O chapéu único. Cada vez que eu entro na C&A as roupas me impurram mais e mais para o fundo.No fundo, mais preto, marron e pastel, é onde ficam os modelos para quem não quer se fantasiar de funcionário da MTV. Entretanto, hoje no almoço, um artigo me segurou na parte de frente da loja. Era um chapéu. A moçada da hora está usando esse chapéu tipo Panamá "redux" porque viu alguém numa passarela ou propaganda usar, achou novo, inusial, moderninho. Mal sabem que o modelo tem mais de 60 anos. Nat King Cole, o Key West dos anos 50, usava esse chapéu malandro e eu quero usar para roubar um tanto de seu charme e resfrescar a cabeça no verão. O caso é que após ver que o preço me servia ( R$ 39,00), ao olhar o tamanho da peça uma lingueta me informou que ele era do tamanho "UNICO". Sabem, tem dente de coelho nisso de tamanho "UNICO". Como assim tamanho "UNICO"? "UNICO" para quem? Não para mim, para meus anceios panamenhos, para meus sonhos Nat King Coles e muito menos pro descomunal cabeção. Dai já viu. Ao calçar o tal Panamá o tamanho "UNICO" não coube. E não podia ser diferente. Porque eu sou um cabeçudo ( número 59 ) e porque tamanho "UNICO" é na verdade o selo da ditadura da média. Amigos, já vivemos a ditadura do proletáriado, a ditadura do militáriado e agora vivemos sobre a bota Carmim da ditadura do mediano. É a média que empurra o pendulo para centro e Jesus para Judas. É a média que pinta a morrenas de loiras e os carros de prata. A média faz Menu ter número, criança ter nome de estrela de novela e começarem frase com "Então". Dai, fora da média tudo é ruim, longe, disléxico e sem cabimento. Assim, a moça de vermelho na facu vira puta , o corpo um campo de batalha e eu um cara sem cabimento.
Na minha infância eu era ruivo, sardento, cabeçudo e fora da média. Vivia a ler, ouvir Nat King Cole e pensar em coisas únicas na vida como o sabor de jabuticaba no verão, pipa no céu, crinas morenas ao vento. Dai, cresci um tanto, o ruivo escureceu e o tamanho único ainda não me cabe. Por isso o chapéu ficou no seu escaninho padrão e eu cai na rua do centro velho de Curitiba sem um Panana para me aliviar do verão. Vendo vitrines da moda, cassarões pixados e gente escorrada em bobagens para se situar pensei comigo que se tem um chapéu único nesta vida é aquele que calçamos por dentro.
Escrito por Johnny Pinguela às 16h53
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E a vida, continua? ( por um ano sem Raquel Maria) Uma das coisas que leva a humanidade para frente a capacidade de continuar. O amor se acaba e gente segue. O emprego é perdido e a gente segue na luta. O time cai e a gente segue na torcida. Em toda reportagem sobre enchente, sempre tem uma pessoa ensopada com olhos fixos no horizonte a dizer “é...a vida continua”. Mas existem momentos que essa capacidade de ir adiante vira defeito. Há dois dias, a menina Raquel Maria foi encontrada morta dentro de um mala na rodoviária de Curitiba, e vida continua na cidade. Uma criança de nove anos na volta da escola foi sequestrada, violada, assassinada e abandonada numa mala. E continuamos todos nós com nossa vidinha. Intimamente, até sentimos um horror retido, um leve pesar, daí damos graça por não ser nossa filha e continuamos com nossa rotina. Essa capacidade de assimilar o horror é tão assustadora como um menina morta em um mala. Ao continuarmos levando a vidinha cotidianamente, matamos a tal da indignação, qualidade essa que nos leva para cima. Ano passado um torcedor italiano de futebol morreu a caminho do estádio e toda a rodada italiana foi cancelada. Por aqui, na noite de Natal, dois operários morreram eletrocutados numa rave e a festa seguiu na maior vibe positiva. A capacidade de assimilarmos o horror anaboliza o horror. “Pelo menos a mala era grande e a menina não foi esquartejada” dirá alguém. Se Raquel fosse nossa filha, neta, irmã ou amiga, a vida parava. Então, por levarmos sorte desta vez, vamos a adiante que atrás vem gente? Não sei como tem passageiro indo aquela rodoviária em busca de um destino outro que meditar a dor por essa perda. Se fossemos civilizados, como pensamos ser, os ônibus deviam parar de chegar e sair do terminal. Os carros deviam parar e rodar, os garçons de circular, os aviões de decolar, os jornais de roubar fotos da menina do Orkut e de escrever coisas tolas sobre os dela pais. Não haveria mais aula de cidadania em escolas, nem madames indo a shopping ou outros viciados se aplicando. Não tinha televisão abutre de carniça, nem propaganda de refrigerante vendendo zoeria, nem prostíbulos de pernas abertas. Nenhum polícia enrolaria, nenhum político escorregaria, nenhum ladrão roubaria, nenhum banco pediria empréstimo, nem bolsa alguma teria valor . Ninguém gastaria tempo com decoração de Natal bem como com votos de um feliz ano novo. Uma criança morreu! Uma semente foi pisada! E não haveria ano novo até que a gente compreenda que Raquel Maria somos nós. Todos nós! Sua perda é a perda de todos que a conheceriam em vida e todos que viveriam depois dela ter vivido plenamente. Também, nosso silêncio paralizado coletivo, diria a todos o demônios desse e de outro mundos que isso era intolerável, impraticável e não ficaria sem punição. Ou, melhor ainda, es-que-ci-men-to. Assim, talvez, com uma pontinha de luz no peito, poderemos todos nós erguer a cabeça, suspirar longamente. eE, enfim, dizer a frase de quem nada tem além de seguir em adiante. Johnny Pinguela. Novembro de 2008
Escrito por Johnny Pinguela às 09h44
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