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Johnny Pinguela
 



A raspinha que eu não quero raspar.


Há uma semana, aqui no bolso, bem em cima o peito, tenho uma raspinha de 200 mil.  Esse prêmio me tiraria do fundo do poço que me debato. Mas eu não consigo agarrar essa corda. Sempre que vou raspá-la vejo no verso a probabilidade infima que tenho de ganhar a bolada ( 1 em 1.333.333 ). Isso é muito inimigo mesmo para Espartano. Então, penso melhor e  guardo no peito a aposta na vitória.  A raspinha de 2 reais me vale mais sem raspar.

Me agrada ter uma raspinha inraspada aqui em cima do peito. É uma segurança meio tola. Igual carrão Chevrolet de tiozão aposentado,  guardado na garagem seguro de risco, batida, desilução, passeio. Assim, sem aranhão, a raspinha virgem me vale  como uma ponta de terra em meio a correnteza do mar. A terra está a vista mesmo mar me levando em boa hora.

Ao longo de minha vida sempre tive raspinhas assim no peito. Apostas que, com medo perder, não tive coragem de tentar ganhar. Meu primeiro amor  foi uma delas. Sentava ela linda na primeira fila da quinta série D e eu no fundo obuscuro e reprovável. Ela, como devia de ser, era perfeita,  eu ruivo e dentuço. Seu nome não digo bem como ela nunca soube do meu irrestrito amor. O medo de ouvir "não", amordaçou a chance do sim no fundo do peito .  Sem nunca raspar na decpção, me raspei na solidão. Tsk! Tsk! E o pior que de lá prá cá pouco aprendi.

Ouve vezes  que foi a timidez, algumas outras, a insegurança e outras, o estranho e obscuro medo de vencer, me levaram a apostar mais no não e fazer disfeita para o sim. Ora, ora Pinguela, que aposta mais trouxa essa? Desapostar em mim. Desganhar o meu ser, a minha sinceridade, o meu poder, amor. Eu sou mais é eu. Se não gostam que digam não, desaprovem, destratem, chamem segurança. Mas eu vou me arriscar mais.

Porque se tem uma coisa que os sims perdidos me ensinaram é que a na vida só vale o que você fez. E o não esse eu já tenho de cara.  Então, o negócio é arriscar raspar, riscar texto, rasgar o peito, resgatar o amor no mar . O risco só é de acertar no milhar, levar tapa na cara ou simplismente descobrir que perdeu 2 real. Então, terminando de escrever esse texto vou raspar a raspinha que não quero raspar. Se der, ganho 200 mil e viro escritor. Se não, fico com esse texto escrito.





Escrito por Johnny Pinguela às 10h23
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Para os pais: O menino, a rocha e o mar.



Grande é o mar. Ainda mais quando se tem quatro anos. 

Para um menino, mais que grande, o mar é festa, desafio, perigo. Uma simples marolinha vira tsunami. Leva castelos, derruba, marca. O gosto do primeiro gole de mar fica. O olho salgado se irrita. A garganta grita: “PAI!”. 


Mar sem pai dá medo. Imensidão sem fim, solidão sem par. Mas mar com pai é doce. Mão, abraço, diversão. Tem sorvetão na faixa, lambuzão sem culpa, tubarão que faz “boo”. Com pai por perto, mar sempre dá pé. O pai só não livra da mãe com fator de proteção 1001. Lá do mundo de areia ela alerta: “Água só até o joelho e sol até as 10h30”. 


Mas o mar tá ali para navegar. E o pai, cúmplice, é salva-culpa.  Um pai de joelhos fincados na areia é como um Gibraltar grisalho. Podem bater ondas, tormentas e a rochedo não se abala. Está ali para tudo, para sempre, como pedra dura com farol forte em cima. Pai é caminho seguro, noite sem “boo”, amigo sem nove hora . No início, pai é rebocador para alto mar. Depois ensina a remar, velejar com vida, navegar. E depois pai é submarino que vê sem se mostrar. E que às vezes solta torpedo que explode “não”. 


Pai é sempre porta-avião em noite de ventania. Ondas vêm e ondas vão. Castelos sobem, caem na areia e pai fica. Na porta da escola, na noite de febre, no primeiro trago, na chave do carro para emprestar, no esporro do riscado, no ouvido a escutar, no vai que dá. Na formatura, disfarçando o choro, pai dá um tipo de tchau, olhando o filho sumir no horizonte. Pais são assim, um porto de partida para todo menino e um bom destino para todo homem. 

 



Escrito por Johnny Pinguela às 13h16
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