O Galho Guerreiro. Entre a Igreja do Couto Pereira e o Estádio do Perpétuo Socorro, ele se ergue como um Cristo renascido. Ou , dependendo de que lado da rua você torce: um time retornado da segundona.
Devia ter vergado, rebaixado, murchado, morrido. Mas não. Alí está o colosso para quem quiser olhar. Verde, punjante altivo e plantado na cobertura de uma parada de ônibus. Na pressa da manhã ele me pára e eu embarco no seu mistério. Como pode um galho pode viver sem árvore, raiz ou terra?
Que eu saiba, teto de zinco só foi fértil para o compositor Cartola. Raízes não vingam em aço. Galho não vive sem tronco. Vida não existe sem fé. Por isso talvez, alí está ele, pelejando pela vida como São jorge pela boa causa: o Galho Guerreiro.
Paulo Coelho diz que Deus nos fala através de sinais. Eu não acredito muito em quem apareça em capa de Caras, mas acredito em Deus. Ver um galho morto sobrevivendo me dá um tipo de sombra branca e boa.
Sabem, há tempos eu perdi o trabalho que me dava sustento. Mais que isso, me dava sentido. Eu era então um galho promissor de uma grande árvore. Escrevia, tinha idéias e preenchia folhas e mais folhas com elas. Um dia um vento traiçoeiro soprou e eu voei. Busquei por um canteiro novo para me enraizar mas às vezes os corações podem ser áridos como paralelepípedos e só limo cresce por entre as frestas. Assim fui condenado a vagar como arbusto em filme de cidade fantasma. Girei por São Paulo, rodei por Floripa, fui fundo do poço e voltei para o Alto da Glória.
Como o galho verde, sigo vivo sobre o zinco quente. Como um cruzado desterrado , sigo sem chão. Como Ronin, sigo sem paz. Como São Jorge, sigo na luta. Com raízes incertas, apenas a fé me nutri e os sinais me mantem em pé. Talvez eu cresça e faça uma sobra branca e boa. Ou talvez, não. De certo, por hoje, só por agora, o galho guerreiro me alavanca para amanhã.
johnny pinguela. setembro 2009
Escrito por Johnny Pinguela às 10h10
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