“A sombra de montanhas e canhões” Estou a boiar numa praia secreta. Por ser secreta você não vai saber onde fica. Não quero ninguém além de mim por aqui. Digo apenas que fica perto mas ao mesmo tempo longe. O turismo aqui não salpicou a areia de guarda-sol, o BBB 9 não passa por aqui, o carnês de IPTU e afins não me são entregues aqui. Minha praia fica numa ilha e da praia se vê o continente com franjas de montanhas desenhadas no horizonte. Mas não pense que minha praia é um o paraíso perfeito. Tens canhões aqui. Enormes máquinas de guerra com balas pesadas como castigos e alvos no horizonte azul. Essas armas de ferro malvado me apontam para a guerra. Por sorte, as montanhas me apaziguam. Como uma cobra com uma cabeça em cada cauda, canhões e montanhas se miram. Os canhões estão entrincheirados no alto de um morro outra desmatado. Atingiam alvos além, mais distantes que suas vistas. Já atirei assim. Mas o tempo afina a mira e eu, como as grandes armas de outra, agora miro por amigos e gaviotas. Sem guerra, no alto do moro apaziguado cresceu uma floresta de armas grandes e verdes como mangueiras de aço. Outrora faziam barulhos de trovões, não mais. Agora quem faz barulho lá é meu filho que corre como brissa forte pelo antigo forte abandonado. A guerra é brincadeira para quem nunca lutou. Outra noite, um grupo de desconhecidos me abordou na rua para assaltar. Eu tentei negociar a paz e as perdas, mas, o “crack” ardendo nos olhos dos demônios, não queria papo. Tive que lutar. Eram três e eu um. Eram três e um trovão. Explosão! Eles fugiram com meu casaco de couro falso e me deixaram com uma costela verdadeira quase quebrada gritando “Jesus”. Isso foi há duas semanas, cinco milhões de léguas da minha praia secreta. Na areia branca, alheia as coisas de meninos, homens e demônios meu amor se bronzeia. Mais além, o mar salgado e puro me embala como um feto na barriga da mãe. Com ouvidos submersos ouço o silêncio dos peixes espinho e pedras fiadas. Olho para cima e no céu nenhuma nuvem mancha o sol. A vida é uma gaivota no vento. Eu podia estar pousado em calçada suja e sangrenta navegando para outra lugar. Mas Deus me deu esse mar. Sempre busco uma linha forte pra fechar textos. A sombra de montanhas e canhões finalmente encontrei. Johnny Pinguela. Fevereiro de 2009. http://www.youtube.com/watch?v=-3ZPDX68_Dg&feature=related
Escrito por Johnny Pinguela às 14h23
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Alegria lhe cai bem. A moda está cartaz. Na São Paulo Fashion Week só se fala em cortes, tecidos, estampas, desfiles, viadices em geral. Moda é negócio. E negócio tem que ser vendido para dar dinheiro. Então, dá-lhe blá-blá-blá e clic-clic-clic sobre quase nada-nada-nada. Afinal, o que é moda? Fazem um barulhão danado sobre a nova coleção outono-inverno mas no fim rola jeans e afins. Além do que, vamos falar a verdade: esses estilistas são uns chupões. Para tanto, eu já saquei, eles seguem basicamente quatro caminhos. Uns, saêm pelas ruas, praias e baladas clicando o que acham diferente, inusual. Por exemplo, um dia alguém saiu de casa na pressa e vestiu uma camiseta de manga curta por cima de uma longa. Um estilista registrou essa gafe e transformou em tendência. Agora, a gente compra essa combinação protinha na botiques e o estilista fatura. Outro, caminho clássicos dos estilistas mais preguiçosos é comprar umas revistas antigas em sebos e fazer algo chamado “releitura”. Muda cor aqui, caimento alí e pau! Você tem uma releitura dos animados idos da New Wave. É assim que a altura da cintura sobe e desce feito io-io. Tem também a turma de vanguarda que segue o caminha do aeroporto. Ir para um lugar diferente e chupar o que rola lá. Que pode ser em Guaiaquil , em Ibiporanga, em NY ou, normalmente, em Paris. Na volta o dandi retorna cheio de sacadas para sua nova coleção. Mas na real sacou da cabeça da modista colombiana. O quarto caminho, que até considero o mais integro de todos, é misturar tudo, rachar pau no gato dentro do saco, e fazer o seu chiado realmente novo. Isso é talento. E é para poucos. O resto é tendência que nada mais é um jeito chic de falar que chupou. E falando em tendência, quem foi que disse que modelo tem desfilar de cara feia? A menina é bonita, tá ganhando um maná por um trampo mole e ainda assim faz cara veia. Seria a cocaina batizada? Moças da faxina tem o direito de fazer cara feia e não o fazem. Porque as moças lá de cima fazem? Se a roupa é tão linda, o tecido tão leve e caimento tão perfeito, por que a cara de cimento? Pra mim, na verdade, não existe caimento melhor para uma roupa que tal felicidade. Quando a gente está feliz, tudo está lindo, leve e perfeito. E a roupa é o de menos. Podemos vestir seda da Dior, mas se estamos mal ela vai ser estopa da pior. Podemos vestir trapos da José Paulino, mas felizes, será Saint Loren. Nada, nenhuma fibra, nenhuma roupa, nenhum grife, nenhuma carreira de porcaria cai melhor na gente que alegria. E para isso não existe estilista melhor senão você. Corte os medos, costure as amizades, se cubra de amor, depois jogue uns panos que gosta por cima e saia desfilando pela cidade. O resto é moda. E moda é passageiro de trem otário. Johnny Pinguela. Janeiro de 2008
Escrito por Johnny Pinguela às 16h43
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