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Johnny Pinguela
 


Heróis Mortos.15 anos sem Senna.

 

Num domingo de chuva e frio, a televisão vira a fogueira. Por falta de
opção, sou apresentado à lenda da Nascar, Dale Earnhardt. Conhece? Deve. Tem
que. Dale ganhou sete copas Winstons (????) e num domingo de sol morreu. Um
herói morto. Um herói vivo no meu domingo vazio.

O filme conta a vida de Dale da infância pobre até virar lenda. Passa por
suas dificuldades de caipira pobre, suas superações de novato e a
determinação de americano para a vitória. Em quase duas horas, Dale vai
vencendo corridas e desafios (sempre com a bandeira americana ao fundo).
Encontra a mulher de sua vida na terceira esposa. Cria filhos com
austeridade e correção. Diz para o filho que ter educação é melhor que ter
um carro rápido (não para presidentes).

Já na pista, Dale é corajoso, rápido e desleal. Um verdadeiro Dick Vigarista
com bigodinho e tudo. Mas vale para a supremacia no oval. Dale parece ter o
direito de tirar os concorrentes para fora da pista, pois nasceu para correr
e vencer. Tal qual todo americano de coração e coragem, certo?

Na pista oval burra e boba, Dale é o exemplo a ser perseguido. E fora dela
também. Vemos Dale deixar de ser um caçador anos 70 e virar protetor dos
animais nos anos 90. Rico, aceita o filho bastardo que não fez questão de
criar. Fica mais paizão e menos patrão, até que, enfim, num domingão, diante
de milhares de fãs, Dale morre nesse esporte espetacular.

O filme acaba e, enquanto os créditos sobem, penso em outro herói morto num
domingo. Um sujeito quietão, que carregou a bandeira verde e amarela nos
tempos de Collor e de futebol ruim. Por que não fazem um filme sobre ele?
Uma nação se faz com exemplos e ele seria o maior de todos nas pistas. Dale
“o intimidador” Earnhardt na Fórmula 1 seria um retardatário pra lá de
intimidado. Em uma pista molhada, desaceleraria. Acostumado às curvas para o
mesmo lado do oval, Dale atropelaria postes em Mônaco. Mas isso é imaginação
minha. Dale Earnhardt tem seu filme de herói morto. Virou modelo de
virtude, iluminado, farol para as novas gerações.

Meu domingo frio segue. O mesmo filme do Earnhardt é reprisado duas horas
depois, no canal reserva. Certamente irá passar muitas vezes mais em outros
horários e canais. Mesmo daqui a uma década ou duas, talvez passe num
domingo frio e algum garoto encantado com o talento e coragem do piloto
vestido com listras e estrelas irá falar:

- Pai, esse Dale Earnhardt era um piloto sem igual, né?

- Nada! Perto do Airton Senna ele comeria poeira.

- Airton, who?



Escrito por Johnny Pinguela às 12h52
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O peso da verdade.

 

Andar pelo centro de Curitiba é como folear um livro roto. O que tem de histórias que passam pela gente. Ontem fui ao centro ( na verdade vou sempre) e entre flores, moças, mendigos e gritos de “Borboleta 16”, dei de cara com uma balança da farmácia.

 

Como estou lutando com a tal subi no ringe e pimba! Para minha surpresa estava menos gordo. A boa nova vinha em quilos e não em gramas. O piscar daquele número magro foi como um bálsamo. Teriam enfim meus esforços esbaforridos na academia sentido? As pedaladas ergométricas enfim me levaram a algum lugar? O jejum da Quaresma era mesmo o caminho para o Nirvana?

 

Sim! Certo de que sim, minha vida daquele instante adiante seria diferente. Eu voltaria o cinto aos furos do anos 80 e vestiria calça fina e camisa justa com Elastano. Com menos areia na base do coqueiro, eu renascia como um Ramesés da tumba. Meu destino seria de tio Sukita não do sucata. Haveria festa, sons, drinks, gritos e socos em meu horizonte. Estufei o peito e ganhei algumas gramas mas o que era ar para quem tinha ganho um novo fôlego na vida.

 

Nisso, já quase partindo para minha vida leve, avistei um papel de embrulho grudado na parede. Algo me disse que era para não ler as letras riscadas a Bic mas minha retina foi traíra. “Balança com defeito” dizia o trágico aviso . Foi como se um lata de banha me acertasse na cabeça! Zonzo me pergutei “ Como defeito? Onde defeito?” Se tinha algum defeito ali era o aviso. A balança estava correta, justa. Os números da balança eram corretos e irretocáveis como mensagens do céu. Porque não? Porque devemos carregar sempre o peso da verdade? Porque é simplesmente a verdade? Ora, ora a verdade é a pipa no alto. E não o vento. Se ele vem de sopro, da corrida ou do ventilador, o que importa é pipa lá em cima.

 

Pra mim a balança estava perfeitamente ajustada. Ali postada no porta do farmácia era como um preto velho dando esperanças e boas idas para todos. Imaginem quanto casamentos não aqueceu com seus erros? A patroa vinha esbaforida com sacolas, listas e filhos em mãos, se pesava e corria até a loja de langerie em busca de um tempero para o outro fogão. Imagina a salvação para as adolescente anoréxicas? Se para mim que sou semianoréxico ( não vômito ) foi um redenção qual seria o efeito para a menina com braços de graveto. Mesmo quem procurasse engordar iria receber um alento novo para se empanturrar no rodízio mais próximo.

 

Não amigos, insisto, a balança estava absolutamente certa. Errado mesmo era o aviso burro e cruel. Vivemos cercados de verdades inconvenientes. Nos pólos derretidos, no saldo quebrado, no leite do amor derramado. Por que não podemos carregar a mentira de uma balança? Diz o poeta “O olhar é a luz de dentro refletida fora”. Queria eu nunca ter visto o aviso injusto. Seguiria meu caminho mais leve que peso errado me dado pela balança certa.

 

Johnny Pinguela. Abril de 2009.

 



Escrito por Johnny Pinguela às 10h18
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