O personal. Academia, às vezes, me parece um zoológico. E, de cara, me reconheço como um dos bichos mais estranhos. Afinal, marombeiro que lê poesia é natural como um gorila que faz origamis. Mas além deste autor, que luta contra contra a barriga e idade, o zoo tem outros bichos intrigantes. Como, por exemplo, a turma que tem personal trainer. Hoje em dia, um em cada três pessoas na academia tem seu personal. Acho isso um tipo de involução da espécie. Afinal, para levantar um tijolo de chumbo, o cara precisa de assessoria. Mas deixa para lá esse meu origami de escorpião, o fato é que tem mais personal trainer na academia que professor na vida. Já pensaram se a gente contrata-se personal para cuidar de coisas fundamentais como o amor, os filhos, meio a ambiente, os pais idosos ou envelhecer? “Vai lá manda um beijo, liga para saber como foi a prova, recicla o lixo, ou levanta uma flor para amada mãe.!!!” . Mas nada! Personal cuida de biceps, de peito, de bunda, de tanque e de ego. E aqui a minha constatação um tanto óbvia. Cada aluno contrata o personal por uma razão diferente. Alguns, quebrados, contratam personal por ordens médicas para se recuperar de um lesão. É o personal muleta. Outros, mais descolados , carregam personal pela sala como carregam uma logomarca dourada. É personal griffe, quanto mais bonito, mais chic. Tem a turma mais de fora que usa o personal como dama de compania pra se sentir enturmado. É o personal amigo. E, por fim, tem a turma que rala pesado que, como queijo duro precisa de uma mão forte, sofre pra dedéu. E aqui surge o pior de todos: o personal sádico. Para saber quem é personal sádico basta tirar os fones do ouvidos. Onde ele atua ouve-se gritos, urros, e popular “ vâmo!”. Sem “vâmo” o personal não é sádico realmente. Sempre que o aluno esmorece, treme ou refuga, o “vâmo” retumba como trovão pela academia e maromba prossege. Também , acompanhando a rotina do sádico, noto que assim que ele percebe que a carga do aluno ficou leve, trata logo de acrescentar mais um tijolo ao desafio, mudar rotina, desconfortar o esqueleto. Aula de sádico é uma eterna escalada de cargas. Como resultado disso forma-se junto com a musculatura, uma amizade. O aluno fica mais próximo do mestre tanto em tonus quanto em valores. A dor ensina. E aquilo conquistado com sofrimento sempre sera mais valorizado. Nisso me cai uma ficha. Seria Deus um personal sádico? Há tempos perdi meu emprego e com ele uma zona de conforto. Desde então, tenho carregado cargas cada vez mais pesadas. Hoje, apesar da dor, me sinto maior , mais preparado, mais vivo. A carga me fez grande e apoio do personal me faz prosseguir. Hoje mesmo ouvi um “ vâmo” ao levantar e outro ai iniciar esse texto. Johnny Pinguela.
Escrito por Johnny Pinguela às 10h30
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Horário de verão. Há dois dias, o horário nacional de verão acabou e eu continuo nele. Não adiantei meus relógios em uma hora, um minuto, um segundo. Há dois dias sigo acordando quando quero e indo a praia até quando dá. Estou de férias e vou bater o pé. Até a quinta-feira de carnaval faço minha hora. Longe daqui, gente segue ponteiros, escalas de trabalho, check-ins, time-shits, enrolex de ouro fake. Não aqui no meu dourado. Na minha ilha de veraneio, sou Robinson Crusoé. O sol faz o ponto. Acordo quando ele benze na minha testa. Tomo um café demorado e devaneio. Olho a praia na janela, passo o óleo e, como um Oil Man, vou ao batente. Vou cuidar o bronze da patroa, ensinar o filhote a surfar, boiar com Deus, tomar cerveja cara, catalogar bundas, achar Argentinos cabeludo e brasileiro salafrario. Enfim, liberdade! Fiz meu horário e não saio dele. Na minha vida segui horários e fiz muitas conseções. A hora de ser maduro. De fazer sucesso. De ganhar grana. De vender os ideias. De se foder, de cair, de levantar, de calar a boca, de se perder. Horários são grades! Hora é um opinião. Não um fato. Quem pode dizer qual é hora ideal de pegar sol? Você acorda cedo e escapa do cancer de pele mas é mas trombado pelo caminhão da Skol. Tem hora de nunca mais fazer castelos de areia? A hora exata do bonde da vida é agora. Ainda é cedo e o sol vai brilhar forte hoje. Isso me basta. A quinta-feira fatídica está a milhas nautícas daqui. Até lá, ainda tem um carnaval, umas quarenta Caipiroskas e uns quarenta mil beijos salgados. Meu amor está bronzeando e diz que voltou a me amar...arder. No “Vale a Pena Ver de Novo” tem Andrea Beltrão moça como na Armação. U2 faz show sem fila na televisão. O buffet de sorvetes tem todos os sabores mas sigo fiel ao flocos. (Pro Timão, patroa e flocos eu sou fiel). Aos meus pés um menino aproveita seu primeiro verão, meu pai faz churrasco na laje, minha mãe conta causos na tardinha. Todos aproveitam a brisa da estação e olham Deus no arco-iris sem fim. Amanhã talvez chova, ou talvez faça mais sol. Hora boa. Hora única. Nosso horário de verão. Johnny Pinguela. SF do sul fevereiro de 2006
Escrito por Johnny Pinguela às 10h47
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