Não esqueçam a Páscoa do lixeiro!!!
Tive um dia ruim. Não, melhor, uma semana ruim. Na verdade, mesmo, foi todo o mês de março miserável. Não vou pená-los com os detalhes, mas as laranjas de minha sacola furada têm rolado ladeira abaixo. Com isso, entre sair da mina de sal e ir para a ilha santuário, tive que dar uma passada na Padaria Verdes Mares. Precisava beber. Leminski disse que "beber em Curitiba não é vício, é autodefesa". Então, lá fui para minha aula de judô com garrafa. Entornar sozinho tem algo de decadência, mas é saneador. Você arruma a casa. A mente desliza e quica como sabonete em piso molhado. Penso na vida, no Leminski, no pão nosso, dívidas, trampolim de álcool e mergulho no decote pão quente da balconista. Falando nisso, quando tenho um dia ruim, gosto de beber na padaria e não no bar. Acho que é porque a padaria fecha cedo. Meu pai, nos seus dias ruins, bebia num bar que fechava bem depois do programa do Chico Anísio e eu não achava graça alguma. Então, arrumo minha casa enquanto as balconistas fecham a delas. Ganham pouco elas e, ao lado de um forno, tiveram um dia bem mais quente que o meu, mas estão felizes. O exemplo delas e metade da garrafa me alegram. É sexta e todo mundo pode ser outrem. Apressados, os últimos fregueses entram em busca de pão frio, cigarro, isqueiro e ovo de Páscoa. Falta uma semana para a Sexta Santa. Não posso esquecer que o coelho vai passar em casa. Anoto no meu bloquinho mental: "Super Kinder Ovo com brinquedo surpresa gigante". Na TV, uma freira diz ter sido curada por João Paulo II. A padaria quer fechar. Peço cinco latas para a moça simples e bela sem uniforme e vou para a rua com a cabeça mais leve e um saquinho plástico na mão. É uma noite quente e boa. Tenho casa própria e amor meu. João Paulo disse que a vida é uma peregrinação. Alguns vão a pé, outros de joelhos, outros de helicóptero, alguns poucos assobiando. Nisso, ao meu lado, o caminhão do lixo ruge como um javali. Da traseira, um grupo apressado salta e começa a lançar sacos na boca da fera. Um deles me olha nos olhos. Como quem reconhecendo a nobreza daqueles cinco atletas em constante maratona, eu aceno. Ele, reconhecido como homem de valor, retribui o gesto e, montando no javali, dispara maroto: – Não se esqueça da Páscoa do lixeiro!!! Peregrinos merecem milagres. Estico o saquinho com cinco ovos de alumínio gelado e grito: – Opa!!! Tá na mão o chocolate. Feliz Páscoa a todos.
Escrito por Johnny Pinguela às 16h33
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