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Johnny Pinguela
 


A droga do poder.


A polícia está testando o sangue do deputado Fernando Ribas Carli Filho, que aterissou um Passat blindado em cima de Honda Fit, macerando duas almas em Curitiba. Depois de já comprovar a presença de alcóol do bom ( Carli bebeu 400 reais em vinho na noite do ocorrido), agora querem descobrir se existe alguma outra droga circulante na corrente do deturpado. Acho puro desperdício. 


Sem fazer nenhum teste ou mesmo examinar o  nariz de ninguém, afirmo que ele estava sobre o efeito de uma droga mais poderosa que as encontradas em esquinas escuras da capital do Paraná. Uma droga que alucina, causa dependência e custa caro. Por isso é para os afortunados. Seu nome é Poder.Quem já tomou sabe da pira. 


Grana, nome, cargo, mandato. A forma de administrar a droga pode variar mas o efeito é avassalador. Poder embeleza, poder perfuma, poder dignifica,  poder deixa sábio, poder faz bom pais, maridos, filhos, concidadãos.  Com poder na cuca o usuário vira o cara. Poder apaga qualquer dúvida, dívida, ficha policial, fraqueza moral, compromisso de palanque. Quando se tem Poder, a cabeça roda e muda. Santo vira demo. E demo vira político. E político, divindade. Com poder o cara pode. Pode o que? Pode o que quiser, oras bolas. Carli Filho, depois de passar por cima de várias leis de trânsito ( estava com carteira vencida e sem cinto  quis desafiar a única lei que podia lhe segurar no Brasil. A da gravidade. 


Além da sensação de impunidade, outra peculiaridade do Poder, é que ela não é um droga gregária. Quem tem Poder não passa a bola. Carreira de cocaína tem fim, já de poderosos não. O viciado faz de tudo para se manter com os olhos vidrados no pico do flash. Vejam o exemplo do humilde presidente metalúrgico que está doido para meter a terceira seringa de 4 anos nos canos. Perto de Poder, Crack é traque . Se desse para beber, fumar, cheirar ou injetar Poder, os cartéis da Colombia estariam exportando café. 


Carli Filho agora está numa UTI, com a cara rachada e nome sujo de sangue, mas o Poder segue lhe aliviando as dores da vida. Advogados tramam sua defesa, jornais diluem suas culpas, cirurgiões plásticos vão limpar a cicatriz de culpado e, por anos vindouros, RPs mostraram sua recuperação. Aos 40, será um homem limpo, elegível e impune. Porque nesta terra triste, poderoso, mesmo tendo decapitado gente no meio da rua, vira estátua na praça ou nome de avenida.



Escrito por Johnny Pinguela às 09h39
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O homem do queixo de fumaça


Queixo é banal como sandália Havaiana. Todo mundo tem. Queixo resolve, não solta as tiras e não deixa cheiro. Por isso não damos o devido valor ao queixo. Você já viu alguém ir a academia malhar queixo? A gente só repara em queixo quando não tem. Imaginem os grandes bonitões do cinema sem queixo. Tom Cruise seria garçon em restaurante de rodoviária. O queixo para quem não tem é assunto sério. A falta do queixo distorce o rosto, a vida, os horizontes. O cara passar a ser conhecido como sem queixo e, pior,  sem impeto. Queixo, como parte da mandíbula, é indicativo de força, capacidade de mascar, morder, atacar.


Sem queixo, o cara passa a ser reconhecido uma escavadeira com uma pazinha de plástico. Com o tempo, essa falta de queixo pode distorcer as idéias do tratorzinho. O cara se olha no espelho e abaixo da boca muda tem um vazio. O que colocar ali? 


Simples: a barba. O que tem de barbudo sem queixo andando por ai. Tem até um presidente vendido. Os caras parecem revolucionários rebeldes, piratas do mar das tormentas, caminhoneiros sem medo, estadistas de ferro, bah! No fundo é apenas um sem queixo mocado atrás de uns pentelhos. 

Mas a barba por si não resolve. É preciso construir um queixo social, uma mandíbula intelectual, uma prôtese que denota a forca que um queixo de carne e osso lhe daria. Na falta de carne, entra em ação essa coisa fugaz da posse, da cultura de almanaque, dos louros roubados e notinhas compradas no jornal. Tudo isso nada mais é que um queixo feito de fumaça. Dai, o sem queixo se olha no espelho, vê a barba, e por baixo dela vem a fumaça desse narguile pobre. "Não tenho queixo mas tenho MBA, nome na coluna social, tv de plasma na área de serviço. Não sou mais o Tartaruga da 7B." Se ele acha assim, tá bom para mim. 


O problema é que outro dia, um sem queixo não foi com a minha cara. Putz! O sujeito tem família de nome, posição na firma. Podia estar ajudando a resolver o problema da cidade, da mortalidade infantil ou dando lucro para saco que puxa, mas achou que o problema maior era justamente eu. Por que? Talvez porque seja eu um pneu velho para esses mosquitos da Dengue. Ou talvez porque eu tenha um queixo na cara e amigos na rua. Acho que falta de queixo implica em falta de humor para rir com os outros e de si mesmo. Afinal, é compreensivo, quando se tem a aparência de atração de parque temático de Orlando, a vida é amarga. É preciso constantemente se auto-insuflar. Martelar o prego que se destaca, intimidar os fracos, roubar o trabalho alheio e empinar o queixo lá para o alto. Tão alto que todos podem ver que na verdade aquilo não e um queixo. Mas um baita calcanhar de Aquiles. 


 



Escrito por Johnny Pinguela às 16h06
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