Grandes figurinhas de nossa história Abri a porta. Coloquei a mão no bolso do casaco e senti o maço de fantasia. Depois gritei mais alto que o Cartoon Network na outra sala: - Quem quer surpresa? Quem quer surpresa? Ouvi passinhos e um grito: - Eu!!! O menino apareceu com seus olhos brilhantes e curiosos. - Cadê a surpresa, pai? Abro a mão diante dos olhos do menino o tesouro aparece: figurinhas! Mesmo sem saber o que é, o menino sente que se deu bem: - Uaaaauuuu!!! Vamos para a sala abrir o tesouro, descobrir as cores, iniciar o menino na arte perdida do bafo-de-onça. Porém, ao abrir os pacotinhos, uma coisa destoa: as figurinhas são tão pequenas... Será que encolheram? Cortes de custo pilantra como aqueles que diminuíram o Chokito e estreitaram as bolachas wafer? Ou não? Será que minha mão cresceu? A memória é um álbum de figurinhas. Preenchido com craques, jogadas mágicas, faqueiros de prata, televisores Colorado. Tudo carimbado! Você cola e o momento fica. Mas cada um cola como quiser e na página que escolher. Tem alegria na página do verão no Guarujá. Rostos adolescentes formando as faces do amor. Amigos em torno de uma bola. Gente ruim no corpo de bicho feio. Pai alcoolizado e lágrimas escondidas. Sonhos de lava jorrando do vulcão adolescente. Sonhos transformados em pedra na briga com o mar. Numa página, você esmurrando o ar é Pelé goleador. Na outra, rasgada mas ainda ali, você é o goleiro frangueiro. Álbum louco esse! Sempre ao vento, nunca completo. O único álbum de verdade que completei na vida não fiz sozinho. Para preencher Disney Mundo 77, eu e um amigo juntamos mesadas, garimpos na escola, vitórias no bafo, até conquistar a coroa do Reizinho de Alice no País das Maravilhas, uma figurinha mais difícil de encontrar naquele tempo do que Bin Laden hoje. Depois, com toda a gurizada ainda perguntando: "Quem tem o ratinho do Dumbo? Quem tem o Zé Carioca comendo feijoada? O Reizinho, alguém viu um?"por uns tempos, me achei maior... Completo... O verdadeiro Reizinho da vila. Até descobrir que meu amigo estava descolando e vendendo as figuras do nosso mundo completo. Descompletado e destronado, não fiz nada. Ou quase: tirei a imagem do descolador da página do Tico e Teco e passei para a dos Irmãos Metralha, onde seu rosto infantil está até hoje, puxando uma perpétua. Memória, teu julgamento é justo como a de um carcereiro bipolar. - Uaaaaaauuuu!!! O menino abriu outro pacotinho e grita para o pai abandonar o menino dentro dele. - Olha, pai!!! Volto para a página branca de hoje e vejo o tesouro descoberto pelo menino. - O Reizinho! Sorrindo, grudo mais uma carimbada no álbum. Johnny Pinguela
Escrito por Johnny Pinguela às 18h00
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