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Johnny Pinguela
 


 

Ranger 0-9

 

 

"Águias em Alerta". Se não me engano, este é o nome: "Águias em Alerta". Estrelado por Rock Hudson, "Águias em Alerta" passava sempre na Sessão da Tarde. Era quase um filme de propaganda da força aérea americana nos tempos gelados da Guerra Fria. O enredo, ou melhor, o comercial de 90 minutos era simples: a América e o mundo livre podem estar moscando com a ameaça comuna, mas os militares gringos não estão. Para provar isso, o filme mostrava a rotina de uma base de bombardeiros nucleares comandada por Rock Hudson. Logo ele, que estava mais para pavão na surdina que águia em alerta.

O filme em si é uma seqüência de cenas soltas mostrando como os militares se fodem para poder explodir o mundo e salvar a humanidade. O cara sofre estafa, amigos brigam, um copiloto perde o parto do primeiro filho, o casamento de Rock balança, ele faz reuniões numa sauna (juro!) e anda para cima e para baixo com um telefone vermelho abajur de puta. Enfim, todos os personagens estão com as vidas detonadas, mas de prontidão para explodir um covil comunista. Todos, menos a turma do Ranger 0-9.

No grande momento do filme, o telefone do Rock toca à 3h37 da madruga e uma voz dura diz: "Isto é uma simulação de pega-pra-capar". Uma sirene grita, a base acende como uma árvore de Natal e todo mundo corre para os imensos B-52 que hoje servem para explodir caravanas de camelos no Afeganistão, mas em 1960 tinham um alvo real do outro lado do Pólo Norte.

A simulação é uma prova de fogo, vestibular de uma questão: em 30 minutos, 30 aviões devem estar no ar. Os bombardeiros, chamados Rangers, vão taxeando e levantando vôo um a um. O Ranger 0-1, o 0-2, o 0-3 e por aí. O armageddon parece bem encaminhado até chegar ao Ranger 0-9. Na hora de pisar fundo, uma turbina afoga e o bicho pipoca como Chevette na subida da Serra do Mar. Pior! Segura a fila de Rangers que vem atrás. Aparece a equipe de manutenção e tenta de tudo. Limpa vela, sopra mangueira, masca charuto, faz chupeta e nada. O Ranger 0-9 é uma bomba que não vai explodir ninguém. No desespero, o comandante do Ranger 0-9 apela e fala com carinho para o painel do avião: "Benzinho... Olha... A gente não está indo sobrevoar o gelado Pólo Norte. Não estamos indo enfrentar fogo antiaéreo e explodir uma cidade dormindo. A gente está indo para Acapulco , tomar tequila, namorar lindas guapas e bronzear a vida ao sol".

O resultado você já imagina. O Ranger 0-9 acorda como uma águia estriquinada e decola rumo ao Moscou.

Hoje, às 11h38, meu telefone tocou. A voz me deseja um grande 2009, cheio conquistas, reconhecimento, felicidades, paz e muitos textos. Esperando pelo melhor, rezando pelo melhor, respondo que " Deus te ouça" e mais uma vez o Ranger 0-9 decola rumo à ensolarada Acapulco.

 

Johnny Pinguela

http://br.youtube.com/watch?v=sPC55ygPYq8&feature=related

 



Escrito por Johnny Pinguela às 11h42
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Otimismo é um cão de mendigo.  

Mendigo: " Caveirinha, eu tô sem grana, sem emprego, sem mulher, gordo, velho e meu dente dói..."

Caveirinha, amigo sem dente do mendigo: "É isso que curto em você: cê tá sempre otimista!".

 

O que seria do mundo sem o otimismo? A gente até podia viver num planeta sem sol. Mas não sem a esperança de que um dia ele voltasse a brilhar. Sem otimismo, o povo nem levanta da cama. Ainda mais se essa cama é uma sarjeta dura e fria como a que estive deitado por uns tempos. Até fez bem para minhas costas tortas e para meus textos sempre furados como vitral de igreja abandonada. Mas, colega, como comer pão velho, foi duro.

 

Nesses dias cinzentos, o otimismo, sem bem por quê, me pôs de pé e o conhaque barato, tomado em copo de geléia, me carregou. Segui de marmitex em marmitex, marquise em marquise, sempre com meu otimismo magro e sarnento laçado num barbantinho azul. Olhei as latas de lixo, pisquei para os bueiros, fiz que não vi o corvo do lado escuro da rua, mas segui chacoalhando minhas latinhas e entortando meu araminho. Os vermes malditos de sempre riram pelas minhas costas, alguns amigos que eu não sabia que eram amigos me acenaram na rua e os X-MEN de sempre me abraçaram. Eles, junto com o otimismo, me conduziram pelas vielas da vida até eu voltar para casa, para o trabalho e para o olhar digno no espelho. Em retribuição, fiz a barba, marquei dentista, plantei girassóis na soleira de concreto e voltei aos bons dias. 

Mas sabe quem mais me ajudou nessa travessia? Meu filho. Ele  sabe oque é desemprego, descaminho, não tem idéia do que é fracasso e é um otimista de carteirinha. Sabe, o menino nasceu três dias depois do 11 de setembro. Tempo escuro, pessimista para a humanidade. Deve ser por isso que os olhos do menino brilham tanto. Um sol! Um verdadeiro sol de verão que me guiou para fora da escuridão.

 Johny Pinguela

http://br.youtube.com/watch?v=JpghUlfUzmQ



Escrito por Johnny Pinguela às 12h15
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O barco viking

No final do Cidadão Kane, Kane balbucia "Rosebud" e morre. Não cheguei lá, mas já tenho meu Rosebud na ponta da língua: "Barco viking". A nau capitânia dos meus sonhos juvenis.

Ganhei meu barco viking com 11 anos. Era de plástico, mas valia como carvalho escandinavo. Tinha uma carranca para espantar quem viesse com ruindades pela frente. Para proteção lateral, tinha escudos redondos nos dois costados. Para me navegar, na vela mestra tinha um dragão cuspindo fogo. E como meu barco me navegava bem. Me levou pelos sete mares, enfrentou monstros marinhos, descobriu a América, conquistou riquezas. Tudo na banheira de casa ou descendo a enxurrada nos paralelepípedos da Rua Campos Sales. Pedras pontiagudas e o medo de ser engolido pela boca-de-lobo não me impediam de, no meu barquinho, ir para longe de mim. Nada me assustaria. Um dia seria grande e corajoso como um rei viking. Teria braços fortes para remar na calmaria, empalar mouros, abraçar deusas loiras. Centrado e convicto, tomaria cerveja com amigos e relembraria serpentes marinhas decepadas e vitórias empilhadas. Nada me seguraria. Não haveria porto desconhecido ou fiordes sem saída. Em meu barco viking sempre acharia uma fresta, um sopro de ar, renovação. Na montanha dos bravos, meu nome seria talhado no grande carvalho e faria sombra para as gerações vindouras. Por fim, eu navegaria para o Valhala com um filho no alto de cada castelo, viúvas lindas e eu com pinta de Thor.

Poxa! Como moleque sonha alto. E olha que nesse tempo eu não bebia. O tempo passou e meu barco viking virou papel, mas eu não parei de remar. Agora que entro no vale das quatro gargantas, meus braços ardem e tenho calos nas mãos. Pelo nevoeiro, navego sem estrelas, apenas pelo instinto e fé. Dizem que fé é acreditar sem ter porquê. Tem uma prainha pra mim em algum canto?

Não sei onde perdi minha bússola, mas mesmo com ela fiz umas curvas tortas e acabei aqui no desfiladeiro das quatro gargantas. Enquanto passo por esse vale de paredes lisas, ouço um desmoronamento atrás de mim. Não há volta, não há saída além de remos, saudade e esperança. À frente, minha carranca olha ruindades, rugas e se espanta. Valhei-me!!!

 

O coração viking ainda bate no menino dentro de mim. E, mesmo vendo o barco de plástico incrustado no mundo de ferro, grito: "Que venha!!! Que venha!!!". Reis vikings, com sorte, morrem velhos aos quarenta. Não sou rei, mas ainda posso ter um funeral viking. Por isso luto, por isso remo e por isso rezo forte para Odin, Ogum ou Nossa Senhora Aparecida.

 

Johny Pinguela



Escrito por Johnny Pinguela às 11h48
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