegam suas aspirrações profisionais e se mudam para suas bolhas. Minha amiga Marcia era arquiteta dura e estressada. Para aliviar, meditava. Meditava tão bem que começou a dar aulas de meditação. Montou uma escola quintal de casa e agora vive no Nirvana. Sabem, a vida não muito vale pra quem não faz o que se gosta. Se você é tarado, monte um sex shop. Se é santo, pregue na rua. Se é infeliz, mude.Mude já! A vida é Pof!. Acaba rápido como o plástico bolha que envolve o celular novo. Puf...
j.pinguela
Escrito por Johnny Pinguela às 20h08
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Entre meninos e árvores
Olhar as crianças é uma cartilha que Deus nos deu. Ver como agem explica como agimos. Por exemplo, de uns tempos pra cá, meu filho virou macaco. Ainda ontem a brincadeira legal era chupar o dedo e morder brinquedo, agora o guri quer subir em tudo. Sofá, mesa, estante, escorregador, carro e, finalmente, árvores. Existe algo na árvore que chama o macaco dentro do homem às suas origens. Assim, meu mico tem buscado árvores cada vez maiores. Para meu filho, toda árvore é frutífera. Todas lhe dão um doce, uma satisfação, uma aventura. Porém, a árvore vencida é uma árvore descartada. Cada galho ultrapassado é um galho morto. Subir é o desafio. Eu até podia escrever um livro de marketing pessoal sobre essa analogia. Afinal, o que são as suntuosas coberturas e os arranha-céus mais altos que catedrais? No livro, era só colocar um título pega-mosca, tipo "Escalando a árvore interior", e pau. Ganhava uns contos. Mas o caso é que, ultimamente, apesar da derrocada das bolsas e do derretimento das calotas polares, a gente não precisa de lições para subir nas árvores. Mas sim para descer delas.
Hoje fomos almoçar no quintal do restaurante Pantagruel rque e, como de costume, lá foi o Francisco trepar pelos frutos da conquista. Subiu numa goiabeira, numa pitangueira, até encarar um frondoso pé de qualque coisa. Eu, com os pés no chão, vi o menino escalando galhos cada vez mais finos, mais do longe do tronco original e desapegados da raiz. Olhar copa acima era o único ponto de vista válido para meu macaquito. Tudo ia bem, até que finalmente ele parou um instante e olhou para baixo.
Daí o que era brincadeira, de repente, virou seriedade. Francisco estava acima de suas poses. Sua ânsia de subir, vencer galhos e desdenhar a aclimatação às alturas o levou acima do sustentável. Era alto demais, longe demais e perigoso pra caramba. A árvore, outrora doce, passou a dar frutos de ferro. Descer agora era uma necessidade. Mas como? Descer era também ceder terreno, rebaixar-se diante da árvore, retroceder diante de conquistas futuras. Por instantes, Francisco, ao sabor de ventos e folhas, ponderou sobre sua situação. Na descida, os galhos antes derrotados agora serviriam de estacas no peito do macaco selvagem vencido pelo homem racional. E justo agora que a copa parecia tão próxima. Como a um alpinista fracassado, o cume do Everest lhe sorria um riso de desdém.
Porém, cansado e amedrontado, iniciou o menino seu caminho de volta. Logo de cara, notou uma dificuldade assustadora. Para descer, era preciso apoiar os pés onde não via. Seu caminho assim virava um tatear por pontos de apoio invisíveis que, quando falseavam, dominavam-no de pavor. Cairia ele num abismo sem volta. E todas as árvores, outrora vencidas, cairiam sobre ele.
Ofegante e apavorado com a queda interior que pintou com tinta escura, o menino desceu apenas amarrado na fé em seus braços. Meio sem saber, aos desbravar seu caminho para a salvação, ele se tornava mais bravo que aquele menino que subia. Mesmo sem querer, no medo se provava como tal. Ao alcançar o tronco mestre, o medo de cair o tornara mais homem que animal. E a vitória sobre o medo o tornava o maior vencedor. Já bem próximo do chão, o menino medroso então mudou o semblante e, maroto, até deu um pulo no ar e rolou pela relva verde, dando um riso de macaco de circo. A maior de todas as montanhas está dentro de nós mesmos.
E pensar que todo esse drama se desenrolou a dois metros do chão e a poucos centímetros dos braços carinhoso do pai. Era só pedir que eu lhe carregaria para a segurança. Mas homens, como macacos, têm a tendência de acreditar apenas neles mesmos.
Johnny Pinguela.
Escrito por Johnny Pinguela às 20h29
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