Invisible BRA
Eu tenho um longa e respeitosa idolatria por Sônia Braga. Por sua beleza, por seu talento de atriz, seu fogo. O que vocês nem desconfiam é que na adolescência a latina, deslumbrante e abundada Sônia era a outra no casamento da minha imaginação com minha mão.
A oficial era a Lídia Brondi. Eu via novela para comer a Sônia, mas casar com a Lídia. A Lídia era a filha boazinha do sinhozinho malvado. A Sônia Grabiela era a erupção de desejo do bar Vesúvio. A Lídia eu namorava no portão, a Sônia eu fumava escondido.
Uma eu levava para assistir Lagoa Azul no cine Vila Rica. A outra eu espremia no Drive-in Chaparral. Uma era propaganda da Gelato, outra tapume de cinema sempre lotado. As duas eu levava para o chuveiro. E, tolamente, as duas eu procurava juntas pelas ruas. Vinho e milk-shake num mesmo cálice. Tolice! Idealizar mulheres, formatar condutas, cuspir puta, beijar santa. Um sonho adolescente que não tem idade.
Dia desses cruzei com as duas, Sônia e Lídia, lado a lado. Estavam em destaque atrás do caixa do Sebo nas Canelas. Capas de Playboy as duas. Embrulhadas em plástico riscado, protegidas do folhear curioso, mais caras que um Neruda quase usado. Fiquei tentado. Sônia mulher de corpete preto e cabelo desgranhado. Lídia colegial de shortinho dourado. Penduradas no auge da fama. Grudadas com durex em mim adolescente... Fiquei tentado a voltar no tempo. Relembrar em páginas amareladas, os contornos de minha juventude. Reviver noites com a Sônia na Papagaio Disco Club e passeios de patins com Lídia no Roxy Roller. Namoradas que nunca tive, estátuas de mármore que nunca abandonei. Somei o custo da viagem: R$ 65,00. Sendo R$ 35,00 pela Lídia. Afinal, moça de família vale mais.
Pensei no supermercado que ainda tinha de fazer. Achei que R$ 65,00 compravam muito Quik, Trakinas, Power Rangers de açúcar e deixei as revistas e lembranças embrulhadas no plástico riscado. Com R$ 14,50 paguei o Neruda e ainda carreguei uma Bravo amassada.
Na loja ao lado, o locutor entediado anunciava "Invisible BRA", o sutiã sthealt. Enquanto cruzava a rua fora da faixa, pensei que sutiã invisível mesmo é aquele que mantém os peitos da primeira namorada seguros da realidade.
eduardo visinoni