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Johnny Pinguela
 


Minha amada Curitiba. ( Pelo aniversário dela)

Na feira do Alto da Glória tem pastel igual o de São Paulo e mesinhas para sentar que lá não tem. Nos parques tem carpas cinzas e laranjas mas no mercado municipal tem carpas douradas. O efeito estufa pode ser mal para a calota polar mas para Curitiba o inverno está demorando a chegar. No bosque de Papa, eu gosto de entrar pelo fundos e ir pela floresta até a vila do Asterix. Dentro do Olho eu gosto de viajar pelo no espaço sideral. Eu já vi um elefante pastando ao lado do Guaira. Na praça Ouvidor Pardinho tem um trator amarelo como o submarino dos Beatles. Em torno do HC tem gente de mascara voltando a respirar. Na velha Casa do Estudante tem trafego de idéias novas. No zoológico tem girafas, leão, tamandua, pavão e povão que não custam nada visitar.No Bar do Dante tem garçon que sabe meu nome. No Jardim Social tem casas duras e muradas que escondem casinhas nas arvores. Jogam xadrez, pão e prosa no Passeio Público. Na rua São Francisco tem um estátua de Don Quixote. Em maio, num canto do passeio público tem um teletransporte para Paris. No fundo do sêbo São João tam um portal para qualquer dimensão. Nas lojas de móveis usados do rua Rio Branco tem maquinas do tempo e uma portinha chamada Ebenezer. No centro sempre vejo uma bonitona refletida na vitrine, um poster polonês e uma dona gritando “ coelho, 36”. No poste da esquina, tem um cartazinho feito a mão por uma criança com a foto de um cãozinho simpático e título “achou-se!”.A prefeitura uma vez disse que sua maior obra é realizar sonhos. Já vi um travesti sindico e uma madame dar um casacão italiano para um mendigo nacional. Tem um cara que pedala de sunga e um padrinho de casamento que diz que o filme Trainspotting foi inspirado nele. Tem um poeta que virou professor da Federal. Tem uma flautista que ensina desing. E um menino me disse que tem um tubarão embaixo do aquário municipal. O trem buzina cedo mas acordo com o zumbido da roçadeira. O ar é bom e a qualidade de vida respirável. Tem mais gente disposta a pintar a fachada que pixadores. Tem coxa brancas e mas também tem
atleticanos. Tem taxisista carioca. Padeiro paulista. Oculista francês. Tem filha de puta solto e filho de puta adotado. Pela janela, os gatos passeiam nos telhados, passarinhos cantam e pela casa crianças brincam de quadrilha . Uma vez perdi os documentos e um sujeito me devolveu. Numa copa da mundo levei um moça para jantar em Santa Felicidade e nunca mais torcemos sozinhos.No quintal do Pantagruael é bom de comer risoto . No Jokers é bom beber Guiness. Na portas da catredral dá para chorar de madrugada. Já sobrevive em outras cidades, agora vivo aqui. Visto camisa floridas no inverno e o Havai não é longe. Às vezes malho as pessoas da Curitiba mas também aprendi separar meu lixo. Plantei girassóes no horizonte e meu filho é curitibano. No Alto da Glória tenho um lar. Na minha amada Curitiba, meu lugar.



Escrito por Johnny Pinguela às 15h31
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Essa gente de fora.

 

Fui vítima do preconceito. Não sou negro, judeu, gay, argentino nem mesmo palmeirense mas sofri uma discriminação racial. Um curitibano disse que sou “de fora”. Quem é “de fora” em Curitiba sabe quantas minhocas tem debaixo dessa pedra. Podia escrever sobre isso, mas não quero  me sentir  mais de fora que estou. O fato é que o “de fora” na cara me fez pensar sobre minha origem. Sabem, se sou de algum lugar, sou de Itararé-SP. Mas lá nunca me senti “de dentro”. Nem em São Paulo onde tanto vi, nem Florianópolis onde comecei a escrever, nem mesmo em Paris onde queria viver. Na realidade me sinto sempre “de fora”. O que me faz pensar que isso é coisa do sangue. Meu bisavô, Giovanni Visinoni, foi  o “de fora” original. Nasceu em vilarejo na Itália chamado Rovetta mas não devia ser sentir tão “de dentro” por lá. Pois foi estudar e trabalhar fora. Daí um dia deve ter olhado o oceano e veio-lhe a vontade de dar o grande salto. E lá veio “nôno” desbravar o Brasil. No Paraná, Giovanni virou João. Podia sossegar a mola propulsora dos desbravadores, trabalhar o jardim e, finalmente, se sentir de dentro em Curitiba. Seria fácil. Afinal naqueles idos todos, polacos, carcamanos, galegos, chucrutes, eram “de fora” . Mas João, ao contrário de muita gente que chegava a Curitiba, tinha um diploma de engenheiro ferroviário e  olhar perdido no mar de Araucárias. Assim, após trabalhar nas obras do ramal Curitiba/Paranaguá e na ampliação do estação ferroviária de Curitiba ( onde atualmente os curitibanos da gema compram marcas locais como Puma e Dolce & Gabanna e se entopem com o quitute da terra chamado Mac chiken) meu avó foi para dentro da Amazônia de mato, feras e perigos que era segundo planalto. Por lá projetou ferrovias que levaram o imigrantes mais para o interior e trouxeram riquezas mil para a capital. Depois de construir vários caminhos para o progresso e até virar nome de estação ferroviária, João Visinoni fincou raízes como fazendeiro em Irati onde plantou um pinheiro, casou e teve 9 filhos. Um dia triste, numa disputa com grileiros "de fora" que invadiram suas terras, João foi morto na frente de seu filho de oito anos , Victorio. Compreensivelmente, Victorio crescido abandonou o campo e seguiu caminho reto e leal na estrada de ferro. Como seu trabalho levava de estação em estação imagino que Victorio nunca se sentiu muito “de dentro” em lugar algum porém teve cinco filhos e se estabeleceu como Chefe de  Estação na importante ramal de Itararé, a Sentinela da Fronteira, por onde passava toda a riqueza do sul, do Uruguai e da Argentina. Nessa época a vida era solta e emprego bom, tanto que outro João, o Joãozinho,  filho mais velho do Victorio seguiu o passos da família se equilibrando pelos trilhos. Mas.. ( sempre  tem “mas” na vida da gente “de fora) ...o Brasil, após investir um século nas ferrovias, resolveu espertamente ouvir os conselho das montadoras e passou a fazer estradas de asfalto.  Victorio morreu novo, em 1962 , bem antes de ver os trilhos assentados por ele, serem amputados do chão e sua estação virar uma delegacia e seu filho mudar com esposa e dois filhos para São Paulo.  Em São Paulo, apesar do mar com gente “de fora”, Joãozinho nunca se sentiu muito em casa pois lá em sampa ele era “do sul”. Por isso, um dia, após quase 100 anos,  outro João Visinoni, meu pai, chegou em Curitiba. Isso foi há 17 anos.  De lá pra cá tanta coisa aconteceu. Eu cresci, casei, mudei para Alto da Glória e escrevo sobre o bom de viver aqui.Outro dia fiz uma conta e descobri que vivi mais aqui que em qualquer outro lugar. Mas dizem que sou de fora. Fazer o que? Se meu bisavô tivesse se fixado aqui talvez hoje eu seria “de dentro” mas talvez Paraná tivesse menos ferrovias e menos riquezas provenientes dela. Quem sabe? De certo mesmo é que meu filho, Francisco Visinoni, nasceu em Curitiba e se sente feliz no Alto da Glória. Espero que ele cresça aqui. Mas, mais importante, espero que ele cresça de coração aberto, vontade de melhorar  e com olhar esperançoso da gente “de fora”. Quem tem um lugar constrói muros. Não devia ser assim mas é. Um dia se acorda e todos os estranhos estão do lado de fora e você esta preso dentro.

 

Johnny Pinguela. 29 de março de 2009.

 

 

 

 



Escrito por Johnny Pinguela às 18h53
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